Mox in the Sky with Diamonds

segunda-feira, junho 15, 2009

A BURRICE COTIDIANA NO RS

TEM GENTE QUE FICA brava quando falo que o povo gaúcho é uma merda. Alguns por gostarem do "tradicionalismo" (pura alucinação); outros, por considerarem o RS "marginal". Enfim, sei lá. Talvez ache o povo gaúcho uma merda apenas por estar com uma perspectiva mais próxima. É possível. Só que não posso deixar de comentar essa exibição da mediocridade gaúcha cotidiana que é a Zero Hora. Sem ter o toque afetado e propositalmente cínico dos cronistas da Veja, por exemplo (que já identificaram como filão editorial o neoconservadorismo), os gaúchos são sweet neocons by nature. "Natural born neocons". Não tem nenhuma afetação nos nossos jornalistas: eles são retrógrados, estúpidos, reprimidos e repressivos mesmo. Fazem o jornalzinho do Texas.
Vejam as mais recentes "campanhas". Primeira, o "X da educação". Fica-se debatendo artigos e mais artigos sobre os "limites" do adolescente, sobre a desobediência à "autoridade" do professor e a ausência de "disciplina" dos jovens modernos, mas nada se fala sobre: 1) o salário ridículo e pífio que desmotiva qualquer professor; 2) as condições precárias das escolas, incapazes de atrair os alunos para atividades; 3) as condições sociais precárias desses "alunos-problema"; 4) a grade curricular ridícula e cheia de conteúdos desnecessários, baseada na memorização burra e inútil; e 5) na insuficiência de uma educação baseada no castigo, tradição, disciplina e autoridade nos nossos tempos contemporâneos.
O mesmo com o "Crack, nem pensar". É a coisa mais burra que já li na vida. Crack é algo que devemos pensar, sim. E muito. Pois, se o crack é algo que retira completamente a dignidade do humano, devemos pensar como as pessoas chegam lá. O ser humano abaixo da linha da dignidade - a exemplo do "muçulmano" do campo de concentração - é produto de um experimento biopolítico que estamos construindo. Não é por acaso que são as fatias verdadeiramente a-bandonadas que sofrem do crack em maior intensidade. São, por exemplo, os moradores de rua, paupérrimos, miseráveis, famintos, com frio. Usam a droga para sobreviver como os zumbis dos campos.
Da forma como é construída, a campanha é tão imbecil que é capaz de ter efeito reverso. Adota um enfoque moralista e uma posição besta. Faz parecer que o crack pode ser usado pelo senhor de bigodes e gravata que lê a sua ZH todos os dias de manhã, enquanto passa a manteiga no pão e toma café preto. Relatos de crack na classe média ou na elite são puro pânico moral. Existem. Mas são bastante reduzidos. O crack - que é uma droga-lixo --, é algo bem mais típico da população marginal, da vida nua. O "senhor" lê: "Crack, nem pensar". Aí ele pensa: "ah, bom, fiz a minha parte, não uso crack". E pronto, não? Como é que temos tanta burrice entre nós? Que tal ele pensar sobre como a nossa biopolítica que "desperdiça vidas" (expressão ótima de Bauman) é capaz de produzir esse resultado final, esses zumbis ambulantes que vemos transitar pelas sinaleiras? E o quanto ele - cidadão de bem - contribui para tudo isso sublinhando o contraste que o separa da vida nua e o faz se arrastar na sua mediocridade pequeno-burguesa?
Um jornal infame para um povo infame. Pelo menos o Juremir Machado da Silva - não por acaso expurgado do jornaleco - nos salva todos os dias (uma pena a política pré-histórica do Correio de fechar sua edição na net).

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segunda-feira, abril 20, 2009

A DIFERENÇA ENTRE O GRÊMIO E O INTER É FERNANDO CARVALHO

PRONTO. Não tenho mais nada a dizer, a rigor. Clube vitorioso começa de cima, e o Inter está melhor que o Grêmio por lá. MUITO melhor. Daí uma hegemonia que vem se consolidando para minha raiva infinita.
Alguns podem dizer: mas o Inter tem o Nilmar, o D'Alessandro, Taison e Guiñazu? É verdade. Os dois primeiros são craques que o Grêmio não tem. Jogadores muito acima do nível no Brasil. Guiñazu é fundamental, mas é um jogador que se encontra, se bem procurado. Taison vamos ver ainda quando enfrentar equipes mais fortes. De qualquer forma, eles estavam aí ano passado, e ainda Alex. O que mudou? O Inter só engrenou quando Carvalho reassumiu o futebol. Aí o grupo estabilizou, as coisas retomaram os eixos e a baderna se organizou. Alguém já viu algum jogador do Inter referir o Piffero? É sempre a Fernando Carvalho, suas brincadeiras, apostas, discursos, que eles referem. Assim que Tite, que é um bom treinador, tenha retornado à boa fase. Tite, aliás, que era injustiçado até o momento, uma vez que foi para a "geladeira" após um bom trabalho no Corinthians, quando gente como Geninho, Paulo César Gusmão, Joel Santana, Vadão, Jair Picerni e outros ficaram dançando com as cadeiras e são bem inferiores.
Mas Tite, Nilmar, D'Alessandro, Taison e outros só trabalham bem porque têm segurança que vem de cima. Isso o Grêmio não tem. André Krieger não é um dirigente ruim -- fez inclusive bom trabalho ano passado --, mas a bagunça da gestão Kroeff é muito visível. Técnico dando informação desencontrada com a Direção, dirigente assumindo que interfere na escalação do time, jogador desafiando os superiores, declarações ridículas do alto comando, "planejamento" ininteligível, falhas na organização das viagens, panfletos patéticos, demora nas contratações (do técnico e dos jogadores). Atualmente, perdemos duas semanas de treinamento e ajuste da equipe pela indecisão da Direção. Autuori é bom técnico, mas, se não pode vir, não venha. Mais um episódio desastrado.
No futebol, uma Direção desastrada destrói até bons times. O Grêmio de 2003, por exemplo, era um belíssimo time. Falhou pela falta de qualidade dos dirigentes, que foram os campeões de declarações desastradas. O contraste com o marketing do Inter esse ano -- por sinal, DUDA KROEFF era o responsável pelo marketing no centenário -- foi avassalador. Acorda Duda! Ninguém agüenta mais essa "velha guarda" afundando o Grêmio. Tenho severas restrições a Paulo Odone. Mas era um dirigente de fibra, como Carvalho, capaz de mandar o time correr sem precisar dizer em público que interfere no trabalho do treinador. Kroeff é um lenga-lenga.

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terça-feira, abril 07, 2009



MURRAY EM PORTO ALEGRE

SOBRE O RIDÍCULO "Fórum da Liberdade", que concentra o conceito de liberdade na idéia de consumir e negociar, vou apenas remeter ao artigo "Davos e Davinhos" de Juremir Machado da Silva hoje no Correio do Povo [que, inexplicavelmente, não disponibiliza o conteúdo no site]. Segue em trecho:

Porto Alegre é demais. Não vive sem um bom anacronismo. Já teve o seu tempo de Fórum Social Mundial. Quem não se lembra de todos aqueles bichos-grilos dizendo que outro mundo era possível? Quem não se lembra, sobretudo, do sarcasmo dos modernos neoliberais? Como riam aqueles homens. Como tinham certezas. Como eram pragmáticos e seguros. Mas até os seguros se revelaram maus investimentos. Porto Alegre é demais. Mantém-se fiel ao mais ideológico dos fóruns, o da liberdade, cujo mundo idealizado se tornou repentinamente impossível. Pena que não pude acompanhar de dentro. Eu adoraria estar presente no Fórum da Liberdade para escutar as sessões de mea culpa. Imagino que todos tenham aproveitado para chicotear as costas em público e reconhecer os erros dos últimos 30 anos. A ideologia, sabemos, é cheia de astúcias. Tem mais astúcias do que a razão. Uma delas é considerar ideologia exclusivamente o pensamento dos outros. Essa é a grande astúcia da direita, que nem se chama de direita. As astúcias ideológicas, repito, estão por toda parte. Os adversários das cotas, por exemplo, em defesa de interesses particulares e de privilégios mantidos ao longo do tempo, recorrem a um universalismo abstrato como forma de tentar barrar uma necessidade muito concreta de reconhecimento das singularidades. Todo argumento é bom quando se trata de converter o particular em universal por conveniência.

O Fórum da Liberdade deu-se a liberdade de preconizar o Estado mínimo com o máximo de pretensão e uma gigantesca dose de minimalismo teórico. Deve ter acontecido uma sessão inteira apenas para explicar em bom português os bônus pagos, nos Estados Unidos, com dinheiro público, para executivos que fracassaram em iniciativas privadas de pouco risco para eles e de muita vertigem para contribuintes e governos. Como diz o outro, aqui se faz, aqui se paga. Com o dinheiro dos impostos. Haja impostos para pagar tudo o que foi feito e não pode ser desfeito para não romper contratos malfeitos. Eu perdi o melhor da festa. Queria tanto ter ouvido os ideólogos do neoliberalismo explicando o 'risco-Estados Unidos', a oferta de dinheiro do Luiz Inácio atrevido da Silva para o FMI, os bilhões saídos dos cofres públicos para salvar a lavoura neoliberal, as críticas de neoliberais de ontem à falta de regulamentação de hoje e, principalmente, teria amado ouvi-los comentar o retorno de Keynes, o economista desprezado na alta e suportado na baixa. É mais ou menos como a volta do Zorro e do Tonto. Que fazer sem eles? Sucumbir? O Zorro é o herói mascarado que evita a tragédia. Tem um preço. Tonto é o contribuinte.

Não tenho nada contra que os liberais [econômicos] se encontrem e falem o que quiserem. Mas me irrita o despudor e a cara-de-pau de alguns. Me irrita o viés teológico que repete "a solução é acreditar na nossa religião. Se está uma desgraça, é porque Deus assim quis, só nos resta obedecer, dias melhores virão". O mito do mercado é uma secularização desse princípio religioso.
O que me irrita MAIS, no entanto, é ver que Charles Murray está palestrando aqui no RS. Nossos empresários -- os idiotas que criticam a "tolerância" no jornal e acham Giuliani o melhor político do mundo -- vão lá escutar o cidadão que escreveu "The Bell Curve", um livro que pretendeu "provar", com base em teses de QI, que os negros são menos inteligentes e por isso ocupam as classes inferiores. A desigualdade social seria explicável pelo déficit cognitivo dos pobres. Uma repristinação do nosso velho Nina Rodrigues, diga-se de passagem. [Como já afirmei por aqui, poderíamos ter ensinado aos norte-americanos o "a questão social é de polícia", que é bem antigo aqui no Brasil.]
Esse é o teórico da "liberdade"? Um pensador neocon racista e belicista? Esse é o nosso belo fórum gaúcho, cheio de empresários-papagaios-de-"pensadores"-dos-EUA e dos seus jornalistas puxa-sacos.

[Como se bem notou, para o gaúcho (Busatto é só caricatura) é "Bush aqui, Obama lá".]

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quarta-feira, abril 01, 2009

O CIRCO DO SISTEMA PENAL BRASILEIRO

Um dia, um grupo de palhaços do circo resolveu se rebelar. Perceberam que tudo aquilo que eles imaginavam bom era, na verdade, ruim, e que era necessário começar a mudar o panorama do circo. Botaram fogo no palco, engaiolaram o chefe dos palhaços e até o empresário que mandava em tudo. Após pouco tempo, o grupo de palhaços tradicionais passou a reagir: reivindicava as tradições do circo e como aquilo tudo estava correto. Não hesitava em usar as piadas que mais repudiava para defender o "old style". E assim ficaram os dois grupos: brigando entre si, enquanto a platéia assistia abismada a palhaçada.


NADA PODE SER MAIS ridículo do que a abordagem que a mídia vem concedendo às operações da Polícia Federal. De repente, a Revista Veja, Folha, Estadão e Globo viraram paladinos do Estado de Direito e passaram a defender com veemência as "garantias do indivíduo". Elas, que sempre repudiaram com veemência a "impunidade", os advogados proteladores e os juízes liberais. Nunca tinha visto essa mesma imprensa repudiar "práticas abusivas" quando se tratava dos subcidadãos que caem nas malhas do sistema penal apenas porque são agentes da "criminalidade tosca" [como diz ensina o mestre Zaffaroni].

Esses jornais e revistas bradam com indignação contra os abusos, desde que sejam contra indivíduos de "colarinho branco" -- no resto, segue tudo igual. Seu público, por sua vez, vem com algumas cartas cômicas, por exemplo uma que li esses dias: "então um cidadão pode ir preso apenas sendo suspeito de um delito?". Certamente a frase diz mais que apenas um erro; indica uma concepção de mundo. Esse mesmo indivíduo deve reclamar da "impunidade" quando o chinelão não vai preso imediatamente. O que acontece, então? É que o subcidadão não é cidadão. Leiamos novamente a pergunta: "então um cidadão pode ir preso apenas sendo suspeito de um delito?".

O cômico não pára por aí. Os ultra-conservadores da Veja que mordiam a jugular dos Nardoni e queriam a imediata prisão da pichadora do MASP, agora resolveram até analisar sentenças. Reclamaram do "excesso de verbos no condicional" na prisão cautelar. Tanta generosidade está ausente quando se tratar de decretação de prisão cautelar do traficante ou da prostituta que estão "incomodando os cidadãos de bem" na esquina. Pior: embora seja tecnicamente correto usar o condicional [presunção de inocência], o Tribunal parece que, lendo a argumentação do energúmeno, copiou-a para a decisão de soltura. Claro, os juízes também se identificam mais com empresários e banqueiros que com traficantes. Aqueles são "empreendedores", "dão empregos"; estes, são "monstros", "pervertidos".

A Veja brada desesperada: "não vamos levar a ruína dos pobres aos ricos!". Só que não parece nem um pouco interessada em evitar a ruína dos pobres. Ainda estou esperando uma reportagem sobre ladrões, traficantes e estelionatários cuja prisão preventiva foi decretada em violação ao "Estado de Direito". No fundo, ela apenas quer manter o sistema funcionando tal como estava programado: estado de exceção na vida nua, garantismo para o cidadão. Um dia as garantias chegam lá! -- Mas, até esse dia, é bom que "a Lei" valha para os ricos, que até ganham reportagens piedosas sobre as péssimas condições prisionais.

No STF, a coisa é mais complicada. A maioria ou a totalidade dos ministros, creio eu, segue uma visão garantista por convicção. O STF já provou isso ao conceder medidas como a progressão de regime para os hediondos. São juristas liberais. Como todos os liberais, no entanto, são caricatas engrenagens de um sistema formal que esconde suas funções ocultas, exercidas no mundo fático. Enquanto o STF e os garantistas comemoram a vedação do uso de algemas, o estado de exceção continua atuando inclemente - e alheio a qualquer norma, no vazio jurídico - sobre os corpos sem direitos. Essa é a tarefa trágica desses ministros que não podem ter outro papel que o de coadjuvantes do circo, auxiliares dos palhaços.

Completa a cena o outro lado do circo, os palhaços que resolveram jogar lenha na fogueira. São os idealistas da esquerda punitiva, muitos dos quais bem intencionados e preocupados com questões de justiça, mas sem perceber que trabalham para legitimar o sistema que é o maior reprodutor dessa injustiça. Eles tentam fazer uma jogada de mestre, jogando contra a mesma elite suja que utiliza as estratégias da exceção [violência policial, extermínio, campo de concentração] essas mesmas estratégias. Se superestimam. Superestimam o papel que pode desempenhar o Direito - e especialmente o penal! - no circo. O sistema penal é uma máquina genocida que trabalha para conter - mediante violência extrema - a parcela subcidadã que sai dos parâmetros de disciplina impostos pelo controle social.

O caos que vemos é apenas uma grande peça circense em que alguns palhaços botam fogo no circo, tentando fazer construir outro, e outros palhaços-bombeiros ficam tentando apagar o fogo -- não se importando em contar as piadas que tanto desprezavam antigamente. Enquanto isso, alheios às gargalhadas, milhares morrem do lado de fora.

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sexta-feira, março 27, 2009

O CONSERVADORISMO EM UMA CARTA

Ócio remunerado
O discurso da esquerda é mais simpático, pois defende que o Estado deve prover as necessidades do cidadão.
Para que isto ocorra, tributa-se em demasia quem trabalha. Quem produz deseja construir seu patrimônio, coisa inaceitável para os parasitas do Estado que sonham com o ócio remunerado.
Felipe Nobre -
Produtor rural – São Gabriel

É exatamente esse argumento, e mais nenhum, que povoou um anti-comunismo e, mais tarde, um anti-welfarismo raivoso entranhado nas faixas populares, muitas vezes usado por governos autoritários de direita [do fascismo à nossa ditadura militar].
Estou concordando com Rorty que as coisas são bem mais simples que parecem.

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segunda-feira, março 23, 2009

SUPERESTIMAMOS OS CONSERVADORES

VENHO PERDENDO A PACIÊNCIA com a generosidade excessiva que dedicamos a contra-argumentar os conservadores. Por trás da nossa paciência está a crença de que por trás de um conservador existe alguém inteligente, culto e que apenas discorda de nossa opinião. A conclusão que tenho chegado é: geralmente não.
Há sociólogos desesperados em salvar as patricinhas e dondocas, outros querendo mostrar como a televisão e a moda são maravilhosas; outros filósofos querem deduzir fundamentações profundas acerca de crenças basicamente fascistas. Não creio que haja grandes coisas para se achar no meio desse palheiro. Via de regra, o conservador é um idiota. [Rorty disse algo parecido.] Via de regra, tem sua mente poluída por preconceitos espúrios [racismo, homofobia, machismo, xenofobia, etnocentrismo] e dogmatismos inaceitáveis. Não hesita em usar a violência [verbal ou braçal] para impor suas opiniões. Não está aberto ao debate. Suas "bem-fundamentadas" opiniões contra qualquer um que não tenha poder são, na verdade, pura e simples fachada de uma visão da sociedade hierarquizada em que "cada um deve ficar no seu lugar".
Esses "pensadores" conservadores geralmente são imbecis que se escondem atrás de argumentos rasteiros e pobres. Não raro -- até tem uma revista fazendo escola no assunto -- se protegem ofendendo o adversário ou usando macartismo barato.
Esses "pensadores" conseguiram, em uma década, convencer os "eremildos" que:
a) para maior justiça social, é melhor dar mais dinheiro aos mais ricos que aos mais pobres;
b) é melhor prender os pobres do que financiar escolas, benefícios sociais e outras medidas;
c) é melhor investir em orçamento militar e guerras do que financiar avanços de prosperidade econômica e diálogo intercultural entre países;
d) se os ricos quebram, é preciso salvá-los, pois senão eles vão pegar e foder um monte de pobres [Lema da atual crise econômica];
e) um indivíduo passeando de ferrari em meio a gente vivendo no meio de cocô é algo perfeitamente natural e os do cocô devem aceitar isso "civilizadamente";
f) não existe injustiça social. Os melhores estão nos melhores lugares porque merecem. Toda luta contra isso é "golpismo" ou "atentado ao Estado de Direito";
g) todos devem trabalhar feito cavalos para chefes que querem comprar um iate novo a cada mês. Quem não trabalhar é loser e deve ser repelido. Para onde? Não sei [se duvidar, para a prisão];
h) ninguém é capaz de ter qualquer sentimento solidário ou generoso. Todos são egoístas e agem por auto-interesse. Quem tenta algo em favor de outro é porque planeja uma vantagem futura para si;
i) o mercado é o agente da bonança. Quando dá merda, deve-se dar o que ele precisa e deixá-lo que nem criança mimada: gastando, mandando e exercendo sua perversão sem qualquer limite;
j) o mundo não tem salvação mesmo e o negócio é dividi-lo em dois blocos. Os "de bem" e os "problemas". Os "de bem" abrangem os ricos e todos os pobres disciplinados e submissos que aceitam trabalhar para esses ricos. Os "problemas" devem ficar bem longe, de preferência na prisão;
l) há um movimento avassalador que impede o "de bem" de exercer seu legítimo machismo, racismo, homofobia, xenofobia e etnocentrismo. Tudo isso é perfeitamente "neutro" e a "patrulha" que reclama é "ideológica";
m) se tem gente morrendo de fome, problema é dessa gente. Quem tenta ajudar é "paternalista" ou "assistencialista". O importante é obedecer a lei;
n) o pobre que espere o "progresso". Um dia ele lhe dará riqueza; até lá, que vá morrendo de fome mesmo, porque se roubar comida é bandido;
o) o negro que espere o "progresso". Um dia não haverá mais preconceito; até lá, que vá se fudendo na vida, porque se quiser cota é racista;
p) os índios que se fodam. Como pode ainda não termos matado toda essa porcaria?
q) Bolsa-família para pobre é assistencialismo. Bolsa de mestrado para rico é investimento;
r) os empresários "tocam o Brasil". Logo, os empresários podem tudo, inclusive praticar exploração econômica, devastar a natureza e usar monopólios;
s) a melhor forma de lidar com a pobreza é extinguir os pobres (controle de natalidade);
t) ideológico é o outro. Eu sou perfeitamente "razoável";
Etc.
Parece absurdo? De fato, é. Como eu disse, é muita boa vontade nossa debater com gente assim.

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quinta-feira, janeiro 22, 2009

O DESASTRE GILMAR MENDES

GILMAR FERREIRA MENDES é, sem dúvida alguma, um dos mais importantes constitucionalistas do país. Escreveu livros que subiram o nível do Direito Constitucional no país - trazendo amplo conhecimento da doutrina e jurisprudência alemã -, para um patamar inédito. É, ao lado de Paulo Bonavides, Eros Grau, Lênio Streck, Ingo Sarlet e alguns outros, parte do all star team da dogmática constitucional [pois não é mero comentarista de legislação, como tantos outros].
Sua posição no STF, hoje, no entanto, é absolutamente questionável. Não vou entrar no mérito de supostos desvios pessoais de conduta, pois disso não há informações seguras e nem é o caso. Vou me restringir a análise do seu papel institucional. E, nesse ponto, Gilmar tropeça feio.
Gilmar Mendes começou sua trajetória na prática jurídica com a defesa da apropriação das poupanças pelo Governo Collor. Por aí se vê que as coisas já começaram mal. O estranho é que, ao longo da sua carreira, não obstante a sólida formação em direitos fundamentais na Alemanha, sempre esteve ao lado de causas polêmicas e companhias indesejáveis. Collor foi apenas uma delas.
Na Presidência do STF, tem tomado posição que muitos garantistas sonhavam há longo tempo, mas, de minha parte, tenho um brutal ceticismo em relação ao seu alcance. O que chama atenção, no entanto, é a ampla participação política de Mendes no cenário nacional. Não é que eu não saiba que o STF é um tribunal político. As contradições e casuísmos da jurisprudência estão aí para provar [recomendo, por exemplo, uma conferida na história do mandado de injunção, da prisão preventiva e dos juros]. No entanto, é forçoso reconhecer que todos os presidentes que lhe antecederam tiveram perfil discreto, conciliador e ponderado, compatível com um último julgador, de quem se espera parcimônia e sobriedade. Até o polêmico Marco Aurélio Mello, por mais que tenha por vezes sobressaído, jamais esteve sob os holofotes tal como Gilmar.
O que se vê no atual Presidente do STF é uma excessiva politização, não no bom sentido, mas no de intromissão nos temas do Executivo e Legislativo ainda que não estejam sob a chancela do STF, figurando, e aqui é meu principal ponto, como A figura da oposição no poder. Desgastada pela alta popularidade de Lula, a insipidez de Serra e a ausência de projeto, a oposição, perdida nas suas linhas-mestras, ganha voz unicamente a partir de Gilmar Mendes. Mas Gilmar Mendes é PRESIDENTE DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL -- não pode se comportar como um senador ou deputado, que sai atirando como metralhadora giratória. Gilmar hoje faz o papel que o Senador Arthur Vírgilio tinha no primeiro mandato! Isso é totalmente incompatível com o cargo. Presidência do STF não é lugar de palanque de oposição.
Gestão desastrosa, que se aproveita de um fiapo de poder que é entregue com cordialidade pelos colegas de STF e dele Gilmar se lambe e aproveita. Encampa todas as teses da ultra-direita, entre elas a punição dos "terroristas" contra o Regime Militar [que ministro democrata e defensor dos direitos fundamentais qualificaria como "terroristas" quem reage contra um governo ilegítimo?], a demarcação da Raposa/Sol, o ridículo caso do grampo telefônico, a "jurisprudência Dantas", ou a revisão do asilo ao "terrorista" italiano Battisti [porque tanto "engajamento" do ministro, que assumiu a posição contrário imediatamente?]. Tudo pregado sob os holofotes da mídia conservadora. O episódio mais ridículo foi, sem dúvida, o programa Roda Viva, quando teve entre os entrevistadores três "fãs" [um amigo pessoal, do Consultor Jurídico, e dois jornalistas conservadores, um da Veja e outro do Estado de SP] e, para "incomodar", a jornalista da FSP Eliane Cantanhêde - que é simplesmente a PIOR colunista do Brasil e fez o favor de bombardear o ministro com um senso comum do cão [qualquer jurista destruíria com facilidade o que ela coloca em tom de escândalo].
Mendes, hoje, representa o "pensamento-Veja" no poder, ou seja, o neoconservadorismo brasileiro. O problema é que, se quer essa posição, está no lugar errado. O STF não é lugar para plataforma política. Com essa conduta, Gilmar Mendes suja a história da presidência do STF que - se certas vezes foi omissa - pelo menos nunca se excedeu no ridículo de ocupar um lugar de oposição do Governo que não é seu, enquanto Tribunal Constitucional.

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segunda-feira, dezembro 15, 2008

NOS DEDOS

NÃO É UM POST, SÓ UM COMENTARIOZINHO: uma das coisas mais canhestras e reacionárias que existiam há algum tempo atrás -- e se mantém para alguns -- é o preconceito de classe, um certo esnobismo com o "pobre", que é estereotipado e ridicularizado. Não que ser pobre seja a melhor coisa, não é; e não que muitos pobres não possam ser familiarizados com coisas que não têm acesso (música, livros, filmes, idiomas), nada disso; é que há uma subestimação e sobretudo subalternização do papel do pobre para alguns.
A eleição de Lula, para esses, era um tabu. Como poderia um Presidente de tão pouca cultura fazer um bom mandato? Como conversaria com os norte-americanos sem falar inglês? Adoravam fazer uma piadinha em cima da pronúncia errada das palavras de quem saiu da aridez do Nordeste, passou pela metalurgia e subiu a rampa do Planalto. Esse pensamento pequenino, na sua imensa arrogância, era auto-contraditório: orgulhava-se de ser "grandioso" ao se submeter aos outros.
Pois bem: não há um jornal ou revista que estabelece projeções político-econômicos para o próximo milênio que não cite o Brasil. Graças à política externa agressiva e faladora de Lula, estamos onipresentes como jamais estivemos, ao lado da China e Índia (aqui é só exemplo). Como pode o "ignorante" Lula ter feito um papel MUITO mais importante na política internacional que o "culto" FHC?
"Não dá para entender".

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quinta-feira, outubro 09, 2008

NÃO INVENTA, MANÉ

DEPOIS DE QUATRO ANOS DE hesitação, finalmente tomei coragem mês passado e adquiri, via Amazon.com, cinco livros. Tenho certeza que os cinco são ótimos (um já li: "Culture of Control", de David Garland). Optei por comprá-los diretamente, porque afinal de contas imaginei que seria mais barato que usar a Livraria Cultura.
Tolice.
Como se todos os deuses estivessem contra mim, o dólar simplesmente resolveu disparar (de RS 1,70 para 2,30), aumentando quase pela metade o preço da compra.
Não bastasse isso, dois dos cinco livros ("Culture of Control" e "Outsiders", de Howard Becker), foram traduzidos DEPOIS da minha compra, apesar de o segundo ter já algumas décadas de existência -- enfim, tinham que traduzir justamente NO MOMENTO em que eu resolvo comprar e TOMO BONITO ... na valorização do dólar. É PESSOAL.
Agora só me resta esperar pelos meus lindos livros novos do Agamben: "Means without ends", "The Time that remains" e "Remmants of Aushwitz" como consolo.
A lição é clara: NÃO INVENTA, MAGRÃO.

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domingo, outubro 05, 2008

DIAGNÓSTICO PERFEITO

O PROFESSOR OSWALDO MARTINS TEIXEIRA, segundo noticia o Caderno Mais! da Folha, lecionava literatura para alunos da 7ª e 8ª série da escola da Zona Sul do Rio de Janeiro. Oswaldo foi demitido por ter cometido um crime indesculpável: era poeta e, pior, gostava de poesia erótica.
Não tardou muito tempo até os cães hidrófobos do moralismo descobrirem e pedirem a cabeça do professor. Tudo aquilo era "inadequado" para seus filhos, ainda que a produção nem fosse lecionada em aula. É como se a "impureza" fosse contagiosa, perigosa doença que pode ser impregnada nos seus castos filhos e filhas. A resposta do poeta e professor foi a única plausível: a literatura erótica é comum, sempre foi, e nada há de anormal nisso.
A patrulha, no entanto, venceu, e o despachou do colégio sem maiores explicações. Fascismos, afinal de contas, não precisam de grande sofisticação na fundamentação: vivem mesmo da burrice e da mediocridade - orgulham-se disso, inclusive. Se disse apenas que uma comissão de "juristas e psicólogos" (não poderiam ser outros atores senão esses que Michel Foucault tão bem estudou na hedionda combiação psi/lex) entendeu ser caso de afastamento.
Em homenagem ao poeta Oswaldo, publico aqui trecho do seu poema que saiu na Folha de São Paulo. É impressionante como a poesia -- e filósofos como Derrida, Heidegger e até Rorty não cansaram de o dizer -- repõe a integralidade do indizível o habitando, sem precisar exercer a violência da representação. Percebam a crítica mordaz que antecipa a demissão e a explica com precisão:

"a alice no país das baboseiras
é uma garota esperta
prefere foder com a coleguinha
usar celular
batom
cortar as cabeças
dos mendigos"
Do livro "Cosmologia do Impreciso"

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quarta-feira, setembro 10, 2008

FAZENDO UM BREVE EXERCÍCIO DE OBSERVATÓRIO

Alguns cronistas da Folha destacam-se pelo absoluto vazio de idéias e análise superficial do meio político. É como se fosse a revista Caras adaptada ao noticiário político.
Esse artigo é irônico porque trata do "fim do neoliberalismo". É claro que eu sei que nunca existiu neoliberalismo no Brasil, simplesmente porque não pode existir "neo" onde não houve liberalismo. Houve, isso sim, a desistência de um projeto de Welfare State (determinado pela Constituição) que, por seu anacronismo, acabou nunca implementado, provocando um discurso de defesa do "mercado" de fachada.
Bueno, vamos ao artigo:
09/09/2008
Bush faz a festa do PT
Acredite. O presidente dos Estados Unidos, George Bush, provocou um clima de festa entre os petistas reunidos ontem para comemorar o aniversário de 200 anos do Ministério da Fazenda. Ministros, assessores e economistas ligados ao PT não se continham de felicidade ao comentar a decisão do norte-americano de soltar um megapacote de ajuda financeira de US$ 200 bilhões a duas instituições falidas do setor imobiliário. "Colocaram o último prego no caixão do neoliberalismo", era o que mais se ouvia nas rodinhas de conversas antes, durante e depois do evento realizado aqui em Brasília.
Dilma Rousseff, ministra da Casa Civil e a candidata presidencial do presidente Lula, fazia questão de dizer que os Estados Unidos nunca praticaram o neoliberalismo puro. Não só eles, mas também a Europa e Japão, afirmava ela, acrescentando que sempre recomendaram que os países em desenvolvimento seguissem essa receita econômica. Mais ou menos na linha façam o que digo, não façam o que faço. Ou, nas palavras literais da ministra, que defendeu a medida do governo norte-americano: "Essa história de neoliberalismo só vale para nós. Nunca houve neoliberalismo no mundo capitalista desenvolvido". A satisfação era tanta que havia petista fazendo uso de algo que sempre criticaram no passado para alfinetar os Estados Unidos. Foi o caso da economista Maria da Conceição Tavares. "Enterraram o neoliberalismo de uma maneira trágica.
Custou uma fortuna. O nosso Proer foi mais baratinho", ironizou, recordando o programa lançado no governo Fernando Henrique Cardoso para socorrer bancos falidos. Programa semelhante ao lançado pelos Estados Unidos agora e tão bombardeado pelo PT naquela época no Brasil.
Engraçado foi ouvir de petistas não só ironias, mas também elogios ao governo norte-americano. Na verdade, elogios irônicos. "É o pragmatismo responsável", destacou o ministro Guido Mantega (Fazenda), quando foi questionado sobre o socorro às duas gigantes do mercado imobiliário norte-americano. "Desmistifica a idéia de que mercados livres sempre levam ao melhor resultado", acrescentou o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa.
Nas rodinhas do evento, apesar dos comentários irônicos, todos defendiam a medida sob a justificativa de que seria um desastre para o mundo se as duas gigantes Fannie Mae e Freddie Mac quebrassem. É isso aí. Nada como um dia depois do outro. Ou melhor, nada como chegar ao poder depois de ter sido oposição. O que ontem era criticado aqui, hoje é elogiado ali. Não sem boas alfinetadas.

Valdo Cruz, 46, é repórter especial da Folha. Foi diretor-executivo da Sucursal de Brasília durante os dois mandatos de FHC e no primeiro de Lula. Ocupou a secretaria de redação da sucursal e atuou como repórter de economia. Escreve às terças.
Vejam: não estão lendo errado. O artigo consegue dar uma reviravolta para dizer que "O PT DEFENDE BUSH", que "o tempo muda o PT" e daí por diante. Sim, é a coisa mais burra já vista (sem contar manifestações de pittbulls de revistas neocons) na história, pois OS PRÓPRIOS FATOS narrados no artigo indicam que "Bush aderiu ao PT", e não o oposto (ou seja: os republicanos desistiram de deixar o mercado por si só (neolib) e resolveram dar de keynesianos).
É assim que funciona uma estratégia quase goebbelsiana de inverter os fatos na cara do leitor. Uma vergonha.

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quinta-feira, setembro 04, 2008

BIG BROTHER

ERA SÓ O QUE FALTAVA. Agora o blog virou centro de visitas de alunos ressentidos escondidos atrás do anonimato da net. Que pentelhice! A Internet é big brother mesmo.
Não adianta, meus caros, o que vale aqui não é o argumento da autoridade, mas a autoridade do argumento. Como, aliás, em aula também.

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quinta-feira, agosto 21, 2008

CULTURA

De um repórter do jogo, comentando a saída de Airton, meia do Flamengo:
- Os jogadores do Flamengo estão saindo extasiados de campo.
Não sabia que futebol tinha virado espécie de orgia coletiva. Achava que os jogadores saiam extenuados.


Moral da história: o Fla teve que dar a vida para ganhar do Grêmio. Ou seja: o tricolor vende caro as derrotas. Vão ter que correr muito para nos tirarem o caneco.

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quinta-feira, agosto 07, 2008

LIXO MUSICAL

Se eu nunca concordo com o Torre de Marfim em termos de política e assuntos conexos, pelo menos essa coluna eu posso dizer que assino embaixo.

Grandes parcerias
Na Livraria da Vila, eu descubro que Simone e Zélia Duncan lançaram um disco juntas, chamado Amigo é casa. O troço é a gravação de um show ocorrido no Parque do Ibirapuera. Horrorizado, me dou conta de que há pessoas que vão assistir Simone e Zélia Duncan cantarem ao vivo e outras que compram o CD das duas. Imagino o sujeito em casa ou no carro, ouvindo o CD e pensando:

- Mas essa Simone canta bem mesmo, não? Eu gosto dela desde o tempo de Eu tô que tô.

- Não é que essa música ficou ótima na voz da Zélia Duncan?

- Ficou muito boa essa dupla. Acho que, para melhorar, só se elas convidarem a Ana Carolina para o próximo show.

Inspirado pelo disco de Simone e Zélia Duncan e pelo princípio estético de que o povo gosta de pão com merda, de preferência com pouco pão, idealizei um projeto musical que certamente fará sucesso no Brasil: promover shows e lançar uma coleção de discos com as piores duplas possíveis da história da música brasileira. Imagine o público que haveria para um encontro entre Oswaldo Montenegro e Guilherme Arantes? Terra Planeta Água e Condor já despontam como prováveis “músicas de trabalho” para tocar no rádio. Fagner e Elba Ramalho, se é que já não gravaram juntos, também seriam uma dupla de respeito, ao combinar a gralha do Nordeste com o sujeito da voz que parece o grito do porco no momento da castração. O problema é que talvez essa idéia já tenha sido adotada no Brasil. No sábado, no Multishow, eu vi um clipe em que NX Zero e Pitty cantam juntos. Aliás, o potencial do projeto Piores Parcerias talvez seja ainda maior no rock nacional do que na MPB. Embora seja difícil rivalizar com NX Zero e Pitty, acho que CPM 22 e Detonautas poderiam dar conta do recado, assim como Charlie Brown Jr. e Natiruts. Eu não sou saudosista e não levo rock nacional a sério, mas, perto dessas bandas de hoje, os grupos da época da minha adolescência pareciam formados por músicos sofisticados e poetas refinados. Como disse um amigo meu quando compáravamos a nova geração de debilóides com a geração dos anos 80, Renato Russo não era nenhum Rimbaud, mas pelo menos sabia quem foi Rimbaud

Só ressalto que Zélia Duncan e Ana Carolina (digo, Simone) não são artistas "populares", mas muito mais ouvidos na classe média e elite.

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quarta-feira, julho 02, 2008

COMPLEXO DE VIRA-LATA

Nelson Rodrigues, um grande leitor da psicologia tupiniquim, definiu o brasileiro como portador de "complexo de vira-lata". Lendo o artigo de Gerdau Johanpeter na ZH de domingo, não posso deixar de concordar violentamente com o mestre torcedor do Fluminense.
Gerdau afirma que a lei de tolerância zero no trânsito marca um novo momento, em que a tolerância deixará de ser vista como virtude e pararemos de tolerar condutas como jogar lixo na rua e relaciona isso com condutas como a dos "sanguessugas", do "mensalão" ou do DETRAN. A tolerância afetaria a "credibilidade das instituições" e daí por diante.
Gerdau, em um certo momento, cita seu grande referencial: Rudolf Giuliani, Prefeito de Nova York que implementou o "Programa de Tolerância Zero".
É aqui que, precisamente, entra nosso "complexo de vira-lata". É impressionante como agora se repete a experiência de NY como se fosse um mantra em solo gaúcho, vangloriando o "milagre" da redução da criminalidade. Nada de fala das ácidas críticas criminológicas ao programa -- basta ler, por exemplo, um Jock Young ou um Loïc Wacquant --, que não encontra unanimidade nem na academia norte-americana, tampouco da redução idêntica do nível de delitos em outras cidades norte-americanas sem a adoção do slogan e baseada em outros modelos de segurança, a exemplo do policiamento comunitário. Aliás, o Tolerância Zero é reduzido ao seu aspecto mais cretino, que é exatamente a intolerância aos pequenos delitos, tese de James Wilson que NÃO foi implementada ao todo em NY, sem se falar, p. ex., da redução drástica da corrupção e o investimento na polícia. A Tolerância Zero teve público, e certamente os executivos de Wall Street não estavam muito preocupados com os esquadrões de Giuliani, apesar dos seus white-collar crimes.
O que me leva ao segundo ponto do complexo de vira-lata: por que raios achamos que nossos políticos que cometem fraudes de mensalão e DETRAN são corruptos e os EUA são exemplo, quando Bush "inventou" uma guerra para pagar seus lobbies armamentista e imobiliário e entope o Iraque de empresas de segurança vinculadas aos seus assessores? Isso não é corrupção? Não é corrupção gastar bilhões em um conflito que visa a encher os bolsos das petrolíferas dos EUA? Quem de nós não enxerga a tremenda corrupção que existe nos EUA, locupletando um complexo-industrial militar que tenta transformar a democracia norte-americana em plutocracia?
Terceiro ponto do "complexo de vira-lata": Gerdau não refletiu sobre nada disso. Nosso autoritarismo, como diz Eugenio Raúl Zaffaroni, é um "autoritarismo cool", baseado em slogans publicitários ("tolerância zero", "janelas quebradas") e consiste num mimetismo patético das elites latino-americanas do comportamento dos vizinhos do Norte, sem se atentar para as peculiaridades presentes no contexto do Sul. Não é mais o autoritarismo fundamentado, o aparato científico-racista-nacionalista do Nazismo, mas um autoritarismo raso, publicitário, cosmético, superficial e cheio de slogans que encerram discussões. O "Tolerância Zero" de Giuliani, por exemplo, é um mantra repetido ad nauseam, sem que percebamos que Giuliani sequer conseguiu ser eleito candidato republicano esse ano, e que Jock Young afirma que temos tanto para aprender com o TZ quanto com os Gulags soviéticos, os Lager nazistas e assim por diante.
É difícil discutir o papel da tolerância com esses autoritários "cools". Mas talvez seja útil recomendar uma releitura em Voltaire e Beccaria para convencê-los que ela é um dos pilares da nossa civilização moderna.

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quarta-feira, junho 25, 2008

MÍDIA RIDÍCULA

Depois a gente tem que ficar ouvindo o Wianey Carlet dar lição de moral (furada) contra os treinamentos fechados. Esse episódio comprova que o treinador tem que fechar mesmo, foda-se a imprensa, porque o torcedor só quer a vitória, independe de manchetes dos jornais.
É incrível a cara-de-pau da mídia no corporativismo. O cinismo de se intitular dona do "interesse público" é grotesco. Nesse ponto, equivalem-se aos políticos que tanto criticam.

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DIANTE DA EXPLOSÃO DE FASCISMO NO RS E NO BRASIL...

Só a arte dá conta:


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segunda-feira, junho 23, 2008

CHEGAMOS AO MÁXIMO

Já escrevi por aqui que "Tolerância Zero" não foi apenas um programa relativamente bem sucedido, embora totalmente excludente, praticado na cidade de Nova York durante o governo de Rudolf Giuliani. É também um tremendo slogan publicitário, repetido ad nauseam por pessoas de baixa formação acadêmica, misturado às "every day theories" ou simplesmente com senso comum mastigado com pitadas de fascismo.
Adotamos, agora, "Tolerância Zero" para o álcool no volante. Como a maioria das últimas leis, é produto do relativo sucesso da esquerda punitiva no quadro político criminal brasileiro, que editou leis pesadas para punir "novas formas" de criminalidade. Esquerda Punitiva e Lei e Ordem, embora de lados distintos, andam de mãos dadas legitimando a idéia de que o sistema penal é adequado para resolver os complexos problemas sociais. Então Fundação Thiago Gonzaga e outras ONGs irão aplaudir, como as feministas aplaudiram a Lei Maria da Penha.
As discussões na mídia sobre o assunto mostram o quão ridícula é a situação. Estamos discutindo pessoas que tomam antidepressivos, moças que comem bombons de licor, amigo que toma um gole da cerveja do companheiro, enfim, situações absolutamente ridículas que deveriam acordar nossos "higienistas" para a irrealidade da exigência.
A lei coloca de cabelo em pé qualquer pessoa que se preocupe com a técnica adequada de tutela penal. Privilegia perigo abstrato (ou seja, ausência de perigo efetivo, mera presunção) em detrimento de perigo concreto (ou seja, existência real de perigo pela conduta do motorista), e ouviu-se até dizer que o "carona" poderia começar a ser punido, daqui a pouco.
De outro lado, nada, absolutamente nada se provou sobre os motoristas que dirigem com menos de 0,6% no sangue de álcool e, mesmo assim, causam acidentes. Essa seria a razão para a diminuição do patamar. Deveríamos provar que o limite do álcool era insuficiente, que esses motoristas eram causadores de acidentes; enfim, base empírica REAL. O que temos? Nada.
Por que, então, a lei foi aprovada? Simples: populismo punitivo. Aumentamos os bodes expiatórios e rimos deles (enquanto não formos nós), usando a legislação penal com finalidade "educativa". É isso que, infelizmente, por falta de diálogo vêm pregando movimentos sociais importantes como o feminista, ambiental, negro, homossexual, de diminuição da violência no trânsito, etc. Por ignorância, acabam usando o sistema mais ineficiente e débil da nossa sociedade como única forma de instrumentalização das suas reinvindicações legítimas. Com isso, perdem todos.
Infelizmente, problemas sociais são complexos. Há transporte público seguro e eficiente para todos? Há focos de cultura de violência contra a mulher? Um tipo penal acabará com a insegurança dos "machões" contra os homossexuais? O racismo tem diminuído com a criminalização? Todos esses problemas são imensamente difíceis, e não é o sistema penal, que é o que funciona pior de todos, que os resolverá.

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sexta-feira, junho 20, 2008

INDICIAMENTO DESCABIDO

É descabido o indiciamento do Secretário de Segurança e demais responsáveis pela superlotação do Presídio Central. Se alguém deveria ser indiciado, é o juiz da Vara de Execuções Criminais, que controla o número de presos. Além disso, o problema é estrutural, não individual. Chamamos de "esquerda punitiva" esse espectro político que usa a mesma estratégia da direita -- criminalização e discurso punitivo -- para resolver problemas profundos. Ambas tendências têm em comum seu caráter "cosmético", como diz Jock Young, por tratar problemas crônicos com soluções superficiais.
Não tanto "esquerda punitiva" quanto o oportunismo político fez deputado do PT reclamar que um dos assessores de Yeda tinha cumprido pena. Jogou o mesmo jogo sujo da política, em que vale tudo para atacar o adversário, e acaba caindo numa incoerência tão insuportável que teve que se retratar, em uma emenda que saiu pior que o soneto. Pior ainda são os cegos que não querem ver a burrada.
Como bem disse o ótimo Marcos Rolim, nem esquerda nem direita estão preparadas para lidar com o problema. O oportunismo político tem bloqueado o pensamento sério sobre crime e segurança pública.

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quinta-feira, junho 19, 2008

DOENÇA TOTAL!!!

18/06/2008 - 20h33
Família de mãe de Isabella nunca aprovou namoro com Alexandre
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PAULO TOLEDO PIZA
Colaboração para a Folha Online


A avó materna de Isabella, Rosa Maria Cunha de Oliveira, disse que cheques devolvidos de Alexandre Nardoni, 29, aliado à suspeita sobre a fidelidade dele, levaram sua filha, a bancária Ana Carolina Oliveira, a romper de vez o relacionamento com o pai da criança.
Em depoimento que começou às 17h40 e terminou às 18h34 desta quarta-feira, a avó de Isabella disse ao juiz Maurício Fossen, do 2º Tribunal do Júri do Fórum de Santana, que sua família nunca aprovou o relacionamento de sua filha com Alexandre. "Ele falava muita gíria e não estudava", afirmou Rosa Maria, de acordo com a assessoria do TJ (Tribunal de Justiça).
Segundo Rosa Maria, o estopim para o término do relacionamento ocorreu quando a bancária descobriu que Alexandre tinha 75 cheques devolvidos.
"Não quero isso para minha vida", teria dito Ana Carolina para a mãe.
Rosa Maria afirmou ainda que ficou horrorizada quando a mãe de Alexandre, Maria Aparecida Nardoni, lhe contou que certa vez o filho jogou Pietro --filho dele com Anna Carolina Jatobá-- de uma certa altura, porque o garoto teria mordido a irmã.

Ciúme

No depoimento, Maria Rosa revelou também que a mãe de Alexandre teria dito a ela que Jatobá sentia um ciúme doentio da mãe de Isabella. A avó materna acrescentou que sua filha só falava com a madrasta de Isabella por telefone e ressaltou que as duas nunca foram amigas. "Até porque, a Jatobá detestava minha filha". Por causa desses problemas de relacionamento, Maria Rosa disse que tanto a família Nardoni quanto a sua se preocupavam em deixar menina dormir na casa do pai.
O pai de Isabella e sua mulher são acusados pela morte da menina, que segundo a polícia foi jogada do sexto andar do prédio onde o casal morava, no dia 29 de março.
Retratação
Ao final da primeira hora de depoimento, Rosa Maria disse que se expressou mal à polícia durante o inquérito. Na ocasião ela afirmou que sua filha ficou doente porque havia terminado com Alexandre. Na verdade, segundo ela, queria dizer que Ana Oliveira teria adoecido devido a uma gastrite.
A avó materna de Isabella é a terceira testemunha ouvida hoje pelo juiz Maurício Fossen. Já prestaram depoimento Ana Carolina de Oliveira, mãe da criança, e o porteiro que trabalhava na noite em que a garota morreu, Valdomiro da Silva Veloso. O juiz dispensou o depoimento do marido de Rosa Maria, José Arcanjo de Oliveira, alegando que ele diria a mesma coisa que a mulher. A Promotoria acatou a decisão.

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