Mox in the Sky with Diamonds

sábado, setembro 19, 2009

RS NO FUNDO DO POÇO




A TAL "SEMANA FARROUPILHA" nos dá chance de ver um fato tão escancarado que sua negação desesperada é puro sintoma da sua verdade: o afundamento abissal da imagem tradicional do Rio Grande do Sul.
Há pouco tempo atrás, os EUA mergulharam profundamente em um processo de declínio que envolveu, entre outras coisas, políticas baseadas no fanatismo religioso e uso de estratégias totalitárias na violência pública (tortura, campos de concentração, invasões de países, etc.). Foi um processo longo e gradativo iniciado por Ronald Reagan que possibilitou a ascensão do neoconservadorismo na sociedade, jogando a cultura liberal norte-americana no lixo. O que começara com a estratégia do grande encarceramento, do recuo do Welfare State e avanço do Estado Penal, da conjunção de fatores que abrangeram a "disciplina dos pobres" (o "pensamento" Manhattan) e o populismo penal - tolerando até esquizofrênicas teses de que é melhor, para distribuir os impostos, reduzir para os ricos do que ceder aos pobres ou de que a história teria chegado ao "fim" -, deságua numa melancólica "Guerra ao Terror", sem alvo claro, sem princípios, sendo ela própria terror, com práticas que colidem com valores compartilhados por grande parte da sociedade norte-americana. É como se fosse um gradual processo de radicalização à direita que começa tímida e vai até o limite. Foi justamente esse processo que possibilitou a eleição de um liberal clássico como Obama, diante de um ambiente saturado de conservadorismo que chegou ao seu limite e transbordou.
Parece que o RS vive processo semelhante. A sectarização do debate público que inicia no Governo Britto e recrudesce no Governo Olívio parece ter atingido o ponto máximo. A fúria antipetista - que está ancestralmente arraigada ao anticomunismo simpático à ditadura militar -- consolida seu ambiente no Estado até sufocar a esquerda e impossibilitar o crescimento dos seus eleitores. (O PT gaúcho, por óbvio, não é inocente nesse processo: que o digam erros crassos como a filiação de Dilma Rouseff e Sereno Chaise durante o Governo sem restituição dos cargos ao PDT, perdendo o aliado estratégico que possibilitou a eleição e possibilitaria o Governo.) O processo -- que conta com o auxílio do jornalismo marrom que povoa as páginas do Grupo RBS -- gradualmente vai tomando o tecido social com um manto de ódio e conservadorismo até desembocar no seu produto derradeiro: o Governo Yeda Crusius.
Ao contrário do discurso da mídia oficial, que teima em pintar as coisas como um conflito entre sectários, trata-se da gradual hegemonia de um discurso tipicamente ideológico cujo único mote é o ódio ao petismo (descendente do "comunismo"). Se a tese da mídia marrom estivesse correta, o processo deveria ter suavizado com o "pacificador" Germano Rigotto, o que não aconteceu, uma vez que o resultado da eleição de 2006 é um segundo turno em que o principal objetivo é ver o PT fora, depositando-se "voto útil" em Yeda (o que gerou o efeito colateral da sua eleição). O sectarismo antipetista, no episódio que chamei por aqui de "morte da política no RS", acreditou que poderia derrotar esmagadoramente o terço cativo da esquerda que é o piso do PT, levando dois candidatos da direita para o segundo turno. Ou seja: trata-se de um momento de auge -- em que o moralista gaúcho invoca o "mensalão" e a "companheirada" de Lula -- para esmagar o adversário da esquerda. Por um erro de cálculo, o candidato Germano Rigotto acaba não passando para o segundo turno e isso resulta na eleição de Yeda Crusius.
Esse processo de radical antipetismo encontra agora, tal como o neoconservadorismo de George W. Bush, seu momento de exacerbação e, por isso, declínio em face do transbordamento. O Governo Yeda Crusius leva a cabo políticas visivelmente fascistas que envolvem arbitrariedade policial explícita, repressão violenta a greves, movimentos sociais e até a passeatas tipicamente políticas contra seu governo. Ao mesmo tempo, afunda na lama junto com parte da elite política do RS que comandou o Estado nos últimos 15 anos, usando estratégias vergonhosas e espúrias a olho nu (por exemplo, ter como "capitães" na Assembléia um deputado com a função de relator da CPI que afirma a única missão de impedir seu acontecimento; ou outro cuja única estratégia é gritar e intimidar seus adversários, como, aliás, é típico dos fascistas em todos os lugadores). A própria Governadora está visivelmente envolvida e só piora a cada dia sua situação. Suas intervenções são sempre lamentáveis e não raro indicam -- tal como ocorria com Bush -- perturbação psíquica.
O desespero tem levado o jornalismo marrom do Grupo RBS a usar táticas diversionistas (tão engraçadas - e trágicas - quanto as de Flávio Obino sua Presidência do Grêmio) ou estigmatizadoras (acusando a oposição de "radicalismo" ou "politização"; ou os manifestantes de "vândalos" ou "sindicalistas") em um nível a tal ponto ridículo que mesmo aqueles ingênuos que não percebiam as mentiras e desvios agora vêem claramente. Semelhante a Bush nos EUA e a manipulação midiática pornográfica na Guerra ao Iraque, as coisas aqui -- com a ajuda da Internet -- vão se tornando tão transparentes que, mesmo tentando desesperadamente, a mídia marrom não consegue mais segurar o rojão.
Esse RS - chafurdando na lama -- agora comemora suas festas típicas com a sensação de completa desmoralização; os "cidadãos de bem" mostram suas faces de canalhas e picaretas que, enquanto pregavam suas ideologias sujas, apropriavam-se do dinheiro dos cofres públicos. Toda mitologia em torno da "honestidade do gaúcho" ou do "aqui é diferente" caiu no riso. A Semana Farroupilha é a semana de um Estado em frangalhos, desmoralizado por um processo de crescimento do pensamento fascista e autoritário que redundou no pior Governo dos últimos tempos, comparável apenas aos irmãos do Norte. Certamente o copo do antipetismo que tolerava tudo que não fosse PT transborda quando mostra sua pior face. Tudo indica que a próxima eleição - para desespero do jornalismo marrom - será o momento de inversão na qual, como aconteceu nos EUA, avizinha-se uma mudança de rumos.

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quarta-feira, setembro 16, 2009

LIXO GAÚCHO

Manchete do nosso jornaleco marrom hoje sobre passeata de estudantes que reivindicam o impeachment da governante com mais evidências de corrupção dos últimos tempos e a saída de um relator (algo equivalente a um delegado!) que diz que seu principal objetivo é obstaculizar a investigação ("a CPI do PT"):

É por essas e outras que, depois de morta a grande mídia, os jornalistas não vão entender bem o que aconteceu.

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quarta-feira, agosto 26, 2009

ANTI-FASCISMO




Via http://twitter.com/heliopaz.

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O DECLÍNIO DA MÍDIA BRASILEIRA

AS GRANDES REDES DE COMUNICAÇÃO - comandadas por oligarquias que apoiaram a ditadura militar e até hoje são o principal anteparo da direita nacional - estão em pleno declínio. A Internet faz com que seu fim de avizinhe. Elas sabem disso. Com a pulverização da informação, sua capacidade manipulatória de fixar a agenda pública vai desabar. E, com isso, todo poder que exercem perderá gás. Questão de tempo.
O desespero da Folha -- jornal cuja assinatura já penso em cancelar, e assinei com muito gosto durante muitos anos -- é apenas mais um sintoma disso tudo. Depois da morte de Otávio Frias Filho, o jornal perdeu uma certa contenção que tinha no ridículo e passou ao serrismo escancarado. Ontem, no Portal do UOL havia pelo menos umas cinco manchetes dizendo "Oposição...". Convenhamos, nossa oposição é ridícula: não apresentou plataforma eleitoral alguma, tem como paladino da moral um senador que mandou assessor estudar dança na França e ataca os oligarcas com que estavam tomando cafezinho há pouco tempo atrás. Não é notícia, pelo menos não na intensidade em que está sendo veiculado. Por que, por exemplo, a oposição não assume logo o discurso do mercado, como fazem os republicanos nos EUA? Nem isso consegue. Não consegue nada.
A quantidade de escândalos fabricados nos últimos dias é sinal de desespero: a Folha, que é aliada da oposição (não sou eu quem diz isso, é só ler o Ombudsman do jornal), já percebeu que em conteúdo não tem como vencer a próxima eleição. A tentativa de etiquetar Lula como paternalista, assistencialista, ideológico, aparelhador e, por fim, golpista, não colou. E com os índices de aprovação que tem Lula é improvável que não faça seu sucessor. Então agora o negócio é partir para a artilharia pesada, tentando colar algum escândalo que evite a eleição novamente da esquerda.
O recente episódio Dilma-Lima é a face do ridículo. Além de banal, a própria descrição do fato não induz as insinuações que a mídia vem fazendo. Caídas as insinuações, fica apenas uma questão de forma: Dilma é ou não mentirosa? É sempre assim: quando o dossiê é contra o PT, estoura o conteúdo; quando é a favor, estoura a forma-dossiê. Quando o sigilo quebrado é contra o PT, vaza o dado; quando é favorável, é o escândalo da quebra. Se a mídia brasileira não fosse arrogante a ponto de se desenhar como imparcial, eu nem me importaria com isso. No caso em questão, o problema é que a mídia alternativa já descobriu que Lina mente e inclusive tem relações com a oposição. Mas a grande mídia não denuncia. Quem quiser saber a verdade, consulte o Blog do Nassif, que vem fazendo uma cobertura ampla do caso e desmontando uma por uma das versões midiáticas.
A propósito, a Folha já começa ridiculamente a recuar sem admitir o erro.

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sexta-feira, agosto 21, 2009

A MÍDIA NÃO É ESFERA PÚBLICA

MANCHETES E MANCHETES sobre José Sarney e Dilma Roussef (bem menos sobre Yeda Crusius). A mídia, defensora da "moralidade" e da "ética", ridiculariza os políticos, chamando-os de cafajestes e reclamando do apoio do PT a políticos corruptos. Já escrevi e reitero, no entanto, que todo movimento em cima de Sarney é estritamente político e revela perda parcial da cobertura, em face da ofensiva em favor de Serra que começa (para a próxima eleição presidencial) e do protagonismo do fisiológico PMDB. Os atos que Sarney praticou e hoje escandalizam não começaram ontem, mas a campanha sim. Para contribuir e fechar a cena ridícula, os defensores da moral, Arthur Virgílio e Pedro Simon, encontram-se em maus lençóis. O primeiro teve a coragem de declarar que seu ato de mandar um assessor estudar teatro na França não era nepotismo (?); o segundo, enquanto vocifera contra Sarney, é o principal eixo político de Yeda e sua organização criminosa, segundo o MPF, aqui no RS (Simon, se quiser ser paladino da moral, pelo menos SEJA).
Esse festival bizantino é agora complementado pelo factóide da reunião entre Dilma e Lina, funcionária da Receita. Desde o início, vi que a polêmica era ridícula, desproporcional e visivelmente eleitoreira. Dilma mandou "apressar" o processo contra o filho de Sarney, e disso foi deduzido que a função era "engavetar" (aliás, o brilhante FHC, grande defensor das instituições no Brasil, é que havia nomeado um engavetador na PGR -- sobre o quê, claro, nada se comenta...). Mais tarde, a assessora, chamada a depor, revelou que sim, falou com Dilma, mas foi pedido apenas celeridade. Morreu o factóide, mas agora fica a polêmica se Dilma é "mentirosa". Ei, isso é irrelevante no momento! O fato não existiu e, mentindo ou não, Dilma não fez nada de errado. Portanto, há coisas melhores para se discutir.
E, no entanto, segue a pauta única. Reitero: o problema da corrupção não é casuístico, não é mau-caratismo apenas. É mais fundo. O problema é a privatização da esfera pública, o fato de que o Brasil, como seus vizinhos da América Latina, é ainda governado por oligarquias, das quais a Sarney é apenas uma mais arcaica e menos fashion. E, se o problema é esse, é preciso dizer: a mídia não constitui uma esfera pública. A mídia não é o lugar adequado para discutir corrupção porque ela própria faz parte do jogo. Assim como as oligarquias que dominam o Congresso Nacional, há tempos a mídia é dominada por oligarquias e faz interesses privados pautarem a discussão pública. Os donos das redes midiáticas têm interesse na eleição de José Serra e farão de tudo para conseguir elegê-lo. Por isso, toda discussão moral é sempre seletiva. Por isso também jamais se discute o fundo do problema. E por isso ainda a discussão fica em torno de bodes expiatórios.
Reitero mais uma vez: tenho asco de Sarney e o PMDB. Mas não caio no moralismo da mídia. A estratégia é simplesmente udenismo: denunciar, denunciar e denunciar até conseguir atingir mortalmente Lula e Dilma, para eleger José Serra. Simples e rasteiro. Um olhar quantitativo e qualitativo sobre as tendências editoriais, o destaque das matérias, os títulos e abordagens torna nítido, transparente, óbvio que há dois pesos e duas medidas. A mídia não é esfera pública porque ela própria faz parte do engodo que coloca o privado no lugar do público, fazendo de grande parte da população massa de manobra de uma jogada política esperta.
Nem sei se tão esperta assim. O povo não é mais tão bobo. E Lula investe na economia como principal plataforma, que é algo quase invencível. O Brasil não parou na crise. O desemprego continua caindo. Bolsa-família e salário-mínimo, dois benefícios distributivos que são palpáveis para o pobre (ao contrário da boa gestão -- hihihihi -- tucana), continuam subindo e dando esperança. Isso o udenismo não atinge. Quando Danuza Leão vira bandeira da direita, é porque a coisa está feia.
Independente da tática falha, fato é que hoje a Internet se aproxima mais -- no seu anarquismo explícito -- do que seria uma esfera pública. Na Internet, é possível buscar opiniões duelando, informações variadas e não o funil seletivo e ideológico que impregna a grande -- e quase finada -- mídia. Enquanto Globo e Record duelam na lama, o futuro se avista e o fim do poder televiso dessas oligarquias se aproxima. Aproveitemos, enquanto o estado de exceção não se apresenta por aqui.

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segunda-feira, junho 15, 2009

A BURRICE COTIDIANA NO RS

TEM GENTE QUE FICA brava quando falo que o povo gaúcho é uma merda. Alguns por gostarem do "tradicionalismo" (pura alucinação); outros, por considerarem o RS "marginal". Enfim, sei lá. Talvez ache o povo gaúcho uma merda apenas por estar com uma perspectiva mais próxima. É possível. Só que não posso deixar de comentar essa exibição da mediocridade gaúcha cotidiana que é a Zero Hora. Sem ter o toque afetado e propositalmente cínico dos cronistas da Veja, por exemplo (que já identificaram como filão editorial o neoconservadorismo), os gaúchos são sweet neocons by nature. "Natural born neocons". Não tem nenhuma afetação nos nossos jornalistas: eles são retrógrados, estúpidos, reprimidos e repressivos mesmo. Fazem o jornalzinho do Texas.
Vejam as mais recentes "campanhas". Primeira, o "X da educação". Fica-se debatendo artigos e mais artigos sobre os "limites" do adolescente, sobre a desobediência à "autoridade" do professor e a ausência de "disciplina" dos jovens modernos, mas nada se fala sobre: 1) o salário ridículo e pífio que desmotiva qualquer professor; 2) as condições precárias das escolas, incapazes de atrair os alunos para atividades; 3) as condições sociais precárias desses "alunos-problema"; 4) a grade curricular ridícula e cheia de conteúdos desnecessários, baseada na memorização burra e inútil; e 5) na insuficiência de uma educação baseada no castigo, tradição, disciplina e autoridade nos nossos tempos contemporâneos.
O mesmo com o "Crack, nem pensar". É a coisa mais burra que já li na vida. Crack é algo que devemos pensar, sim. E muito. Pois, se o crack é algo que retira completamente a dignidade do humano, devemos pensar como as pessoas chegam lá. O ser humano abaixo da linha da dignidade - a exemplo do "muçulmano" do campo de concentração - é produto de um experimento biopolítico que estamos construindo. Não é por acaso que são as fatias verdadeiramente a-bandonadas que sofrem do crack em maior intensidade. São, por exemplo, os moradores de rua, paupérrimos, miseráveis, famintos, com frio. Usam a droga para sobreviver como os zumbis dos campos.
Da forma como é construída, a campanha é tão imbecil que é capaz de ter efeito reverso. Adota um enfoque moralista e uma posição besta. Faz parecer que o crack pode ser usado pelo senhor de bigodes e gravata que lê a sua ZH todos os dias de manhã, enquanto passa a manteiga no pão e toma café preto. Relatos de crack na classe média ou na elite são puro pânico moral. Existem. Mas são bastante reduzidos. O crack - que é uma droga-lixo --, é algo bem mais típico da população marginal, da vida nua. O "senhor" lê: "Crack, nem pensar". Aí ele pensa: "ah, bom, fiz a minha parte, não uso crack". E pronto, não? Como é que temos tanta burrice entre nós? Que tal ele pensar sobre como a nossa biopolítica que "desperdiça vidas" (expressão ótima de Bauman) é capaz de produzir esse resultado final, esses zumbis ambulantes que vemos transitar pelas sinaleiras? E o quanto ele - cidadão de bem - contribui para tudo isso sublinhando o contraste que o separa da vida nua e o faz se arrastar na sua mediocridade pequeno-burguesa?
Um jornal infame para um povo infame. Pelo menos o Juremir Machado da Silva - não por acaso expurgado do jornaleco - nos salva todos os dias (uma pena a política pré-histórica do Correio de fechar sua edição na net).

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quarta-feira, junho 03, 2009

FACTÓIDES

NADA ME IRRITA mais do que ver o factóide do terceiro mandato de Lula todos os dias na mídia antipetista. Que coisa cansativa! Nunca houve cogitação de terceiro mandato por parte de quem interessava ouvir: Lula. Ao contrário: justamente o superbom FHC, o grande FHC, a quem cabe tantos "avanços" e "estabilidade institucional" foi justamente quem propôs uma continuação do seu mandato. Não sou xiita a ponto de não reconhecer avanços com FHC, mas também não sou cego a ponto de mudar de posição conforme o envolvido. E nem de vangloriar quem não merece. Por isso reproduzo o texto abaixo, que espelha perfeitamente tudo que penso sobre o tema:

Um terceiro mandato, por favor!
01/06/2009
14:51:20
Leandro Fortes
A imprensa brasileira não vai descansar enquanto não arrancar do presidente Lula,
ou de algum ministro de Estado, uma declaração favorável ao terceiro mandato. A insistência com que a mídia tem tratado do tema, em ondas ciclotímicas cada vez mais curtas, revela aquele tipo de interesse que nada tem a ver com os fatos ou, no limite, com demandas jornalísticas. Trata-se de uma campanha infernal para colar na imagem de Lula a pecha de “ditador chavista” às vésperas de um ano eleitoral, como se fosse possível, a essa altura do campeonato, estabelecer semelhanças ideológicas e de ação governamental entre o presidente brasileiro e seu colega, Hugo Chávez, da Venezuela. Há mais de dois anos, escrevi uma matéria na CartaCapital (“Eterno factóide”) a respeito do assunto, quando a onda do terceiro mandato tinha como objetivo contaminar as bases eleitorais do governo, com vistas às eleições municipais de 2008, quando ainda rescendiam brasas sobre os escombros do chamado “mensalão”. Lá, pelas tantas, escrevi: “O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, além de ter sido beneficiado com a manobra da reeleição, colocada em prática via mudança da Constituição, foi um dos avalistas internacionais do terceiro mandato de Alberto Fujimori, do Peru. Tanto, e de tal forma, que Fujimori, atualmente às vésperas de ser julgado por crime de corrupção, tráfico de armas e genocídio pela Justiça peruana, arrolou FHC como estemunha”. Incrível, né? Fernando Henrique Cardoso alterou a Constituição Federal, à custa de um escândalo de compra de votos no Congresso Nacional, para
emendar um segundo mandato, com apoio irrestrito da mídia nacional. Em outro front, dava apoio político e diplomático a Fujimori, conhecido bandoleiro internacional, dado a censurar jornalistas e assassinar opositores, para que “El Chino” conseguisse um terceiro mandato no Peru. Sobre o que estamos falando mesmo? Ah, sobre o terceiro mandato, idéia rejeitada, sistematicamente, pelo supostamente (vocábulo adorado dos jornais, nos últimos tempos) principal interessado, a saber, o presidente Lula. A insistência sobre o tema, ainda tocado em clima de factóide, é tão óbvia que chega a ser cansativo dissertar sobre ela. Estancado em níveis de popularidade jamais alcançados por outros presidentes na história deste país, Lula vive em franca liberdade de movimento para emplacar seu sucessor, no caso, sucessora, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef. Feliz, gordo e corado, Luiz Inácio conseguiu estabelecer com o eleitorado uma ponte de comunicação praticamente imune aos ruídos da mídia, de qualquer mídia. A este povo sem mídia, e sobre o qual a mídia nada entende ou atinge, Lula fala a língua da distribuição de renda, da segurança alimentar e da identidade nacional. De certa forma, conseguiu converter em ganho eleitoral todos os males a ele atribuídos pela zelosa elite intelectual e econômica brasileira, da falta de educação formal à aparência física. Quisesse mesmo se empenhar na luta pelo terceiro mandato, Lula teria todas as condições, dentro e fora do Congresso, para conseguir sucesso no intento, sem a necessidade de comprar votos, pelo menos no sentido literal do expediente utilizado na Era FHC. Foi-se o tempo, no entanto, em que o presidente se cercava de assessores que o incitavam a atitudes insanas, como a de querer expulsar o correspondente do New York Times do país, por quem foi acusado de ser cachaceiro militante. Agora, a cada investida da mídia, Lula desmancha-se em desencanto: é contra, diz, o terceiro mandato. Ainda assim, como quem oferece crack a um viciado, o Datafolha gastou tempo e dinheiro na tentação de divulgar uma pesquisa na qual mostra um “país dividido”, 47% a favor, 49% contra o terceiro mandato. A mensagem é clara: então, porque não arriscar, presidente? A resposta também: porque Lula não é bobo. Para uma oposição perdida e enterrada num pré-sal de indefinições, nada seria mais providencial do que o surgimento de um Lula ditatorial, finalmente revelado em toda a sua essência autoritária e aparelhadora, um Chávez tropicalizado e, melhor ainda, a tempo de ser trabalhado em infinitas edições de domingo. Viriam especialistas, cientistas políticos, blogueiros de repetição, colunistas, deputados e senadores a denunciar a quebra das regras democráticas, a incutir pânico na classe média, a convocar as senhoras de Santana a marchar sobre a Paulista, o horror, o horror! De qualquer maneira, não custa deixar essa pauta na gaveta. Quem sabe ela não emplaca no ano que vem?

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quarta-feira, maio 13, 2009

CORRUPÇÃO NÃO É A QUESTÃO CENTRAL

You look so tired-unhappy,
bring down the government,
they don't, they don't speak for us.
(Radiohead, "No Surprises").

A NUDEZ EXPOSTA da Dama de Ferro (graças a Deus, isso é só uma metáfora, ok?) e seus vínculos visivelmente imersos na lama da corrupção, a mesma que atingiu o PT há alguns anos atrás, mostra os limites do discurso moralista que inunda nossos periódicos de direita e esquerda e coloca gasolina na locomotiva que move o circo coletivo. Trocam-os os narizes de palhaço, as perucas, as fantasias, mas a piada é sempre a mesma e, enquanto a platéia mastiga milho e pipoca, a escória morre como vida exposta que é.
A imprensa marrom que faz a cobertura mais chapa-branca já vista antes era a própria fogueira da inquisição. Blogs de esquerda agora assumem essa posição. A disputa por quem é corrupto não tem vencedores. Todos chafurdam na mesma lama, sujos de merda até o último fio de cabelo, mas loucos para atirar no adversário como se o mundo tivesse começado ontem. A briga explícita pelo troféu do mais puro é, na sua concretude asfixiante, a briga pelo mais cínico. Argumentos se viram de cabeça para baixo e ricocheteiam. O palco muda a toda hora os atores, mas a peça é a mesma. Os feios viram bonitos, os bonitos feios, e assim por diante, como se não existisse nada a não ser a roda girando enquanto a platéia, entorpecida pelo lixo discursivo das falas do narrador e dos atores, só consegue vaiar ou aplaudir. Platéia que vaia o lixo mas está com a roupa de baixo suja de cocô. Todos no mesmo barco. E vaiar, que adianta?
E então? É só para dizer que a luta contra a corrupção não é uma verdadeira bandeira de esquerda. A moralização da política, típica da extrema esquerda atual (como vem anotando o Idelber Avelar), é uma plataforma pífia e não ataca os dilemas fundamentais do nosso tempo. Apenas troca os palhaços de lugar. A discurso vestal-quaker que aperta os nós das gravatas dos moralistas é repetido por bocas que se consideram revolucionárias. Juntos, Heloísa Helena e Lasier Martins. Entoando o cântico da moralidade e da pureza. Do cidadão de bem.
Os campos políticos não se definem pela corrupção, mas pelas suas posições de base. A corrupção é apenas o que revela, certas vezes, como se constróem esses campos. As forças políticas (e midiáticas) reproduzem sua ideologia na adesão ao lado defesa/acusação diante da corrupção. Permanecem intactas, alheias ao fato. A moralista ZH se transforma em suspeitosa quando seu aliado é atacado. Tudo permanece a mesma coisa. Mas o silêncio da esquerda -- da corrente que deveria se ocupar do oprimido e do marginal -- tem efeitos reais. Enquanto o circo se desenrola, a vida nua definha. Ficamos discutindo a pauta dos engravatados enquanto o Outro morre na rua.
Já li alguma coisa escrita sobre corrupção na Alemanha, Inglaterra, EUA. São países com alto grau de corrupção, mas as nossas cabecinhas colonizadas acham que são uma maravilha. É que eles não são tão burros a ponto de associar "alemão = ladrão" se um político rouba. Nós é que nos atribuímos esse estereótipo. Blogs de "mídia crítica" se transformam em moralistinhas policialescos que, nas poucas vezes em que saem da piadinha e se propõem análise séria, mostram o ridículo de parecer Rogério Mendelski. O que discussão sobre a corrupção esconde é a própria corrupção da política - quando esta não se propõe mais a discutir a felicidade humana, mas apenas a sua própria decadência e deterioração. Essa discussão pequena e imanente é que a que a nossa mídia autômata propõe como pauta única. Porque, discutindo essas minúcias, não discutimos o que realmente importa: o mundo cai e se desfigura sobre a nossa cabeça sem que possamos reagir. Os palhaços agradecem.

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terça-feira, maio 05, 2009

DUAS BREVES PITADAS SOBRE POLÍTICA

É RIDÍCULA a sugestão da Direção Nacional do PT de aliança com o PMDB. Não porque o PT deve permanecer "puro" ou todas essas baboseiras de DS. Mas porque o PMDB é o PSDB aqui do Sul, como já escrevi por aqui. A peculiaridade da política rio-grandense não é a não-corrupção (acho que agora chega desse mito, não é?) ou maior politização do eleitorado (que é na a realidade xiita, e não politizado), mas a verdadeira rejeição que os gaúchos nutrem pela mudança de partido. Assim, o campo político permanece estático desde o fim da Ditadura: esquerda socialista (PT), centro-direita (PMDB), ultra-direita (PP) e brizolismo (PDT). O resto - DEM, PSDB, PTB, PC do B, PSB, PPS, etc. - são partidos "cabides", sem uma ideologia fixada (o DEM ainda tenta ser o braço de um pensamento "empresarial", mas até agora está longe da consolidação). O campo de forças, portanto, é idêntico, sendo que o "socialismo" e o "brizolismo" estavam arrastados para a ilegalidade durante a Ditadura, tensionando apenas os radicais de direita (ARENA) e o centro-direita (MDB). Em comum, nutriam o anticomunismo, que hoje é o fortíssimo antipetismo. Moral da história: é tão impossível, hoje, uma aliança PT-PMDB no RS quando PT-PSDB no cenário nacional. A situação é simétrica, inclusive porque o PSDB ocupa exatamente o mesmo espaço do PMDB aqui no Sul no cenário nacional (lembremos: gaúcho não tolera mudança de partido).
Quadro estático que, diga-se de passagem, é lastimável. É incrível que ainda tenhamos um Estado tão conservador em política, no qual os dois lados parecem incrivelmente anacrônicos. A maior tragédia é que tenhamos que votar em um partido enferrujado como o PT aqui do Sul simplesmente porque todas as demais alternativas são terrivelmente piores. Vejam o caso Yeda.
...
A outra pitada: chega de acusar a Veja de ser "tucana" ou serrista. A Veja não é PSDB. A Folha é claramente PSDB. A Veja é DEM. O pensamento da Veja é identificado com o conservadorismo dos donos do Brasil. O que irrita a Veja é que a mesma elite que governa o Brasil há 200 anos agora esteja longe do poder executivo federal. (Querem uma prova: a ironia da marolinha do pittbull blogueiro da Veja virou slogan da propaganda política do DEM. O cara está "ensinando" aos políticos o que dizer!)
O DEM é o partido dos donos do Brasil que se escondem nas franjas da política. A revolta do antipetismo extremo midiático é pela saída do DEM do poder. A PSDB é só um instrumento conveniente para voltar. Serra é quase um fantoche. O DEM é o comando envergonhado do país desde sempre. É o partido que, como o PP, precisa trocar de nome a todo momento para disfarçar seu domínio avassalador e eximir-se pela construção das bases estruturais da desigualdade e da injustiça no país. Precisa fingir que é "outra coisa", esconder a história, vestir novas roupas para disfarçar seu fedor e sujeira. O PT é sujo, mas o DEM é podre. O DEM se faz de "novo", "empresarial", "inocente". Mentira. O DEM é o que há a de mais anacrônico no nosso país. E é ele que a Veja quer de volta no poder.

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quarta-feira, abril 29, 2009

UMA RETIFICAÇÃO

CONHEÇO ANDREI SCHMIDT e posso dizer que é uma pessoa que admiro. Não concordo com todas as suas posições e nem almejo posição semelhante à que ocupa atualmente. Mas sei que é um advogado de caráter, pessoa íntegra e extremamente preparada.
Ontem (segunda), Luis Nassif comparou Andrei com Nélio Machado, primeiro advogado de Dantas, o ofendendo. Fiz questão de deixar -- um pouco tardiamente - meu registro de discordância da comparação. O post já estava lá embaixo, no fim da página. Quando respondi a um comentário que me critica, o post já estava na segunda página (que lida com blogs sabe o que isso significa).
Para minha surpresa (satisfeita), Nassif "ressuscitou" o post o fez ele constar novamente no topo da primeira página, para constar uma retificação sobre a comparação e pedir desculpas pelo equívoco. Fico feliz por ter contribuído para isso (que eu tenha visto, fui o único comentarista que contestou o articulista). E faz com que o jornalista ganhe credibilidade.
Eis o post.

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terça-feira, abril 21, 2009



A ASTÚCIA DOS VENCEDORES

DESDE O FIM DO ESTADO DE BEM-ESTAR, as palavras que estão na moda para contrariar políticas que beneficiam os pobres e marginalizados são "paternalismo", "assistencialismo", "vitimização" e outras (no vocabulário mais ou menos culto). A estratégia é culpar os próprios pobres pela pobreza (são vagabundos), afirmar que os negros não sofrem preconceito (ao contrário: eles são os preconceituosos por quererem cotas), que os índios são aliados dos EUA (em projetos imperialistas de conquista da Amazônia) ou são também vadios que não querem se integrar à "civilização". Esses marginalizados -- os "vencidos" na história -- nada tem de vítimas; são, na verdade, os agentes da própria desgraça. Por que, então, alguma generosidade? Melhor é apostar na nossa sociedade justa, na qual os melhores se dão bem e, com isso, "progredimos".
Essa discussão volta quando vejo resenhas detonado "As Veias Abertas da América Latina", que recentemente foi dado como presente por Chavez para Barack Obama na última cúpula das Américas. O livro é sempre tratado como "defasado", "ultrapassado para alguns", "excessivamente paternalista com os latino-americanos", etc. Interessante observar que essa estratégia discursiva não costuma estar presente nas resenhas de outros livros. Será que um dia a Veja irá colocar ao lado do livro de Fukuyama a pecha de "ultrapassado"? Ou irá grampear sobre os empresários que defendem a liberdade irrestrita de mercado o estigma de "dinossauros", como fez com o último FSM? Deixa para lá.
O fato é que algumas análises do livro de Eduardo Galeano estão exagerando na dose. É claro que é possível que existam muitos erros históricos e que Galeano tenha passado a mão em alguns aspectos. Perfeitamente possível. Por outro lado, a vítima segue sendo vítima. A América Latina é - SIM - vítima do imperialismo colonial europeu (como não seria!?) e foi saqueada sim pelos portugueses, espanhóis, holandeses, franceses e ingleses. Vão visitar esses países (e outros) e ver a quantidade de Igrejas construídas com NOSSO ouro... Os latino-americanos têm responsabilidade sobre isso? Alguma, sem dúvida. Poderiam ter se rebelado mais fortemente, talvez (e muito sangue seria derramado, pois violência é especialidade do "civilizado" europeu). A estratégia européia foi levada a cabo por meio de elites cretinas (latinas) que até hoje nos governam (a Bolívia é o exemplo mais claro) e baseiam seu papel de elite no saqueamento criminoso e na exploração econômica.
Ah, mas que papinho ultrapassado! Muito mais legal são os livros dos europeus ou norte-americanos contratualistas que eu leio e jogam fora todo esse blá-blá-blá "paternalista". Com todo o respeito, mas isso é mentalidade de colonizado. Não enxergar a violência por trás desse movimento que marginalizou a maioria da população da América Latina é, no mínimo, cegueira (e, daí para diante, má-fé). É tão espúrio quanto responsabilizar os judeus pela Shoah (holocausto), porque seriam "ricos" ou outros motivos tão nojentos que nem vale a pena tentar lembrar. Se extermínio e escravidão viraram coisas "light", é hora de fechar os livros e repensar seus conceitos.
É verdade que existem perspectivas que, ressentidas, ultrapassam o razoável. Acho que de certa forma é como leio Dussel -- algumas vezes as coisas que escreve são absurdas. No entanto, deixar de considerar a vítima o que ela é -- vítima -- é tão criminoso quanto o ato em si (por isso sempre detestei, apesar de ser liberal em matéria penal, a tal "vitimologia"). Índios que viviam pacificamente na América foram massacrados por conquistadores que saquearam nossas riquezas. Negros foram escravizados e depois jogados na precariedade social. Movimentos que tentaram emancipação (Canudos, Palmares) foram dizimados. A América Latina foi saqueada SIM, ainda que com a colaboração da sua própria elite podre.
Repito: retirar o caráter de vítima de quem está nessa condição é tão espúrio quanto dizer que os judeus são responsáveis pela Shoah. Dizer que é "paternalismo" ou "assistencialismo" alguém reconhecer que um índio desnutrido e dizimado precisa de ajuda (não dá tempo de entrar na "esfera pública" e argumentar com os demais) é algo inumano. Hoje, no entanto, a razão cínica orgulha-se do seu cinismo e ri de si mesma. Galeano pode até não ser o melhor livro sobre América Latina, pode ter ultrapassado da justiça para a vingança e, com isso, caído no ressentimento, mas cuidado com a retórica dos vencedores. Eles não venceram pelo mérito, e sim pela violência. E são astutos -- do contrário, não teriam vencido.

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quinta-feira, março 26, 2009

IDEOLOGIA LEVADA AO EXTREMO -- OU "O JORNALISMO INÚTIL"

QUER DESCOBRIR se um blog é ideológico, no pior sentido do termo? Bom, basta ver como ele anda abordando as polêmicas da polícia federal ou o caso Battisti. Se foi tomando logo posição contra Battisti, pretendendo descobrir ali um grande complô da esquerda internacional para salvar "os seus", e agora está criticando as intervenções da polícia federal, é pura ideologia de direita; se está do lado oposto em todos os casos, é pura ideologia de esquerda. Não é possível que os fatos SEMPRE estejam a favor de um lado. Os blogs mais estereotipados são, sem dúvida alguma, Reinaldo de Azevedo, pela direita, e Paulo Henrique Amorim, pela esquerda. Juntos, formam uma luta esquizofrênica cuja principal vítima é o leitor.
Por que estou falando desses casos? Simples: eles dependem severamente de matéria factual. Temos acesso a esses fatos? Não. Logo, muitas das pressuposições são simplesmente ideologia. Reinaldo está louco para provar que a Satiagraha está cheia de problemas. Paulo Henrique, que é a melhor coisa do mundo. Reinaldo já deve estar enchendo seu blogs com comentários sobre a perseguição KGB da Polícia Federal sobre a oposição; PHA deve estar condenando à morte todos os envolvidos no suposto esquema.
Já falei por aqui e repito: afastem-se dos veículos que estão sempre de um lado. Fatalmente, estão manipulando. É impossível um lado estar sempre certo; todos somos falíveis, frágeis, humanos.
Mas "ideologia" não é um termo gasto? De fato. Geralmente é usado pela direita, uma paradoxal herança do marxismo [os mais furiosos anti-esquerdistas são via de regra ex-marxistas ressentidos ou desiludidos], para acusar todo aquele que ousa contestar as tradições naturalizadas. Sabemos, no entanto, e já escrevi sobre isso aqui, que não existe descrição última da realidade, estamos enredados em jogos de linguagem que são também jogos de poder. Não existe linguagem transparente. Portanto, a palavra "ideologia" perde muito da sua força, à medida que seu contraponto [a "não-ideologia"] está na berlinda.
Isso significa que não existe a objetividade? Ora, mostrem-me UM filósofo que tenha dito isso. Vamos pegar dois supostos "relativistas": Michel Foucault e Jacques Derrida. Foucault alguma vez afirmou que não existe a verdade, que não existe objetividade? Gostaria que alguém me mostrasse isso. O que Foucault diz é que a verdade se produz mediante jogos de poder, que a verdade tem um "regime". Ou seja, ele não está dizendo que não existe a verdade, mas que a forma como escolhemos para abordar essa verdade está sempre imersa em uma estratégia de poder. Daí que, por exemplo, a investigação científica tenha nascido na inquisitio. Foucault alguma vez disse que a objetividade não existe? Nunca li isso. O que ele diz é que faz parte das estratégias de poder da nossa sociedade dar primazia à objetividade diante de outras formas de recepção da realidade. Um gesto bastante heideggeriano, diga-se de passagem.
Mas... e Derrida? O autor da desconstrução, afinal, diz que não existe pensamento absoluto, portanto tudo dá na mesma, certo? Errado. Derrida NUNCA disse isso. O que Derrida fez foi trazer a lume que existe uma série de elementos marginais (alteridade) que são sonegados em dicotomias que subjugam um dos elementos em oposição ao seu superior (belo/feio, fala/escrita, etc.). Derrida elimina a verdade? Como eu próprio recortei e coloquei aqui, Derrida nunca negou que o verdadeiro seja diferente do falso, mas que a verdade tem que ser inserida em quadrantes mais potentes, distintos da violência metafísica. O pensamento da desconstrução, assim, é extremamente rigoroso, como poucos foram. O que assusta alguns é o extremo anti-dogmatismo de Derrida [e esse susto deveria ser o que mais chama atenção, já que o filósofo é o anti-dogmático por excelência]. Derrida afirma que vale tudo, a ciência não diz nada nem prova nada? Nunca. Só diz isso quem não leu ou não entendeu. Ele diz, isso sim, que a ciência é uma dimensão da racionalidade, e que a desconstrução não hesita em mostrar como certas premissas supostamente inquestionáveis estão apoiadas em fracas [e violentas] contingências.
O que isso tudo significa? Que existe objetividade. Que, tratando-se da matéria factual, se espera de uma reportagem a objetividade. Não acredito no "grau zero" de ideologia. Mas o jornalista pode se policiar para deixar os fatos falarem por si, sem ser o Nietzsche-de-Heidegger que reduz tudo à sua "vontade" ideológica. A interpretação do mundo está desde sempre contaminada pela sua ideologia. No entanto, a matéria factual acontece brutamente; com a mesma brutalidade que uma criança sem alimento morre de fome, independente dos "bem-pensantes" pensamentos por aí elaborados. Uma reportagem que quer tratar um delegado como um araponga maluco merece total suspeição se não cumpre o gesto simples e óbvio de ouvir esse delegado, por exemplo. A disputa política legítima é transformada em manipulação dos fatos.
Fuja dos blogs excessivamente "ideológicos". Quando apontarem só num sentido, ligue o sinal vermelho: aquilo não pode ser tomado a sério.

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quinta-feira, março 05, 2009

ADICIONANDO NOVOS BLOGS

Imagine uma bula. Uma bula que te recomendasse tomar xarope de cabeça pra baixo exatamente ao meio-dia no solstício de inverno, e assobiando. Imagine agora que essa mesma bula te dissesse, no último parágrafo, que "Nós não garantimos o resultado, nem te protegemos contra efeito colateral. Se a casa cair, a culpa será só sua." O remédio é sempre perfeito. O paciente é que prejudica.


Genial, não? É a descrição do liberal puro e sua explicação para o fato de a receita nunca dar certo. Está aqui o blogueiro. A Torre de Marfim, by the way, anda explicando o Bolsa-Família para crianças.
Recomendo EFUSIVAMENTE também o blog Liberal, Libertário, Libertino. Duvido que se algum de vocês acessar a categoria "raça" possa permanecer contrário às cotas ou adeptos dessas posições insossas que fazem a mestiçagem fazer desaparecer o racismo como relação de poder. Eis o post definitivo sobre o tema, que eu gostaria de ter escrito.
Ao lado também gente conhecida como Márcia Tiburi (texto chato esse último, mas o blog vale a pena) e Caetano Veloso.
Pelo amor de Deus, não deixem de acompanhar a coluna de Juremir Machado da Silva no Correio do Povo. É seguramente o colunista mais inteligente do RS e um dos cinco melhores do país. (E desafiando o Estado mais conservador.)
E a legião de imitadores do Idelber já está ficando pentelha.
Bye.

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terça-feira, março 03, 2009

PONDÉ E O VELHO "PONTO DE VISTA DE LUGAR NENHUM"

LUIZ FELIPE PONDÉ tem dado polêmico, como previsível, desde que começou a escrever na Folha de São Paulo. Primeiro foi Marcelo Coelho que o colocou, ao lado de Reinaldo Azevedo, JP Coutinho e Demétrio Magnoli, como "pessimista sombrio". Depois, Maria Rita Kehl comparou a atitude cético-desiludida com a "banalidade do mal".
Já disse por aqui que, apesar de discordar frontalmente de JP Coutinho, reconheço que ele representa uma "parcela inteligente" do pensamento conservador. O mesmo pode ser dito de Luiz Felipe Pondé. Bem diferentes de Reinaldo Azevedo, que não passa de jornalista ruim, pseudo-intelectual e pensador histérico de análises profundas como um pires. Pondé tem uma certa atitude spenceriana, cética, desludida, verdadeiramente "pessimista".
Ontem publicou na Folha um artigo intitulado "Blábláblá" em que ataca o relativismo cultural. Tenta provar que tudo não passa de baboseira e que as culturas não se equiparam. Leiam o texto e depois voltem aqui.
.....
Pois é. Me parece que há pelo menos quatro confusões nos conceitos de Pondé.
A primeira é acreditar que a antropologia cultural faz juízos de valor sobre as culturas que estuda. Interpretar ou, mais propriamente, traduzir uma cultura para outra não significa sinalizar sua superioridade, ou mesmo igualdade (do ponto de vista ético), mas simplesmente abrir a possibilidade de compreensão de um "mundo" (no sentido fenomenológico) alheio ao nosso. O relativista cultural, por isso, não está dizendo - e nunca li alguém que o tenha dito - que "tudo vale a mesma coisa, dependendo da cultura onde está inserido" [isso só é lido em livros de opositores dos relativistas que não os leram].
A segunda é que nem todo relativista cultural é contra a "contaminação". Ao contrário, a maioria pretende justamente o oposto: eliminar todo resíduo de "pureza" em qualquer cultura [na antropologia, por exemplo, Homi Bhabha, e, na filosofia, o SUPOSTO maior "símbolo" do relativismo: Jacques Derrida].
A terceira é que mesmo antropólogos que poderiam ser chamados de "polêmicos", como Lévi-Strauss, não estavam preocupados em afirmar que todas as culturas valem a mesma coisa, ou que todas estão certas, ou que todas devem ser toleradas, mas pura e simplesmente que cada cultura articula um sistema de crenças "racional", ordenado, estruturado. O objetivo é, portanto, desfazer o conceito de "bárbarie" como algo sem articulação, irracional - tudo que o pensamento europeu sempre tratou de colocar sobre "o Outro".
Quarto, e mais importante, é que subjaz ao artigo de Pondé a idéia de que ele fala de ponto de vista de "lugar nenhum", como se a "Modernidade" fosse mesmo "universal", quer dizer, não fosse simplesmente uma invenção ocidental baseada no esquema metafísico do contrato social e no discurso jusnaturalista. O "universalismo" que Pondé implicitamente opõe ao "relativismo" nada mais é do que uma invenção ocidental - ou seja, um etnocentrismo. Ou seja: os pensadores que procuram pensar a diferença cultural - mais amplamente, a alteridade - nada mais fazem do que mostrar o quanto é "pequeno" e "local" o relato megalômano iluminista que, na sua abstração formalista, se pretende não apenas universalizante, mas ainda capaz de julgar todas as demais culturas.
Melhor teria andado se tivesse acompanhado Richard Rorty naquilo que este chama de "anti-anti-etnocentrismo", ou seja, simplesmente reconhecer qualidades na cultura ocidental que o levariam a adotar essa e não outra. Rorty nega a possibilidade de uma "metacultura" capaz de julgar todas as demais, mas vangloria a tradição liberal por ser capaz de "abrir mais janelas" para a diferença de que outras. Por isso se diz "anti-anti-etnocêntrico".
Seria, pelo menos, mais humilde.

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sábado, fevereiro 28, 2009

O BRASIL É DIFERENTE

QUEM NÃO CONCORDARIA que as regras da legalidade devem ser respeitadas por todos e as demandas devem se situar na esfera legal? Essa obviedade foi enunciada mais uma vez pelo principal porta-voz da oposição no país - o Presidente do Supremo Tribunal Federal (!) Gilmar Mendes. Mais uma vez perdeu a oportunidade de ficar calado.
Na interpretação mais benéfica que poderíamos fazer, Gilmar Mendes está aplicando seus nobres conhecimentos adquiridos na Alemanha que povoam seus livros de Direito Constitucional. Que maravilha, não? Michel Temer, Presidente da Câmara e também constitucionalista, concordou.
É justamente por isso que o discurso constitucionalista/garantista hoje me parece inofensivo - por vezes até conservador. Como aplicar as mesmas categorias da Alemanha e da Espanha ao Brasil?
Muitos gostariam que Lula não fizesse o Bolsa-Família. Acham que é assistencialismo. Pergunta: que fazer em um país em que uma parcela grande demais da população está abaixo da linha da pobreza? Aplicar um liberalismo blasé? Aguardar ao infinito até que trinta gerações consigam equilibrar a conta? Isso pode ser muito confortável para a classe média e a elite, mas certamente não para quem passa fome.
Atenção: passa fome. Parece meio estúpido ter que falar disso aqui, mas quem passa fome não tem capacidade de ir à "esfera pública" reivindicar na "democracia procedimental" seus direitos. Está aquém da condição de sujeito político. É por isso que o Brasil é diferente. É por isso que a periferia é diferente. Os governantes do Primeiro Mundo - que os papagaios da mídia admiram e gostariam de transplantar - não têm que lidar com esse problema. Falamos de pessoas abaixo da condição humana. Pessoas que não têm como "argumentar" porque, antes de pensar, estão preocupadas em viver.
Que obviedade, não? Pois é. Mas avisa isso para alguns colunistas que - desesperados para eleger José Serra - ficam ensinando a oposição sobre o que ela deve fazer (em público! Que vergonha! - ex. Noblat e Fernando Rodrigues). Diga isso para o Gilmar Mendes. Quem não come, quem não tem onde pisar, quem vê ao seu redor terras griladas e saqueadas, concentrações do tamanho de Estados europeus, não vai ficar quieto esperando. Vai gritar. Vai brigar.
O formalismo jurídico de Gilmar Mendes é uma forma de manter tudo como está. No fundo, é uma proposta conservadora. Se os alemães podem escrever o que escrevem, é porque um dia alguém deu o sangue e desobedeceu à lei para conquistar um novo status, porque buscou justiça. Por que será que essa palavra faz tantos tremerem?
Cada vez me interesse menos pelo Direito e seu mundinho paralelo.

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quinta-feira, janeiro 22, 2009

O DESASTRE GILMAR MENDES

GILMAR FERREIRA MENDES é, sem dúvida alguma, um dos mais importantes constitucionalistas do país. Escreveu livros que subiram o nível do Direito Constitucional no país - trazendo amplo conhecimento da doutrina e jurisprudência alemã -, para um patamar inédito. É, ao lado de Paulo Bonavides, Eros Grau, Lênio Streck, Ingo Sarlet e alguns outros, parte do all star team da dogmática constitucional [pois não é mero comentarista de legislação, como tantos outros].
Sua posição no STF, hoje, no entanto, é absolutamente questionável. Não vou entrar no mérito de supostos desvios pessoais de conduta, pois disso não há informações seguras e nem é o caso. Vou me restringir a análise do seu papel institucional. E, nesse ponto, Gilmar tropeça feio.
Gilmar Mendes começou sua trajetória na prática jurídica com a defesa da apropriação das poupanças pelo Governo Collor. Por aí se vê que as coisas já começaram mal. O estranho é que, ao longo da sua carreira, não obstante a sólida formação em direitos fundamentais na Alemanha, sempre esteve ao lado de causas polêmicas e companhias indesejáveis. Collor foi apenas uma delas.
Na Presidência do STF, tem tomado posição que muitos garantistas sonhavam há longo tempo, mas, de minha parte, tenho um brutal ceticismo em relação ao seu alcance. O que chama atenção, no entanto, é a ampla participação política de Mendes no cenário nacional. Não é que eu não saiba que o STF é um tribunal político. As contradições e casuísmos da jurisprudência estão aí para provar [recomendo, por exemplo, uma conferida na história do mandado de injunção, da prisão preventiva e dos juros]. No entanto, é forçoso reconhecer que todos os presidentes que lhe antecederam tiveram perfil discreto, conciliador e ponderado, compatível com um último julgador, de quem se espera parcimônia e sobriedade. Até o polêmico Marco Aurélio Mello, por mais que tenha por vezes sobressaído, jamais esteve sob os holofotes tal como Gilmar.
O que se vê no atual Presidente do STF é uma excessiva politização, não no bom sentido, mas no de intromissão nos temas do Executivo e Legislativo ainda que não estejam sob a chancela do STF, figurando, e aqui é meu principal ponto, como A figura da oposição no poder. Desgastada pela alta popularidade de Lula, a insipidez de Serra e a ausência de projeto, a oposição, perdida nas suas linhas-mestras, ganha voz unicamente a partir de Gilmar Mendes. Mas Gilmar Mendes é PRESIDENTE DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL -- não pode se comportar como um senador ou deputado, que sai atirando como metralhadora giratória. Gilmar hoje faz o papel que o Senador Arthur Vírgilio tinha no primeiro mandato! Isso é totalmente incompatível com o cargo. Presidência do STF não é lugar de palanque de oposição.
Gestão desastrosa, que se aproveita de um fiapo de poder que é entregue com cordialidade pelos colegas de STF e dele Gilmar se lambe e aproveita. Encampa todas as teses da ultra-direita, entre elas a punição dos "terroristas" contra o Regime Militar [que ministro democrata e defensor dos direitos fundamentais qualificaria como "terroristas" quem reage contra um governo ilegítimo?], a demarcação da Raposa/Sol, o ridículo caso do grampo telefônico, a "jurisprudência Dantas", ou a revisão do asilo ao "terrorista" italiano Battisti [porque tanto "engajamento" do ministro, que assumiu a posição contrário imediatamente?]. Tudo pregado sob os holofotes da mídia conservadora. O episódio mais ridículo foi, sem dúvida, o programa Roda Viva, quando teve entre os entrevistadores três "fãs" [um amigo pessoal, do Consultor Jurídico, e dois jornalistas conservadores, um da Veja e outro do Estado de SP] e, para "incomodar", a jornalista da FSP Eliane Cantanhêde - que é simplesmente a PIOR colunista do Brasil e fez o favor de bombardear o ministro com um senso comum do cão [qualquer jurista destruíria com facilidade o que ela coloca em tom de escândalo].
Mendes, hoje, representa o "pensamento-Veja" no poder, ou seja, o neoconservadorismo brasileiro. O problema é que, se quer essa posição, está no lugar errado. O STF não é lugar para plataforma política. Com essa conduta, Gilmar Mendes suja a história da presidência do STF que - se certas vezes foi omissa - pelo menos nunca se excedeu no ridículo de ocupar um lugar de oposição do Governo que não é seu, enquanto Tribunal Constitucional.

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quinta-feira, dezembro 18, 2008

A DIREITA HISTÉRICA

NÃO GOSTO DE ESCREVER o nome dele para não dar audiência no Google, mas - para quem tem bom estômago - é interessante conferir o que anda escrevendo o Reinaldo Azevedo no seu blog da Veja. Criticado pelo Ombudsman da TV Cultura, ele passou a disparar com sua metralhadora giratória em nível baixíssimo, mostrando sua hidrofobia contumaz. Sua estratégia é clara: gritar, gritar, gritar, cada vez mais alto, escrevendo sem parar, de forma a cansar o oponente.
Reinaldo é o retrato de uma revista neocon que, desesperada pela popularidade de Lula, agora desfila o ridículo da sua histeria preconceituosa e fascista. Show de decadência e desespero. Uma experiência parecida com a visão dos fascistas de Pasolini e seu espetáculo grotesco.

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sexta-feira, dezembro 12, 2008

DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS

CADA VEZ QUE LEIO reportagens sobre as convenções e encontros petistas me sinto mais distante do que pensa o establishment do PT. A meu ver, muita coisa está mal diagnosticada e outras coisas importantes nem são tocadas. Sem falar do defeito de todo partido e todo político -- o projeto de poder passa à frente do projeto de Estado. Quando se vê o PT falando, por exemplo, da necessidade de implementar-se [reforço: IMPLEMENTAR-SE, não ficar apenas legislando, como usualmente se faz] uma reforma administrativa que faça a máquina pública parecer menos uma estrutura burocrática kafkaniana e mais uma prestadora de serviços eficiente e democrática? Nada disso é tocado porque poderia melindrar os servidores públicos. Enfim, não era disso que eu queria falar. É só para mostrar que as minhas divergências com o PT vão longe.
Entretanto, é impossível não se indignar com o tratamento que a mídia dá ao PT. É injusto, estigmatizador e caricato.
Por exemplo: a partir do "mensalão", começou-se a criar a idéia da "turma do Lula". As mesmas bocas que destilam ódio contra o MST ou as cotas ganham um discurso associando Lula e o PT a Delúbio, Silvinho, Freud Godoy [este TOTALMENTE inocente, sendo que apenas Elio Gaspari pediu desculpas, apesar do festival de colunas "Freud Explica" quando estourou o "escândalo" do dossiê], etc. A mídia adora usar expressões como os "aloprados de Lula", reforçando o discurso desses que atacam o PT porque odeiam mudanças a partir da idéia de corrupção epidêmica.
Esse festival de palhaços que encenam um espetáculo atroz - como se não soubéssemos que a corrupção é endêmica no Brasil - é de dar náusea. Aliás, o eleitor é inteligente e não caiu nessa.
Vamos comparar com o nosso Governo Estadual e a cobertura que é dada. Por que não existe a "turma da Yeda"? A "companheirada do PSDB"? Yeda perdeu quase todos os seus auxiliares mais próximos. Martini, Busatto, Zachia, Germano, até o Coronel Mendes - todos estão envolvidos em algum imbróglio [não sei se são inocentes ou não] - e, no entanto, a cobertura jamais associa uma imagem estigmatizadora sobre Yeda. Há um pouco de preconceito de classe também [há SIM] contra Lula -- uma parcela de "escolarizados" jamais aceitou que ele presidisse o Brasil [e, pior, fizesse bom governo]. Se a quantidade de escândalos que estouraram no RS tivesse sido em governo do PT, podem anotar que a cobertura da Zero Hora seria totalmente diversa. Haveria a "turma do ...".
Essas coisas é que fazem com que os petistas fiquem "reativos" contra a mídia. Tratamentos totalmente iníquos com o PSDB fazem com que a imagem petista fique associada a sindicalismo e corrupção, enquanto o PSDB fica com "republicanismo" e "gestão".
Seria uma piada, se o mau-gosto não fosse tanto.

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quarta-feira, novembro 12, 2008

NEOCON, NADA DE LIBERTÁRIO (MUITO MENOS LIBERAL)

PARA QUEM TINHA dúvidas se o Chapeuzinho (não escrevo para não dar prestígio no Google) daquela Revista é NEOCON, como George W. Bush e Sarah Palin, e não um "neoliberal" naquele sentido que tentei expor há algum tempo, dêem uma olhada aqui. E, claro, para quem agüentar a disenteria verbal do próprio, que vá ao blog e confira os últimos posts sobre Guantánamo e a defesa do "Direito Penal do Inimigo" [chegou a dizer que Cuba é divida entre a que come (Guantánamo) e a que não come]. Enfim assumiu: é fascista cool mesmo.

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sábado, outubro 04, 2008

ÉTICA (?) E JORNALISMO (?)

FALANDO NOVAMENTE DO ASSUNTO, nada como ver o nosso jornalismo gaúcho.
Não perco mais tempo com a perseguição da mídia em relação ao PT, nem deixei de criticar veementemente por aqui a campanha decepcionante, para não dizer pífia, que Maria do Rosário vem realizando. Mas algumas coisas são absurdas.
Esse post está sendo escrito no sábado à noite. Abro a Zero Hora do dia de amanhã e o Ibope anuncia empate técnica entre Maria e Manuela. APOSTO quanto vocês quiserem que Maria do Rosário estará no segundo turno, e por uma diferença significativa de votos. O Correio do Povo já anuncia hoje que a diferença é de 5 pontos a favor do PT.
É sempre assim, uma vergonha. A Zero Hora simplesmente publica na maior cara-de-pau dados equivocados da campanha desfavorecendo o PT.
Sei - esse papo pode parecer chato. Pode parecer repetitivo, paranóico. De fato. Mas, que é real, é. Infelizmente, é. Não é a primeira vez e nem será a última. Amanhã me cobrem.

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