Mox in the Sky with Diamonds

sexta-feira, junho 26, 2009


A FESTA AINDA NÃO COMEÇOU

PROMETI que faria dois posts em resposta ao comentário do Zé (depois vi que ele articulou tudo em um post, mais uma vez ótimo). E nem buscava consenso. O Zé e os outros amigos sabem que é agradável, para quem não é narcisista, cultivar diferenças. Apesar disso, chegamos a um solo comum, aparentemente (e isso também é agradável). Porque, como já disse, o lugar onde queremos chegar é o mesmo.
Mas também afirmei que o segundo post seria mais duro com a temática -- e será. Se no primeiro texto procurei trazer a política para o espaço micro, ressaltando a não-neutralidade das "tribos" (umas profanatórias, outras sacralizantes), agora vou tocar no outro ponto (que, aliás, é sempre pauta de debate também com o Mayora): o desprezo pela política tradicional.
O que parece ofensivo em certos autores "celebratórios" como Maffesoli e Lipovetsky é que a festa ainda não começou. Suas celebrações da diferença e do sujeito hipermoderno (nomenclatura que considera a melhor de todas, inclusive melhor que a "Modernidade Líquida" de Bauman) ignoram a existência de um "resto" que está sob os escombros da bela história por eles contada, sem os mesmos requintes e charmes, mas exposto na sua nudez fragilizada e desamparada. A história ainda não está redimida. Pairam sob a nossa felicidade -- supondo que exista essa felicidade no vazio --, por baixo das construções teóricas legitimantes e diferenças tribais, os restos nus da pura barbárie que ainda vivemos. Ainda vivemos.
Os miseráveis, refugiados, imigrantes ilegais, as vítimas de guerras e genocídios e tantos outros são testemunhos de que a barbárie persiste. Vivemos em meio a ela. O Brasil -- um país que há apenas pouquíssimo tempo resolveu que é indecente passar fome -- ainda vive em meio ao horror cotidiano. Esses "restos" que sempre ficam de fora, no detalhe, não querem apenas ver reconhecida sua diferença, nem exercitar a profanação. Eles estão aquém da dignidade, em um estágio anterior a qualquer reivindicação cultural. Para eles, o narciso de Lipovetsky -- que "abre espaço para diferença na sua indiferença" -- é apenas mais violência. Eles têm fome, morrem de frio, são executados ou espancados pela polícia, rastejam pedindo esmolas ou enfiam-se em uma realidade paralela para fugir da tragédia cotidiana. Para esses, a indiferença é obscena; o amor fati é violentíssimo.
É preciso pontuar: só existe contracultura onde existe cultura. Para esses "restos", esses que nada importam nas construções teóricas celebratórias ou legitimantes, e tampouco (o que é mais trágico) na realidade, o que existe é barbárie. Esses não estão interessados em questões (contra)culturais, mas na sobrevivência. Não querem apenas poder se manifestar; querem se alimentar. Não querem ser "reconhecidos" como tribo; querem ter roupas para não morrer de frio. Estão expostos, como vida matável, descartável -- vida nua. Não têm cultura para oferecer; estão desamparados, jogados no mundo (como todos nós) em uma condição desumana. Desumana porque o que nos faz humanos é o cuidado. É o cuidado que sustenta o logos, nossa capacidade de inventar e reinventar linguagens e gestos distintos, buscando a felicidade. Sem cuidado, morremos. Podemos teorizar o quanto quisermos sobre a "diferença" do bebê, sobre seus gestos, sua linguagem, mas se não lhe dermos comida ele morre. Simples.
É essa a minha crítica ao desprezo da política. É preciso histeria diante do que é, de fato, um escândalo. É um escândalo que deixemos os outros morrerem. Que desperdicemos vidas. Que estejamos vivendo em um tempo em que algumas pessoas não vejam mais qualquer sentido em viver, atirando-se numa mortificação gradual e devastadora a partir do crack ou outras drogas. Não tem teoria da diferença cultural que sustenta esse zumbi que é o usuário de crack. Ele não quer dizer nada, mal consegue ter prazer na sua droga quase instantânea. É escravo de uma substância destrutiva porque não vê motivos para não se destruir. Sua vida não vale nada. Ele se vê assim E É VERDADE. É VERDADE QUE A VIDA DO "RESTO" NÃO VALE NADA. Temos que encarar isso numa espécie de "psicanálise da cultura" - como diz o Timm - encarar que essa vida para nossa política realmente não vale nada. Que essa vida nua - vida habitante das palafitas, dos morros, das periferias, vida que vive nos esgotos, na selva (como os refugiados africanos), etc -- essa vida realmente vale menos - e por isso eles sabem e agem como agem (basta ver os "Falcões" do MV Bill). Aliás, é estranho que precise o MV Bill dizer que quem gosta de pobreza é intelectual. Podem até surgir manifestações culturais admiráveis da favela (o hip hop, a dança, grafite, etc.), mas tudo isso é só detalhe diante do horror coletivo que vivem essas pessoas. Isso só serve para enxergarmos o que desperdiçamos.
Não nos esqueçamos -- para botar os pés no chão -- que historicamente a contracultura surgiu sobre os ombros do Welfare State. Foi com a extensão do período de educação para os jovens e alargamento da adolescência que começou a surgir a "cultura jovem" dos anos 50 e 60 (Elvis, James Dean, os beatniks etc.) que então desembocou nos movimentos de contracultura de 68. Existe contracultura onde existe cultura, e não barbárie. Não por acaso os movimentos contraculturais - diga-se o que quiser - são tão fracos no Brasil. Basta visita a Europa e comparar. A contracultura está sobre os ombros da civilização (a questão "barbárie/civilização" não tem nada a ver com o evolucionista do século XIX, por óbvio).
Enfim, repito: só existe contracultura onde existe cultura. Diante da barbárie, só nos cabe reagir com a política tradicional: ou seja, aquela que busca a redenção dos restos que ficam sob os escombros das lutas históricas -- da vida nua cuja urgência exige a histeria ética.

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quinta-feira, junho 25, 2009

FOUCAULT X MAFFESOLI - AS "CONTRACULTURAS" E A POLÍTICA

VOLTAMOS. Vou aproveitar a oportunidade para abordar um tema que estamos discutindo há tempos e tentar incendiar ainda mais a discussão. Para isso, vou aproveitar o gancho de um comentário do no blog do Salo que pretendo desconstruir. O Salo nos dá uma pitada do seu artigo sobre a "Cultural Criminology" e o Zé comenta:

Muito interessante Salo, principalmente pelo sentido do que o autor coloca como perspectiva anarquista de ruptura com a autoridade. Me parece que isso possibilita um combate discursivo de dupla via: se por um lado é possível construir um discurso contra aquele empreendedor moral de proposições punitivas institucionais, por outro lado possibilita o combate discursivo contra aquele outro empreendedor não menos violento que é o teórico criticista do que não entende. Como exemplo: grande parte da contracultura que tem me interessado hoje em dia é rotulada como alienada, como se isto fosse um problema, quando a geração da alienação não apenas é contemporânea das gerações existencialistas e anarquistas como hoje em dia é quase uma sedimentação mista destes movimentos.
Pra cada resmungo crítico acerca de um grupo fútil contemporâneo acaba aparecendo um olhar mostrando que a alienação na maioria das vezes não é do grupo, mas do próprio pesquisador. A
Pós-modernidade é uma fábrica de Labellings.

Não fosse o comentário do Zé fantástico (sem falsa retórica), não valeria a pena comentar (e também porque acho que, bem ou mal, divergindo em algumas coisas, eu e o Zé queremos chegar no mesmo lugar). Por isso ele vai ganhar dois posts, tratando da questão sob dois ângulos diferentes. O primeiro é menos tenso; o segundo será mais duro (com a temática). Vamos ao trabalho.
Primeiro, me afasto completamente de qualquer perspectiva marxista clássica que trabalhe com o conceito de "alienação" dessa forma. Parece que essa crítica -- da forma mais crua como apresentada -- é privilégio de uns velhinhos que não entenderam a importância de 68 e nem de uma série de autores da segunda metade do século XX. Não parece ser o meu caso.
Vou criticar o comentário do Zé a partir da tensão entre dois autores que acredito serem essenciais na discussão (dois "Michels"): Michel Foucault e Michel Maffesoli. Começando pelo segundo.
Faz tempo que li pela primeira vez Maffesoli. E me lembro que me impressionou muito. A primeira vez foi num livrinho bem curto, relato de conferências, em que ele debate a existência da pós-modernidade com Sérgio Rouanet. Maffesoli sustentava que vivemos um período "pós"-modernidade, com valores distintos, etc. (com o que eu concordava); enquanto Rouanet sustentava que o que vivíamos era o mesmo que os medievais viveram na transição da Alta para Baixa Idade Média (--Nunca imaginei que terminaria concordando com Rouanet--). Depois, peguei pelo menos dois livros de Maffesoli - que me lembre - e os devorei: "A Contemplação do Mundo" e "O Tempo das Tribos".
O que sustenta ele nesses livros, em síntese brutal, é que a pós-modernidade se caracteriza pela formação de arranjos múltiplos entre pessoas, sem fixação de uma identidade, reunindo não a partir de contratos, mas de laços emocionais ("nebulosa afetual"). Maffesoli copia de Durkheim a idéia de "religião" (re-ligare) para afirmar que esse "estar-junto" gera espécie de "proxemia sentimental" pela qual os indivíduos fazem redes afetivas entre si, formando as "tribos". Não bastasse isso, Maffesoli também afirma que esses vínculos "subterrâneos" não podem ser confundidos com os vínculos de cidadania típicos do Estado, formando uma espécie de "potência" que se opõe ao "poder". Portanto todos esses novos vínculos -- "subestimados" pela sociologia crítica herdeira da Escola de Frankfurt (e alvo preferencial de parte da sociologia francesa) -- teriam essa capacidade de oposição ao "poder", de formadores de "potência", ligados pelo vínculos emocionais que formam o "cimento" da sociedade de massas pós-moderna, claramente oposta ao "individualismo" moderno.
Todo esse sofisticado discurso parece absolutamente ingênuo para um leitor do outro Michel, o Foucault. O mestre francês já havia identificado há muito tempo que o poder não emana de um centro. Poder não é uma "substância" que alguém detém. Contra Althusser e toda tradição marxista, Foucault sustenta que o poder é uma relação que se distende por todo tecido social, e não um conjunto de prerrogativas do Estado, como sustenta a visão jurídica da Teoria do Estado que os marxistas aceitaram sem crítica. Ou seja, a própria sociedade -- que não é senão uma relação (Norbert Elias ensina isso melhor que ninguém, não há sociedade "lá fora") -- é formada, constituída, por relações de poder. As relações de poder não são um adorno, detalhe, acidente ou enfeite; são a própria "matéria" com a qual se forma o tecido social.
Por que é então "ingênua" a perspectiva de Maffesoli? Porque ele ainda pressupõe o "poder" como algo do Estado. Mas o poder não é só do Estado. As relações entre as pessoas podem ser poder. Esse "estar-junto" não é neutro. Está contaminado pelas questões de poder desde o início. Ou seja: esse "estar-junto" (o próprio Maffesoli reconhece) pode ser um "estar-junto" fascista, por exemplo. Para ficar em um caso abordado pelo próprio Maffesoli (em "A Contemplação do Mundo"): a televisão, a imagem, produz a "proxemia sentimental", reafirma os laços sociais, forma "potência". Mas que potência? Um "Linha Direta" provoca uma tremenda intensidade sentimental, mas com resultados fascistas e histéricos. Mas é inegável que provoca o "estar-junto". Basta pensar, ainda, nas chamadas "festas da ordem" (ex. as "festas cívicas") que DaMatta analisa, muitas vezes apenas celebrações da violência e da ordem.
O que interessa ao foucauldiano não é apenas o estar-junto da "potência" contraposto ao "poder" (que pode chegar na imbecilidade do "Cansei"), mas que não existe estar-junto que não envolva poder e, por isso, política. Todo estar-junto é relação e, por isso, trata do poder, que é a própria relação (melhor: uma forma de relação). Interessa menos ao leitor de Foucault o quanto esses movimentos se opõem ao Estado do que o quanto eles próprios são relações de poder, e como se relacionam enquanto relações de poder. Para um adepto de Foucault não existe ingenuidade maior do que afirmar, como afirma Maffesoli, que a "política está declínio", sendo substituída por esses novos estar-juntos. Não há como evitar a política porque ela sempre estará presente enquanto existir o poder. O próprio termo "micropolítica" -- geralmente com entusiasmo pelos rivais da "política tradicional" -- não está sendo lido com rigor (que eu saiba, os grandes defensores foram Deleuze e Guattari, dois entusiasmados leitores de Foucault): micropolítica. Fica-se demais no micro e não se pega o essencial da luta de Gilles Deleuze e Félix Guattari (autores seminais na minha formação): é preciso estender a política também para o âmbito micro, e não se despolitizar. Aquilo que antes não era objeto da política (da "grande política" tradicional, do Estado) agora passa a ser.
Hoje o trabalho de Foucault é complementado pela genial contribuição de Giorgio Agamben (que também já até escreveu obra conjunta com Deleuze), que parece pegar o centro da questão ao dividir os movimentos em "sacralizadores" e "profanadores". O movimento de "sacralização" (religião, para Agamben, vem de re-legere, tem relação com "separação", e não "ligação") separa os comportamentos em uma esfera separada, tornando-os indisponíveis aos viventes. O de profanação restitui o sagrado ao vivente, possibilitando o uso, o jogo e a brincadeira. É uma forma de julgar politicamente para que lado caminha cada comportamento social. Agamben não é defensor da volta à "grande política", da "saída da alienação", mas da inseparabilidade entre o macro e o micro, das relações de poder que se formam a partir de cada comportamento social. A meu ver, é nesse jogo da sacralização/profanação que devem ser analisados os comportamentos sociais em termos políticos, inclusive os contraculturais. O que os foucauldianos -- como eu -- jamais poderiam aceitar é a aceitação pura e simples de qualquer comportamento como "apolítico". A política também está nas pequenas coisas.

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sexta-feira, junho 19, 2009

AUSÊNCIA

Ando devedor de textos por aqui. Há duas semanas só enrolo. O motivo é nobre: estou tentando fazer bombar - com algum resultado (e junto com os amigos) - a rede social do nosso Instituto: Instituto de Criminologia e Alteridade (http://criminologiaealteridade.ning.com/). Isso tem consumido algum tempo.
Espero que os amigos comecem a postar também por lá, colocando debates e, com isso, fazendo funcionar uma verdadeira instância de diálogo em que a alteridade não é engolida por uma totalidade auto-referente.
Semana que vem volto para cá.

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quinta-feira, junho 18, 2009

KASABIAN


(Tive que tirar o vídeo, que estava bagunçando a formatação do blog).

"Fire" é certamente a melhor música da carreira do Kasabian, que, em "The west rider pauper lunatic asylum" (2009), se recuperou bem do segundo álbum razoável. Parece uma rajada de luz iluminando uma pista de dança em chamas. As sirenas são as trombetas do inferno que soam enquanto a profanação restitui aos corpos a leveza da inocência.

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quarta-feira, junho 17, 2009

WILCO


Uma banda que compõe uma música como "Solitarie" não tem nenhuma chance de errar. Ouvir o Wilco a cada novo disco é como re-experimentar a sensação de voltar à tristeza suave daquele quem não tem medo de se entregar à experiência.Justificar É como um abraço quente em um mundo frio, um agasalho que alimenta a ousadia de quem ainda tenta viver.

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segunda-feira, junho 15, 2009

A BURRICE COTIDIANA NO RS

TEM GENTE QUE FICA brava quando falo que o povo gaúcho é uma merda. Alguns por gostarem do "tradicionalismo" (pura alucinação); outros, por considerarem o RS "marginal". Enfim, sei lá. Talvez ache o povo gaúcho uma merda apenas por estar com uma perspectiva mais próxima. É possível. Só que não posso deixar de comentar essa exibição da mediocridade gaúcha cotidiana que é a Zero Hora. Sem ter o toque afetado e propositalmente cínico dos cronistas da Veja, por exemplo (que já identificaram como filão editorial o neoconservadorismo), os gaúchos são sweet neocons by nature. "Natural born neocons". Não tem nenhuma afetação nos nossos jornalistas: eles são retrógrados, estúpidos, reprimidos e repressivos mesmo. Fazem o jornalzinho do Texas.
Vejam as mais recentes "campanhas". Primeira, o "X da educação". Fica-se debatendo artigos e mais artigos sobre os "limites" do adolescente, sobre a desobediência à "autoridade" do professor e a ausência de "disciplina" dos jovens modernos, mas nada se fala sobre: 1) o salário ridículo e pífio que desmotiva qualquer professor; 2) as condições precárias das escolas, incapazes de atrair os alunos para atividades; 3) as condições sociais precárias desses "alunos-problema"; 4) a grade curricular ridícula e cheia de conteúdos desnecessários, baseada na memorização burra e inútil; e 5) na insuficiência de uma educação baseada no castigo, tradição, disciplina e autoridade nos nossos tempos contemporâneos.
O mesmo com o "Crack, nem pensar". É a coisa mais burra que já li na vida. Crack é algo que devemos pensar, sim. E muito. Pois, se o crack é algo que retira completamente a dignidade do humano, devemos pensar como as pessoas chegam lá. O ser humano abaixo da linha da dignidade - a exemplo do "muçulmano" do campo de concentração - é produto de um experimento biopolítico que estamos construindo. Não é por acaso que são as fatias verdadeiramente a-bandonadas que sofrem do crack em maior intensidade. São, por exemplo, os moradores de rua, paupérrimos, miseráveis, famintos, com frio. Usam a droga para sobreviver como os zumbis dos campos.
Da forma como é construída, a campanha é tão imbecil que é capaz de ter efeito reverso. Adota um enfoque moralista e uma posição besta. Faz parecer que o crack pode ser usado pelo senhor de bigodes e gravata que lê a sua ZH todos os dias de manhã, enquanto passa a manteiga no pão e toma café preto. Relatos de crack na classe média ou na elite são puro pânico moral. Existem. Mas são bastante reduzidos. O crack - que é uma droga-lixo --, é algo bem mais típico da população marginal, da vida nua. O "senhor" lê: "Crack, nem pensar". Aí ele pensa: "ah, bom, fiz a minha parte, não uso crack". E pronto, não? Como é que temos tanta burrice entre nós? Que tal ele pensar sobre como a nossa biopolítica que "desperdiça vidas" (expressão ótima de Bauman) é capaz de produzir esse resultado final, esses zumbis ambulantes que vemos transitar pelas sinaleiras? E o quanto ele - cidadão de bem - contribui para tudo isso sublinhando o contraste que o separa da vida nua e o faz se arrastar na sua mediocridade pequeno-burguesa?
Um jornal infame para um povo infame. Pelo menos o Juremir Machado da Silva - não por acaso expurgado do jornaleco - nos salva todos os dias (uma pena a política pré-histórica do Correio de fechar sua edição na net).

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terça-feira, junho 09, 2009

O COCÔ

UM DIA, DÊNIS levantou e sentiu um ligeiro desconforto. Nunca tinha sentido antes, mas de alguma forma aquela sensação começou a tomar cada vez mais corpo. Era algo vinculado ao olfato, uma espécie de atrito, algo que embrulhava seu estômago. Dênis não entendia o que estava acontecendo, mas, após tomar seu café da manhã e começar a se vestir para o trabalho, já não agüentava mais. Começou a caminhar pelo apartamento e ver de onde saía a razão do seu desconforto. Sem muita demora, descobriu que vinha do sagrado cocô. Como? Logo daquilo que era mais importante na sua casa? Sim, aquela coisa marrom e enrugada estava lhe causando seu mal-estar. Sem palavras para definir o que se passava, resolveu chamar de fedor. Aquilo fedia muito. Aliás, ele nunca tinha percebido ter olfato -- achava que o único sentido relevante era mesmo a visão. Só com o atrito do fedor ele conseguiu perceber que seu nariz servia para algo além de respirar.
Quando chegou ao trabalho, Dênis percebeu o mesmo fedor. Enquanto os colegas trabalhavam calma e mecanicamente, Dênis sentia cada vez maior repugnância pelo cocô, chegando quase a ter ânsia de vômito. Os colegas, nem aí. Foi então que ele não agüentou e chamou José para conversar.
- José, já percebeste que sai do cocô algo que causa mal-estar?
- Quê?, perguntou José. Estás dizendo que sai algo de ruim do SAGRADO cocô? Impossível.
- Pois é, nunca tinha percebido. Mas hoje acordei com um mal-estar... Nomeei esse negócio que senti de fedor.
- Fedor? FE-DOR? Hahahahaa, que palavra engraçada.
Foi então que José também sentiu o mal-estar que Dênis mencionava. Ao vislumbrar o sagrado cocô que iluminava a repartição, aquela coisa rugosa, longa, em forma de ferradura, cor um pouco amarelada, José também percebeu que aquilo fedia.

A notícia se alastrou em velocidade acachapante. Em poucos dias, milhares de pessoas sentiam mais e mais o fedor do sagrado cocô. Começaram a jogar fora seus objetos sagrados, normalmente postos no centro da sala, porque não agüentavam mais o fedor. A mídia ecoava notícias sobre a catástrofe do cocô. Especialistas eram chamados a discutir. Técnicos afirmavam com certeza científica que a presença do cocô não faz nenhum mal à saúde.
Não tardou a surgir a militância do cocô. Os conservadores afirmavam que o cocô é a base da sociedade e que essa anarquia modernosa arruinaria tudo. Desfilavam carregando pedaços da substância marrom - às vezes derretida entre os dedos -- e contavam com o apoio da polícia para reprimir passeatas contra o o cocô. "A bosta é a base da nossa união", afirmavam esses conservadores. Livrar-se dela é romper com a nossa sagrada tradição.
Os movimentos avolumaram-se. A maioria ainda tinha as fezes em casa -- tinham medo de algum castigo caso se livrassem delas, embora já sentissem o fedor. Libertários reivindicavam uma vida menos fétida (sofisticação de "fedor" que rapidamente surgiu), pugnando pela simples eliminação de todo e qualquer cocô da residência. Os conservadores, por outro lado, afirmavam que sem cocô o homem é indomável, que sempre existiu cocô, que essa libertinagem era absurda. Eram apoiados pela mídia - que desenhava a queda do cocô como catástrofe e decadência - e pelo Estado, que reprimiu todo aquele que se rebelava contra a merda. Diante das profanações que eliminavam o cocô em praça pública e da ofensa à tradição e aos bons costumes que aquilo representava, os radicais começaram a comer cocô. Os anti-cocô não raro vomitavam ao ver seus adversários cobertos de merda pelos lábios, queixo e bochechas.

E assim foi a batalha, até que um burocrata resolveu o problema: em vez de confrontarmos o fedor da merda, deveríamos todos - obrigatoriamente - usar máscaras que nos protegiam do fedor. O cocô continuou no meio da sala, para alegria de todos.

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segunda-feira, junho 08, 2009

O INSUPORTÁVEL ÀS VEZES VENCE

Às vezes, poucas vezes, a náusea diante da podridão de tudo é tão grande que fico possuído pela impotência de escrever.

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quarta-feira, junho 03, 2009

FACTÓIDES

NADA ME IRRITA mais do que ver o factóide do terceiro mandato de Lula todos os dias na mídia antipetista. Que coisa cansativa! Nunca houve cogitação de terceiro mandato por parte de quem interessava ouvir: Lula. Ao contrário: justamente o superbom FHC, o grande FHC, a quem cabe tantos "avanços" e "estabilidade institucional" foi justamente quem propôs uma continuação do seu mandato. Não sou xiita a ponto de não reconhecer avanços com FHC, mas também não sou cego a ponto de mudar de posição conforme o envolvido. E nem de vangloriar quem não merece. Por isso reproduzo o texto abaixo, que espelha perfeitamente tudo que penso sobre o tema:

Um terceiro mandato, por favor!
01/06/2009
14:51:20
Leandro Fortes
A imprensa brasileira não vai descansar enquanto não arrancar do presidente Lula,
ou de algum ministro de Estado, uma declaração favorável ao terceiro mandato. A insistência com que a mídia tem tratado do tema, em ondas ciclotímicas cada vez mais curtas, revela aquele tipo de interesse que nada tem a ver com os fatos ou, no limite, com demandas jornalísticas. Trata-se de uma campanha infernal para colar na imagem de Lula a pecha de “ditador chavista” às vésperas de um ano eleitoral, como se fosse possível, a essa altura do campeonato, estabelecer semelhanças ideológicas e de ação governamental entre o presidente brasileiro e seu colega, Hugo Chávez, da Venezuela. Há mais de dois anos, escrevi uma matéria na CartaCapital (“Eterno factóide”) a respeito do assunto, quando a onda do terceiro mandato tinha como objetivo contaminar as bases eleitorais do governo, com vistas às eleições municipais de 2008, quando ainda rescendiam brasas sobre os escombros do chamado “mensalão”. Lá, pelas tantas, escrevi: “O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, além de ter sido beneficiado com a manobra da reeleição, colocada em prática via mudança da Constituição, foi um dos avalistas internacionais do terceiro mandato de Alberto Fujimori, do Peru. Tanto, e de tal forma, que Fujimori, atualmente às vésperas de ser julgado por crime de corrupção, tráfico de armas e genocídio pela Justiça peruana, arrolou FHC como estemunha”. Incrível, né? Fernando Henrique Cardoso alterou a Constituição Federal, à custa de um escândalo de compra de votos no Congresso Nacional, para
emendar um segundo mandato, com apoio irrestrito da mídia nacional. Em outro front, dava apoio político e diplomático a Fujimori, conhecido bandoleiro internacional, dado a censurar jornalistas e assassinar opositores, para que “El Chino” conseguisse um terceiro mandato no Peru. Sobre o que estamos falando mesmo? Ah, sobre o terceiro mandato, idéia rejeitada, sistematicamente, pelo supostamente (vocábulo adorado dos jornais, nos últimos tempos) principal interessado, a saber, o presidente Lula. A insistência sobre o tema, ainda tocado em clima de factóide, é tão óbvia que chega a ser cansativo dissertar sobre ela. Estancado em níveis de popularidade jamais alcançados por outros presidentes na história deste país, Lula vive em franca liberdade de movimento para emplacar seu sucessor, no caso, sucessora, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef. Feliz, gordo e corado, Luiz Inácio conseguiu estabelecer com o eleitorado uma ponte de comunicação praticamente imune aos ruídos da mídia, de qualquer mídia. A este povo sem mídia, e sobre o qual a mídia nada entende ou atinge, Lula fala a língua da distribuição de renda, da segurança alimentar e da identidade nacional. De certa forma, conseguiu converter em ganho eleitoral todos os males a ele atribuídos pela zelosa elite intelectual e econômica brasileira, da falta de educação formal à aparência física. Quisesse mesmo se empenhar na luta pelo terceiro mandato, Lula teria todas as condições, dentro e fora do Congresso, para conseguir sucesso no intento, sem a necessidade de comprar votos, pelo menos no sentido literal do expediente utilizado na Era FHC. Foi-se o tempo, no entanto, em que o presidente se cercava de assessores que o incitavam a atitudes insanas, como a de querer expulsar o correspondente do New York Times do país, por quem foi acusado de ser cachaceiro militante. Agora, a cada investida da mídia, Lula desmancha-se em desencanto: é contra, diz, o terceiro mandato. Ainda assim, como quem oferece crack a um viciado, o Datafolha gastou tempo e dinheiro na tentação de divulgar uma pesquisa na qual mostra um “país dividido”, 47% a favor, 49% contra o terceiro mandato. A mensagem é clara: então, porque não arriscar, presidente? A resposta também: porque Lula não é bobo. Para uma oposição perdida e enterrada num pré-sal de indefinições, nada seria mais providencial do que o surgimento de um Lula ditatorial, finalmente revelado em toda a sua essência autoritária e aparelhadora, um Chávez tropicalizado e, melhor ainda, a tempo de ser trabalhado em infinitas edições de domingo. Viriam especialistas, cientistas políticos, blogueiros de repetição, colunistas, deputados e senadores a denunciar a quebra das regras democráticas, a incutir pânico na classe média, a convocar as senhoras de Santana a marchar sobre a Paulista, o horror, o horror! De qualquer maneira, não custa deixar essa pauta na gaveta. Quem sabe ela não emplaca no ano que vem?

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segunda-feira, junho 01, 2009


PRÓXIMO CAFÉ INDISCIPLINAR: 06/06, 14H. COMPAREÇAM!

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