Mox in the Sky with Diamonds

segunda-feira, agosto 31, 2009

SALO DE CARVALHO INICIA O PROCESSO DE COMPARTILHAMENTO DE LIVROS JURÍDICOS

A ACADEMIA DO DIREITO não escapa à regra geral e, como tal, se mostra um emaranhado entre uma posição conservadora e tradicionalista ou um burocratismo indiferente. Os juristas se dividem entre conservadores que querem preservar as "tradições" e a "autoridade", de um lado, e os burocratas que desejam "passar em concurso" e se acomodar, do outro. O resultado desse imbróglio é o simples não-pensamento da maioria dos "operadores do direito". Acostumados a decorar leis e classificações inúteis, escondem-se por baixo da retórica rasteira ou definições bizantinas.
Mas há exceções. E Salo de Carvalho é, certamente, uma delas. Lembro-me até hoje de abrir "Pena e Garantias", 1ª edição, e achar um livro chato, embora interessante do ponto de vista estratégico. É que àquela época eu já entrava nas discussões de Maffesoli, Deleuze, Baudrillard e Virilio -- os "pós-modernos". O livro, por outro lado, era tremendamente marcado pelo discurso iluminista, não raro referindo declarações de direitos da ONU e da Constituição. Quando fiquei sabendo que o Salo seria meu professor na Especialização, fiquei indiferente. Ok, lá vem aquele cara falar de iluminismo, Ferrajoli, garantismo, etc.
Nada feito. Choque total. Na aula, Salo falou de Nietzsche, do trágico, das idealizações do sistema penal e inclusive do garantismo. Fiquei louco. Afinal, certamente era a primeira vez que ouvia falar de Nietzsche em uma das sagradas faculdades de direito. Em apenas uma intervenção, Salo desconstruiu toda imagem que nutria dele, passando de um oposto a outro (dizem por aí que isso se chama alteridade...). No Mestrado a experiência foi igualmente fantástica.
Tudo isso para dizer que o Salo coloca agora alguns dos seus livros à disposição em versão virtual para download, aderindo ao copyleft. Escrevi por aqui esses dias da importância da Internet como um mecanismo de mudança de comportamento radical: muito mais do que a troca da informação, a internet dissemina e põe em xeque todo regime da propriedade, revivendo a dádiva a partir do compartilhamento de arquivos e facilitando a experiência do comum. O estigma pirata se converte cada vez com maior intensidade em emblema, do que testemunham a emergência dos partidos piratas na Europa. Salo, que eu saiba, é um dos primeiros a disponibilizar e pode ter dado um passo decisivo com isso. Ele não costuma ficar para trás.
Eis o link.

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sexta-feira, agosto 14, 2009

LEITURAS DAS FÉRIAS


Antropologias...
René Girard, "A Violência e a Sagrado"
Marcel Mauss, "Ensaio sobre a dádiva"
Clifford Geertz, "Nova luz sobre a antropologia"

Resolvi ler alguns dos principais autores da antropologia, a fim de retomar um pouco algumas leituras que tinham ficado para trás desde o Mestrado. Girard foi o primeiro dos três, pois era o mais afim do tema que venho estudando em geral: a violência. Em "A Violência e o Sagrado", desenvolve a ousada tese de que toda formação do sagrado -- em qualquer lugar e tempo do mundo -- consiste em um enigma que dá conta da condição humana e pode ser decifrado: os humanos vivem, no início, um ciclo de violência e vingança interminável, em que a agressão nunca se encerra; a fim de encerrar esse ciclo, surge o mecanismo da vítima expiatória: a comunidade volta-se toda contra apenas uma pessoa, que concentra todo mal em si mesma, e a sacrifica, com a finalidade de expurgar para o divino a violência e, com isso, preveni-la. A partir de mitos gregos, rituais africanos, ameríndios e outras provas, pretende mostrar que a estrutura de todas as sociedades humanas -- e todos os seus rituais -- se explicam a partir do mecanismo da vítima expiatória. Depois fui para o Geertz. O Fabs tinha me advertido que talvez esse não fosse o primeiro livro. De fato, não me atraiu em nada o autor. Embora deveras inteligente em argumentação e bastante criativo, Geertz não me acrescentou muita coisa. Mas não descarto ainda o autor. Por fim, Mauss; interessantíssima sua tese sobre a dádiva, transbordando da perspectiva utilitarista para explicar as relações de trocas. Tem valor de clássico.



Literaturas...

Graciliano Ramos, "Vidas Secas"
Rubem Fonseca, "A Grande Arte"
Primo Levi, "É isto um homem?"
Ricardo Timm de Souza, "Ocaso: contos de entreluz"
Emily Bronte, "O Morro dos Ventos Uivantes"

"Vidas Secas" é daqueles livros que nos traumatizam durante a adolescência. É que não é um livro para ser lido na adolescência. Ou, pelo menos, não com o tipo de ensino que temos na literatura. Enclausurada no quadro disciplinar do ensino médio, a literatura perde seu enraizamento histórico-factual e político que lhe dá densidade e fixa-se obsessivamente no aspecto estético, prendendo-se a detalhes que o adolescente geralmente não está nem um pouco interessado. Com isso, "Vidas Secas" vira uma leitura arrastada, densa e monótona. É, porém, um belo livro, em que a clareza da "nudez" da vida no sertão fica exposta na sua brutalidade. "A Grande Arte", de Rubem Fonseca, é um divertido romance policial, porém sem grande aprofundamento nas questões (embora longe de livros mais vulgares como alguns best-sellers que andam por aí). Prefiro, por enquanto, Rubem contista, na sua exploração insaciável da ambivalência humana. "É isto um homem?" é um relato sufocante de Auschwitz, retratando na mais crua narração até onde pode ir a perversidade humana. Por outro lado, é surpreendente a lucidez -- e até, por vezes, a "contenção" -- da prosa de Levi, que jamais se utiliza de qualquer "expressionismo" na apresentação de situações absolutamente inimigináveis do campo de concentração. "Ocaso", recente lançamento do amigo Ricardo Timm de Souza, foi lido pela segunda vez (tenho a sorte de ter ganho uma edição própria e inédita!). Surpreende a delicadeza com que Ricardo se move entre as palavras, atuando como um verdadeiro cirurgião na elaboração de sua prosa. As metáforas são cuidadosamente construídas e encerradas de forma seca e não-óbvia, levando o leitor à perplexidade (e, portanto, à reflexão e ao pensamento). Em estilo quase oposto ao que caracteriza seus já reconhecidos ensaios filosóficos (mais do que o normal, menos do que o devido), onde mantém uma estrutura expressionista e tece longa e profunda argumentação, aqui o tiro é de precisão, um só, sem repetição, como o "ataque final" da aranha que abocanha um inseto. Tudo é dito na mais extrema simplicidade e, justamente por isso, na mais extrema profundidade. Por fim, minha última leitura: "O Morro dos Ventos Uivantes", de Emily Bronte, um belíssimo romance que trabalha como poucos o ressentimento e os efeitos devastadores da lógica da vingança sobre o ser humano.



Psicanálises...

Nasio, "7 Lições sobre Jacques Lacan"
Orlando Cruxên, "Sublimação"

Confesso que não me causaram maiores impressões nenhum desses dois livros de psicanálise. Nasio parece demasiado imerso em Lacan de forma a não conseguir traduzir ao leitor, muitas vezes, o cerne das questões que põe. A impressão que fica é que falta rigor, consistência, que algumas questões teóricas fundamentais são superadas a soco, ou, até pior, com certa a-criticidade. Porém foi apenas minha primeira leitura sobre Lacan (as anteriores, embora por vezes se referissem a ele, eram sobre Freud). Nasio parece mais interessado em justificar seu saber com base na experiência "clínica", praticamente afirmando que "o importante é que funciona, não sabemos nada sobre isso". Enfim. O livro de Cruxên sobre "Sublimação", com certo caráter introdutório, também foi frustrante no seu desenvolvimento. Considero a temática como fundamental, especialmente porque a sublimação consta em Freud como um meio de escapar da violência e, simultaneamente, da repressão.

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quarta-feira, julho 15, 2009

VIDAS SECAS

"- Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta.
Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza iam admirar-se ouvindo-o falar só. E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra.
Olhou em torno, com receio de que, fora os meninos, alguém tivesse percebido a frase imprudente. Corrigiu-a, murmurando:
- Você é um bicho, Fabiano."

Sim, estou pensando em aproveitar isso, sim.

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terça-feira, julho 14, 2009

LEITURAS DE FÉRIAS




-
Graciliano Ramos, "Vidas Secas";
- Ruben Fonseca, "A Grande Arte";
- Paul Auster, "A Trilogia de Nova York";
- Primo Levi, "É isto um homem?"



- J. Saer, "As Nuvens";
- Franz Kafka, "Na colônia penal/O veredito";
- René Girard, "A violência e o sagrado";
- Clifford Geertz, "Nova luz sobre a antropologia";


- Marcel Mauss, "Ensaio sobre a dádiva".

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terça-feira, abril 21, 2009



A ASTÚCIA DOS VENCEDORES

DESDE O FIM DO ESTADO DE BEM-ESTAR, as palavras que estão na moda para contrariar políticas que beneficiam os pobres e marginalizados são "paternalismo", "assistencialismo", "vitimização" e outras (no vocabulário mais ou menos culto). A estratégia é culpar os próprios pobres pela pobreza (são vagabundos), afirmar que os negros não sofrem preconceito (ao contrário: eles são os preconceituosos por quererem cotas), que os índios são aliados dos EUA (em projetos imperialistas de conquista da Amazônia) ou são também vadios que não querem se integrar à "civilização". Esses marginalizados -- os "vencidos" na história -- nada tem de vítimas; são, na verdade, os agentes da própria desgraça. Por que, então, alguma generosidade? Melhor é apostar na nossa sociedade justa, na qual os melhores se dão bem e, com isso, "progredimos".
Essa discussão volta quando vejo resenhas detonado "As Veias Abertas da América Latina", que recentemente foi dado como presente por Chavez para Barack Obama na última cúpula das Américas. O livro é sempre tratado como "defasado", "ultrapassado para alguns", "excessivamente paternalista com os latino-americanos", etc. Interessante observar que essa estratégia discursiva não costuma estar presente nas resenhas de outros livros. Será que um dia a Veja irá colocar ao lado do livro de Fukuyama a pecha de "ultrapassado"? Ou irá grampear sobre os empresários que defendem a liberdade irrestrita de mercado o estigma de "dinossauros", como fez com o último FSM? Deixa para lá.
O fato é que algumas análises do livro de Eduardo Galeano estão exagerando na dose. É claro que é possível que existam muitos erros históricos e que Galeano tenha passado a mão em alguns aspectos. Perfeitamente possível. Por outro lado, a vítima segue sendo vítima. A América Latina é - SIM - vítima do imperialismo colonial europeu (como não seria!?) e foi saqueada sim pelos portugueses, espanhóis, holandeses, franceses e ingleses. Vão visitar esses países (e outros) e ver a quantidade de Igrejas construídas com NOSSO ouro... Os latino-americanos têm responsabilidade sobre isso? Alguma, sem dúvida. Poderiam ter se rebelado mais fortemente, talvez (e muito sangue seria derramado, pois violência é especialidade do "civilizado" europeu). A estratégia européia foi levada a cabo por meio de elites cretinas (latinas) que até hoje nos governam (a Bolívia é o exemplo mais claro) e baseiam seu papel de elite no saqueamento criminoso e na exploração econômica.
Ah, mas que papinho ultrapassado! Muito mais legal são os livros dos europeus ou norte-americanos contratualistas que eu leio e jogam fora todo esse blá-blá-blá "paternalista". Com todo o respeito, mas isso é mentalidade de colonizado. Não enxergar a violência por trás desse movimento que marginalizou a maioria da população da América Latina é, no mínimo, cegueira (e, daí para diante, má-fé). É tão espúrio quanto responsabilizar os judeus pela Shoah (holocausto), porque seriam "ricos" ou outros motivos tão nojentos que nem vale a pena tentar lembrar. Se extermínio e escravidão viraram coisas "light", é hora de fechar os livros e repensar seus conceitos.
É verdade que existem perspectivas que, ressentidas, ultrapassam o razoável. Acho que de certa forma é como leio Dussel -- algumas vezes as coisas que escreve são absurdas. No entanto, deixar de considerar a vítima o que ela é -- vítima -- é tão criminoso quanto o ato em si (por isso sempre detestei, apesar de ser liberal em matéria penal, a tal "vitimologia"). Índios que viviam pacificamente na América foram massacrados por conquistadores que saquearam nossas riquezas. Negros foram escravizados e depois jogados na precariedade social. Movimentos que tentaram emancipação (Canudos, Palmares) foram dizimados. A América Latina foi saqueada SIM, ainda que com a colaboração da sua própria elite podre.
Repito: retirar o caráter de vítima de quem está nessa condição é tão espúrio quanto dizer que os judeus são responsáveis pela Shoah. Dizer que é "paternalismo" ou "assistencialismo" alguém reconhecer que um índio desnutrido e dizimado precisa de ajuda (não dá tempo de entrar na "esfera pública" e argumentar com os demais) é algo inumano. Hoje, no entanto, a razão cínica orgulha-se do seu cinismo e ri de si mesma. Galeano pode até não ser o melhor livro sobre América Latina, pode ter ultrapassado da justiça para a vingança e, com isso, caído no ressentimento, mas cuidado com a retórica dos vencedores. Eles não venceram pelo mérito, e sim pela violência. E são astutos -- do contrário, não teriam vencido.

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segunda-feira, setembro 22, 2008

"ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA", JOSÉ SARAMAGO (O LIVRO)



E SE NÓS VIVÊSSEMOS em uma situação-limite, em um "estado de exceção"? E se nós caíssemos em uma situação aterradora em que todos os atos parecem estar no fio-da-navalha? E se, por acaso, as coisas exigissem de nós uma resposta imediata e absolutamente decisiva - incisiva? Acreditamos piamente em olhos que não vêem, deliram olhando para dentro sem contatar com o fora de si mesmos. Conversamos com nossos próprios conceitos mentais - nossas representações - sem tomar real contato com o que está fora de nós - sem vislumbrar o Outro, no sentido mais exterior possível, como o propriamente inefável.
E se nos privassem dos olhos? E se não pudéssemos mais ver? Ora, a primeira coisa que constataríamos é que possivelmente pela primeira vez entraríamos em contato com o real. Um real tão bruto e apavorante que muitas vezes exige um SIM ou um NÃO instantâneo, decisivo, incapaz de voltar atrás como a tesoura na garganta do terror. O paradoxo é que os olhos nos cegam, nos tornam incapazes de perceber a concentração infinita de real que se apresenta a cada instante diante de um atabalhoado - ou, como diria Juriká, alucinado - ser que se afoga dentro do si mesmo.
A experiência do campo é essa experiência-limite, abre um buraco negro na representação e suga para dentro de si qualquer imagem que tente a representar. É o vazio da palavra, a impossibilidade de Dizer, ou melhor, o Dizer que só existe fora do Dito, em pura potência, sem que jamais possa transformar-se em algo dizível, pois a vida ali foi extirpada. O campo é a experiência do limite, o momento do tempo qualitativo da história, como nos ensinava Benjamin, ou ainda o "Dia do Juízo Final", ou seja, todos os dias, como nos ensina Agamben no seu belíssimo "Profanações".
A ninguém é permitido avançar mais um instante sem perceber que os olhos são a verdadeira cegueira, a representação não é o mundo; o mar, como dizia Sartre, não é apenas uma película verde que se apresenta visível, mas um buraco escuro cheio de animais; enfim, a vida é a cada momento única e irrepetível, cada momento por si só uma chance que pode ser agarrada ou deixada de lado pela ilusão da cegueira-que-vê.

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segunda-feira, julho 28, 2008

LIVROS DAS FÉRIAS

As férias são um período em que dá para se reciclar nas leituras. Me dediquei a algumas nesse período. Destaco alguns:

CACO BARCELLOS, "ROTA 66"
Confesso que o fato de Caco ser repórter da Globo me gerava injusto preconceito. "Rota 66" é um intenso e seríssimo trabalho de pesquisa e investigação em torno da Polícia Militar de São Paulo, detalhando seus métodos de extermínio, as técnicas de encobrir os delitos e o amplo aplauso social à violência policial. Esse ignorância se perpetua até os dias de hoje, com boçais aplaudindo "Tropa de Elite" nas salas de cinema (e até de aula, acreditem) sem descobrir que um Estado com o mínimo de decência não pode tolerar violência policial em qualquer nível, quiçá no de verdadeira exterminadora de pobres e negros.
O relato é às vezes um pouco parcial e explora pouco as causas dessa violência, mas funciona muito bem como denúncia e investigação da situação da polícia. Ontem mesmo, lendo meu último "O Globo" comprado antes de vir embora, ali dizia que a polícia carioca prende sete vez menos em comparação com o aumento de "autos de resistência" (freqüentemente um eufemismo ofensivo), além de se utilizar do método de encobrir homicídios levando o "ferido" (na realidade, cadáver) ao hospital para destruir a cena do crime.
Infelizmente, o "cidadão de bem" (o conservador da classe média) aplaude o extermínio como, aliás, já fizera décadas atrás, no outro lado do Oceano. A mesma mediocridade de sempre, mas é mais fácil achar que os alemães é que eram um povo malvado.

MARQUÊS DE SADE, "FILOSOFIA NA ALCOVA" E "CRIMES DO AMOR" / OCTÁVIO PAZ, "UM MAIS ALÉM DO ERÓTICO: SADE"
Todos textos que, instigado pelo excepcional "Anti-manual de Criminologia" do Salo de Carvalho, me pus a ler. Tirei conclusões um pouco diferentes, no entanto.
Se a violência para Nietzsche e Freud é inerente ao humano, se temos nosso lado "dionisíaco", nosso "Id" ou nossa "sombra", é porque essa ambivalência nos constitui enquanto tais, como espécie de reverso do nosso lado consciente ou "apolíneo". Em Sade, as coisas me parecem diferentes. Especialmente na "Filosofia na Alcova", a violência é estruturada em demandas racionais, tornando-se inumana porque "fria", calculada e programada. O homem sadiano é, assim, não um libertino que explode de prazer e não contém seu narcisismo, mas alguém que goza sem gozar, parece querer anular-se e retornar a um estado "mineral", "bruto", escapando da doença civilizatória. Paradoxalmente, é por argumentos -- todos frágeis -- que Sade concebe a derrocada civilizatória.
É fundamental, nesse sentido, entender que o homem do Sade é díptico, e não se constitui senão pela vítima -- pela anulação do Outro -- que é destroçado e transformado em objeto de prazer e mutilação. Sozinho, esse homem nada significa. É pelo registro da alteridade destroçada que ele se constitui.
Sade, portanto, é um antecipador dos campos de concentração, como os frankfurtianos perceberam bem. A razão junta-se com a crueldade e torna a violência inumana, formando aquilo que transborda do lado "sombra" do homem e representa o mal: o terror.
O livro de Octávio Paz é genial em perceber a duplicidade do discurso sadiano, sua racionalidade, a frieza do libertino e uma espécie de retorno ao bruto, em forma de uma "Natureza" que desempenha um papel de teologia do mal. Por fim, "Crimes do Amor", contos que nada têm em comum com o Sade usual, é literatura menor, influenciada por "Vathek", de Beckford, e a literatura oriental em geral, resvalando em um romantismo às vezes cômico.

DALTON TREVISAN, "A GORDA DO TIKI BAR" E "O GRANDE DEFLORADOR"
Sou devedor da literatura brasileira da segunda metade do século XX, pouco conhecendo de autores importantes como Caio Fernando Abreu, Dalton Trevisan, Ruben Fonseca e até mesmo (essa conheço um pouco mais...) Clarice Lispector.
Por isso, comprei esses dois livrinhos de contos deliciosos -- embora trágicos -- de Dalton. Sua linguagem dura impõe nada mais que o real, como um tapa na cara por vezes tão forte que nos cega. Porque às vezes é simplesmente isso mesmo: a realidade é tão brutal que não se deixa representar; só a arte, nua e crua, é capaz de nos mostrar algo.

J.M. COETZEE, "À ESPERA DOS BÁRBAROS"
Livro FANTÁSTICO do escritor sul-africano J. M. Coetzee, que trabalha com uma ficção que muito diz de como compreendemos o "Outro" a partir da metáfora do império e os bárbaros. Livro de uma inquietação ética manifesta, capaz de confrontar a Totalidade com a Justiça, com aquilo que rompe a lógica e nega-se a reduzir ao "Império": o Outro.
Simplesmente imperdível.

CONTARDO CALLIGARIS, "A QUINTA COLUNA"
Volume que compila 101 crônicas de Contardo na Folha de São Paulo, apenas confirma o seu status de um dos mais importantes intelectuais do Brasil. Com seu texto leve, mas absolutamente profundo, sua inquietação pela diferença e comprometimento com o acolhimento, Contardo mostra-se um militante da compreensão e do diálogo, quebrando a casca narcísica que cobre o sujeito contemporâneo.
Apesar de ter lido grande parte das crônicas no jornal na época, a releitura foi deliciosa, esbanjando erudição, perspicácia, simplicidade e clareza.

JURANDIR FREIRE COSTA, "VIOLÊNCIA E PSICANÁLISE"
Forte coletânea de Jurandir Freire Costa, que é com certeza é outro dos mais importantes intelectuais nacionais. Jurandir, apesar de psicanalista, transita com facilidade entre os diversos referenciais filosóficos, com especial ênfase naquela que parece ser sua maior referência: Hannah Arendt.
No primeiro texto, em que pretende delimitar o conceito de violência, embora compreenda seu esforço pela desbanalização da palavra, acredito que tropeça um pouco ao restringir em demasia e acabar vinculando a violência a uma espécie de "má-fé", quando, a meu ver, a violência às vezes ocorre com a melhor das intenções (o caso de muitos padres e religiosos me parece exatamente esse; de outros, nem tanto...).
Ao ler um dos seus últimos textos, "Violência e Transcendência" (2007), posterior a esse volume, vejo que seu conceito se ampliou e provavelmente, pelo que noto no texto, Levinas deve ter sido um autor decisivo para essa mudança, embora seja Hannah Arendt, mais uma vez, o referencial preferido do autor para situar o problema.
Antes de terminar: o artigo que trata da violência racista deveria ser lido por todos os detratores das cotas RACIAIS, para entender exatamente o que está em jogo. É dilacerante.

JOSEF CONRAD, "CORAÇÃO DAS TREVAS"
Mais uma reflexão, no contexto do colonialismo europeu na África, da questão da alteridade e da totalidade. O suposto "projeto civilizatório" europeu levava consigo tremenda violência, representada nas últimas palavras de um personagem central da narrativa: "horror, horror".
Essas palavras são a síntese de todos os temas que estudei durante esse pequeno interlúdio entre o primeiro e segundo semestre, todas temáticas que mostram a violência como estrutura que muitas vezes se mescla e "acinzenta", passando-se por racional.
Quem subestima essa questão jamais toca o ponto central, a raiz, sendo por isso a insistência de autores que tanto me influenciam como Agamben, Timm, Levinas, Derrida, Benjamin, Adorno e outros de que todas as discussões que se passam na superfície do tema deixam o essencial de lado.

Como antídoto a tudo isso, fiquei com vontade de reler "Para além da crueldade", livro em que Derrida magistralmente faz a "ordem da crueldade" da psicanálise transbordar para a transcendência da hospitalidade, do perdão, do dom e - eu acrescentaria, com base no próprio Derrida - da justiça.
Termino, antes do retorno às aulas, "Venenos de Deus, Remédios do Diabo", de Mia Couto, e "O lado obscuro de nós mesmos", de Elisabeth Roudinesco.

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segunda-feira, janeiro 21, 2008

REPARAÇÃO, DE IAN McEWAN

Confesso -- e nem é a primeira vez que faço isso por aqui -- que seis anos de Direito me endureceram completamente. De um contumaz devorador de literatura, que lia pelo menos dois ou três romances por mês, tornei-me quase insensível para esses livros. Esse verão, no entanto, decidi que iria retormar o hábito, custe o que custar. Comecei com esse livro, que tinha presenteado para a Nati sob recomendação do finado NoMínimo, dizendo-se inclusive que se tratava, provavelmente, do melhor escrito neste século.
O romance, realmente, empolga. O "realismo psicológico", como a personagem e narradora Briony descreve seu próprio estilo, é simplesmente fantástica, e uma escrita clássica e elegante mostra como não é necessário escrever um novo Ulisses [ou algo mais hermético] para estar entre os grandes da literatura.
Seleciono a seguinte passagem como exemplo:

Um segundo pensamento sempre vinha após o primeiro, um mistério gerava outro: seriam todas as demais pessoas realmente tão vivas quanto ela? Por exemplo, seria sua irmã realmente importante para si própria, tão valiosa para ela mesma quanto Briony era? Ser Cecilia seria uma coisa tão intensa quanto ser Briony? Sua irmã também teria um eu verdadeiro por trás da onda que se quebrava, e passaria tempo pensando nisso, com o dedo quase encostado na cara? E as outras pessoas, inclusive seu pai, e Betty, e Hardman? Se a resposta fosse sim, então o mundo, o mundo social, era insuportavelmente complicado, dois bilhões de vozes, os pensamentos de todo mundo a se debater, todos com igual com igual importância, investindo tanto na vida quanto os outros, cada um se achando o único, quando ninguém era único. Era possível afogar-se aquele mar de irrelevância. Mas se a resposta fosse não, então Briony estava cercada de máquinas, inteligentes e agradáveis vistas de fora, mas sem aquele sentimento vivo oculto, interior, que Briony tinha. Era uma idéia sinistra e desoladora, além de improvável. Pois, por mais que era muitíssimo provável que todo mundo tivesse pensamentos como os dela. Isso ela sabia, mas apenas de um modo um tanto árido; não conseguia senti-lo de verdade.

Um grande resumo, literário, do que significa a dimensão da alteridade. Mais detalhes não por aqui, mas, talvez, em algum paper.

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O AMANTE DE LADY CHATTERLEY, DE D. H. LAWRENCE
Constava como uma das lacunas nas minhas leituras dos clássicos a ausência desse romance. É um grande livro, irrigado de uma sensualidade tremenda, que faz despertar toda corporalidade inerente à nossa atividade humana.
Longe de qualquer vulgaridade -- vulgaridade que não me faz mal, vide Henry Miller, um dos meus favoritos, mas aqui não se faz presente -- Lawrence explora, na relação entre Lady Chatterley, Connie, e o couteiro Mellors, toda a humanidade presente na relação sexual, todo esse dispositivo entre o humano e o animal que os profetas da ascese tentaram eliminar. Felizmente, não conseguiram. Felizmente, tivemos Nietzsche para nos salvar. E depois Freud, Bataille, Deleuze, Foucault e mais um monte de gente, até a Madonna.
Não pude deixar de relacionar esse livro com outro que lia simultaneamente -- O Aberto, do filósofo Giorgio Agamben -- no qual Agamben, refletindo sobre o que difere o homem do animal, próximo ao final cita Benjamin pra dizer que o sexo é o que desativa essa separação. Lawrence parece trabalhar nesse estranho vão onde recém começamos a caminhar.
O livro, que data de 1928, ainda escandalizaria alguns puritanos. Felizmente, o mundo não é mais dos puritanos. Ao menos não todo o mundo.

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O ESTRANGEIRO, DE ALBERT CAMUS
O absurdo parece ser o grande tema do clássico "O Estrangeiro", de Camus. Dele, havia lido apenas "A Peste".
Achei a obra um pouco próxima de Kafka, pela naturalidade dos eventos que vão se sobrepondo de forma monstruosa até redundar na mais completa catástrofe, perante o qual o personagem reage com sincera indiferença.
O fluxo dos acontecimentos e a vida assolada na mediocridade, a indiferença completa e a ausência de qualquer sinal de responsabilidade, tudo parece refletir a terrível angústia dos tempos de Camus. Não parece à-toa que grandes autores dessa época tenham sinalado esse clima de profundo desencantamento -- seja em um Heidegger e sua angústia como tonalidade emotiva fundamental, ou a profunda Náusea de Jean-Paul Sartre. Um livro sobre o qual terei de refletir um pouco mais.
Atualmente, (re-)lendo O Processo, de Kafka, e A História do Olho, de G. Bataille.
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"DESEJO E REPARAÇÃO"


Como eu dizia há dois posts atrás, 2008 começa com dois grandes filmes. Não tenho o mesmo rigor de lançamentos no cinema como tenho por aqui com a música por uma simples razão: via de regra, não baixo filmes. Só filmes raros. Acho muito trabalhoso e gosto de ver no cinema. Por isso, um lançamento musical chega por aqui instantaneamente, enquanto que as películas seguem a data de lançamento no Brasil [e pior: em Porto Alegre].

A rigor, eu teria que rever Desejo e Reparação. Vendo o filme menos de duas semanas após ler o livro -- pura coincidência! -- não pude deixar de, o tempo todo, ficar fazendo comparações. Ou de não querer perder minhas imagens mentais de como imaginava os personagens.
Mas, apesar disso, não posso deixar de reconhecer uma grande produção, que foi razoavelmente fiel ao livro, com boas interpretações dos atores e algumas cenas belíssimas, das quais sem dúvida a onipresente cena da praia, citada sempre, é exemplo. Como estava ainda muito contaminado pelo livro, não pude deixar de reconhecer dois problemas no filme: indicia um pouco em demasia o que fica mais realmente misterioso no livro, e deixa de explorar a agressividade das cenas de guerra do romance, que mostram o horror da 2ª Guerra Mundial. Fora isso, tudo é muito bem feito, inclusive a "adaptação" no final.

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"A VIDA DOS OUTROS"




Filme maravilhoso. Longa alemão de 2006 que só agora chega a nós, trata de um membro da Polícia Secreta da Alemanha Oriental que faz uma escuta na casa de um escritor socialista, procurando algum indício de "traição", mostra como todas as Totalidades são perigosas, inclusive as de esquerda. No final, os dispositivos do poder são tomados por burocratas sujos que formam uma elite corrupta e desprezível. É a pulsação do humano -- pulsação do concreto -- que mostra um nó que vai se apertando ao longo do filme, até atingir seu ápice no final. Um nó surpreendente, mas que vai se tornando imperativo até virar inevitável.
Realmente, eu não quero contar mais. Vá lá e confira.

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