Mox in the Sky with Diamonds

sábado, setembro 26, 2009

A charge - que já tinha recebido, mas retirei do blog do Salo - reflete o típico discurso conservador dos nossos dias e escamoteia o fato básico de que ambos os modelos são violentos. A forma como o poder se exerce contemporaneamente consiste em impor a disputa entre as duas alternativas falidas.


EDUCAÇÃO NÃO É DISCIPLINA

DAQUELA SOCIEDADE que divertiu tanto Freud com as respectivas neuroses e Foucault na exploração do poder disciplinar pouco restou. Dentro do cenário de grande complexidade da sociedade contemporânea, a forma-de-vida que tem se tornada hegemônica não é a - um tanto cômica - neoconservadora, mas sim a neoliberal. Predomínio dos atuarialismos, da burocracia, dos discursos de "motivação", do "pensamento-positivo-Segredo", da idolatria do Deus-Dinheiro. Na sociedade de consumo, não é mais a ética ascética que Weber tão bem descreveu e relacionou com as raízes protestantes e o espírito do capitalismo; a sociedade do trabalho, que valoriza a ascese e economia, dá lugar ao consumo desenfreado e insustentável. Do regime do desejo mantido à custa da repressão e do recalque, palco de festas da psicanálise, passamos ao imperativo do gozo e narcisismo, com o consequente deslocamento para a psicologia comportamental e os psicofármacos. Pouco resta da disciplina pois não há mais interesse em produzir "trabalhadores"; interessa, apenas, o consumo, a fluidez do capital e, de resto, o esvaziamento do lixo (humano) que é "extranumerário".
E, no entanto, nossa sociedade gaúcha, patética e fascista como é (já fizemos o exercício de contar quantos do presidentes autoritários do Brasil eram gaúchos?), parece empenhada em campanhas neocons. Uma delas - conduzida pelo seu jornaleco marrom que já comentei aqui - trata de criar um clima de "pânico moral" em torno da desordem nas salas de aulas e requer o "retorno da disciplina". Para isso, conta com empresários morais vociferando pela presença do "limite".
Ora, a presença do limite jamais seria um problema; a questão é, qual o limite? É então que o conservadorismo gaudério aparece e volta a demanda pela "autoridade". Como se o modelo da disciplina não tivesse caído não por esquecimento, mas de podre que estava. Para isso, se humilha em público uma criança que agora deve estar sozinha em casa bebendo do veneno da culpa e do ressentimento. Não é incrível que ninguém esteja preocupado com o que sente nesse momento a criança que pichou as paredes? Será que não está traumatizada de forma cruel com o linchamento público que vem sofrendo na mídia? Tudo lembra muito a tese de René Girard de que a violência está onipresente num círculo vicioso de vinganças até o momento em que se resolve executar uma "vítima expiatória" -- com a unanimidade que projeta sobre ela todo o mal do mundo. Que tenhamos esquecido que se trata de uma criança que gosta de brincar é algo sintomático do ódio e violência que permeiam nossas relações.
Esse caso é tão central para o abolicionismo quanto os mais relevantes casos penais; trata-se do momento exato em que uma visão abolicionista demandaria uma nova visão da educação, não como um processo baseado no castigo e na disciplina, mas como uma prática que envolva diálogo e respeito à alteridade. Parece nítido que uma prática restaurativa seria algo muito mais maduro e educativo do que uma prática punitiva baseada na humilhação e no sofrimento. Mas será que alguém está realmente preocupado em educar esse menino? Ou simplesmente em transformá-lo no mesmo monte de lixo disciplinado que é incapaz de pensar com sua própria cabeça tal como os "cidadãos de bem" que escrevem para o jornaleco marrom? Até quando iremos acreditar que gritos, humilhação, sofrimento, traumas e agressões físicas podem ser chamadas de educação? Não há mais nem um resíduo de humanidade nessa fria sociedade gaúcha?
Antes de ser um modelo baseado em "direitos" e "instituições", o abolicionismo consiste num conjunto de propostas que pensam um novo modelo de sociabilidade, baseado no diálogo, no respeito à alteridade, na consciência moral e na restauração dos vínculos corrompidos. A educação tem um papel absolutamente central na construção desse novo mundo.

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sexta-feira, setembro 25, 2009

CRÔNICA DA BURRICE GENERALIZADA

Depois de uma pintura na escola, um aluno resolve pichar as paredes e é obrigado a consertar o0 dano, além de sofrer ofensas e humilhações públicas pela professora. Seus pais resolvem reclamar porque a criança se nega a voltar à escola, traumatizado pelo castigo e pela vergonha que passou diante dos colegas.

98% apóiam a professora em pesquisa. Todos reclamam dos pais e apóiam a punição. Ninguém quis ouvir a(s) criança(s). Professor famoso escreve para o jornal dizendo que "os alunos imploram por limites". Caso vira símbolo da "retomada da disciplina" na escola.

Em outras palavras, para o RS humilhar uma criança em público é "educá-la" corretamente.

RS, o país dos burros. Vai uma música para a tchurma gaudéria e machona:





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segunda-feira, junho 15, 2009

A BURRICE COTIDIANA NO RS

TEM GENTE QUE FICA brava quando falo que o povo gaúcho é uma merda. Alguns por gostarem do "tradicionalismo" (pura alucinação); outros, por considerarem o RS "marginal". Enfim, sei lá. Talvez ache o povo gaúcho uma merda apenas por estar com uma perspectiva mais próxima. É possível. Só que não posso deixar de comentar essa exibição da mediocridade gaúcha cotidiana que é a Zero Hora. Sem ter o toque afetado e propositalmente cínico dos cronistas da Veja, por exemplo (que já identificaram como filão editorial o neoconservadorismo), os gaúchos são sweet neocons by nature. "Natural born neocons". Não tem nenhuma afetação nos nossos jornalistas: eles são retrógrados, estúpidos, reprimidos e repressivos mesmo. Fazem o jornalzinho do Texas.
Vejam as mais recentes "campanhas". Primeira, o "X da educação". Fica-se debatendo artigos e mais artigos sobre os "limites" do adolescente, sobre a desobediência à "autoridade" do professor e a ausência de "disciplina" dos jovens modernos, mas nada se fala sobre: 1) o salário ridículo e pífio que desmotiva qualquer professor; 2) as condições precárias das escolas, incapazes de atrair os alunos para atividades; 3) as condições sociais precárias desses "alunos-problema"; 4) a grade curricular ridícula e cheia de conteúdos desnecessários, baseada na memorização burra e inútil; e 5) na insuficiência de uma educação baseada no castigo, tradição, disciplina e autoridade nos nossos tempos contemporâneos.
O mesmo com o "Crack, nem pensar". É a coisa mais burra que já li na vida. Crack é algo que devemos pensar, sim. E muito. Pois, se o crack é algo que retira completamente a dignidade do humano, devemos pensar como as pessoas chegam lá. O ser humano abaixo da linha da dignidade - a exemplo do "muçulmano" do campo de concentração - é produto de um experimento biopolítico que estamos construindo. Não é por acaso que são as fatias verdadeiramente a-bandonadas que sofrem do crack em maior intensidade. São, por exemplo, os moradores de rua, paupérrimos, miseráveis, famintos, com frio. Usam a droga para sobreviver como os zumbis dos campos.
Da forma como é construída, a campanha é tão imbecil que é capaz de ter efeito reverso. Adota um enfoque moralista e uma posição besta. Faz parecer que o crack pode ser usado pelo senhor de bigodes e gravata que lê a sua ZH todos os dias de manhã, enquanto passa a manteiga no pão e toma café preto. Relatos de crack na classe média ou na elite são puro pânico moral. Existem. Mas são bastante reduzidos. O crack - que é uma droga-lixo --, é algo bem mais típico da população marginal, da vida nua. O "senhor" lê: "Crack, nem pensar". Aí ele pensa: "ah, bom, fiz a minha parte, não uso crack". E pronto, não? Como é que temos tanta burrice entre nós? Que tal ele pensar sobre como a nossa biopolítica que "desperdiça vidas" (expressão ótima de Bauman) é capaz de produzir esse resultado final, esses zumbis ambulantes que vemos transitar pelas sinaleiras? E o quanto ele - cidadão de bem - contribui para tudo isso sublinhando o contraste que o separa da vida nua e o faz se arrastar na sua mediocridade pequeno-burguesa?
Um jornal infame para um povo infame. Pelo menos o Juremir Machado da Silva - não por acaso expurgado do jornaleco - nos salva todos os dias (uma pena a política pré-histórica do Correio de fechar sua edição na net).

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quarta-feira, maio 20, 2009

POR QUE A EDUCAÇÃO NÃO FUNCIONA? (PARTE II)

VOLTO AO ASSUNTO. Você se lembra qual é a diferença entre angiospermas e gimnospermas? Sabe realizar um cálculo estequiométrico? Você saberia dizer a fórmula da quantidade de movimento? E algo da história contemporânea do Brasil, saberia me contar? Você conhece Dalton Trevisan? E a diferença entre a metafísica de Platão e a de Aristóteles, saberia me dizer qual é?
Bem, me parece que o terceiro problema, aliado aos baixos salários dos professores e à ética ultrapassada da sala de aula, é a opção curricular propriamente dita. O MEC parece querer mudar algo nesse sentido, mas aparentemente está atirando para todos os lados. A formação que tive no ensino médio foi tristemente técnica. Quer dizer: um punhado de informações sem conexões entre si, decoradas para preencher uma prova de marcar X. Os militares e a elite não têm interesse em uma formação humanista crítica e acabaram fortalecendo um ensino excessivamente apegado a detalhes, baseado na memorização e fortemente disciplinar. É verdade que a memorização, por exemplo, é necessária sob alguns aspectos. E também que o vestibular é melhor que nada; pelo menos faz alguma seleção. Porém é possível aprimorar infinitamente o sistema. Da forma como está colocado, é apenas uma máquina de fazer dinheiro para cursinhos pré-vestibular que formam autômatos repetindo fórmulas imbecis em forma de uma decoreba inútil. E pior: elitiza ao extremo as universidades. O que um garoto pobre da periferia, cheio de problemas em casa, sofrendo pressão racista e privação do bens que (na nossa sociedade de consumo) importam, pode querer com essa decoreba inútil? De que lhe adianta um saber completamente desconectado da vida? Ele vai abandonar o colégio e partir para outros meios. A elitilização vem da impossibilidade de pagar o cursinho idiota e, na outra mão, da inutilidade geral do conhecimento adquirido.
O MEC propôs algumas medidas interessantes, embora pareçam mais ou menos casuístas. Em todo caso, melhor que nada. Reintroduziu sociologia e filosofia no ensino médio, dividiu a grade curricular em quatro grandes áreas e propôs o ENEM como forma de seleção no lugar do vestibular. São medidas que, se bem implementadas, podem dar resultados bons. Se o professor de filosofia for igualzinho ao de química, no entanto, não vai adiantar muito. Se os professores não souberem conectar os saberes com a vida, a educação não pega. É preciso seduzir o aluno para o conteúdo. Da forma como estava, as escolas de ensino crítico acabam punidas porque seus alunos não sabem qual é o x correto na prova. A Veja adorava. Para ela (e para José Serra), o problema do ensino no Brasil é que o professor perde muito tempo falando de Paulo Freire e pouco fala de matemática e português. Isso não é só bobagem; é mentira. O que eles gostariam é de formar autômatos incapazes de questionar as estruturas sociais injustas que existem no Brasil e prontos para disputar a única coisa que importa: dinheiro.
Por fim: é preciso que o ensino, além de transdisciplinar, tenha o foco também no corpo. É preciso valorizar a educação física a partir de esportes, jogos, lazer. A escola deve ser também um espaço para catarse e sublimação dos adolescentes. Eles têm muita energia para descarregar e o esporte são espaço certo para isso. Parcerias com clubes de futebol e outros esportes poderiam ser frutíferas. Esportes e artes são possibilidades abertas para o Brasil. Por que, por exemplo, não mostrar a história da música para os pobres da favela que adoram hip hop? Talvez eles descubram coisas que nunca imaginaram -- por exemplo, que o rock é de origem negra. Que o jazz é algo sem limites. Pergunte a um aluno metido a "fodão" se ele consegue imitar o Jimmi Hendrix em "Purple Haze".
Mas temos que parar de falar em "inclusão social". Precisamos falar simplesmente de justiça. "Inclusão social" parece uma benevolência, um favor que "a sociedade" presta. Nada disso é verdade. Eles estão capturados fora, portanto "incluídos na sua exclusão", de forma que o que estamos fazendo é simplesmente aquilo que deve ser feito. Para usar a expressão de Bauman, precisamos parar de "desperdiçar vidas". Esse papo de inclusão é de um pietismo assustador. E nossos pobres não querem pietismo. Eles querem justiça. Eles são nietzschianos, muitas vezes ressentidos. Não suportam a compaixão e todo esse papo cristão. Precisamos também ser nietzschianos com eles. Sair da posição do "careta" ou do "carola" e falar a sua língua, entender seu mundo e oferecer aquilo que eles não vislumbram e a escola só mata: esperança.

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terça-feira, maio 19, 2009

POR QUE A EDUCAÇÃO NÃO FUNCIONA?

ESTÁ EM VOGA A DISCUSSÃO sobre a "educação". Até nosso jornaleco neocon anda publicando artigos sobre o assunto. Todos se lamentam pelo "desrespeito à autoridade do professor", pela "ausência de limites" e pelas notas baixas dos alunos. Dito de outra forma: por que a educação não funciona?
A primeira observação, emergencial e inarredável, é o fato de que o professor ganha muito mal no Brasil. O professor de ensino médio, então, é simplesmente humilhado. Ganhando cerca de mil reais, é impossível adquirir livros, ir ao cinema, vestir-se adequadamente, cuidar do seu físico. Supondo que o professor resolva estudar Heidegger: "Ser e Tempo" custa mais de R$ 100,00, ou seja, 1/10 do seu salário por apenas um livro. Se quiser comprar "Os conceitos fundamentais da metafísica - Mundo - Finitude - Solidão", tem que pagar mais R$ 50,00. E como esse professor vai poder ir ao cinema para comentar com alunos exemplos que os interessem? Na realidade, estamos formando professores sem cultura. E não por preguiça, mas por insuficiência de recursos. Um professor, para agüentar o "aluno-problema", tem que estar de bem consigo mesmo, auto-estima boa. Como alguém que é humilhado todos os meses pelo seu salário pode estar assim?
Nada é mais hipócrita que o um jornal que vive defendendo "enxugamento da máquina pública" ou fazendo editoriais contra o "Estado gastador" querer entender o porquê de a educação não funcionar. Quem se dispõe a ganhar tão pouco como ganham os professores podendo ganhar dez vezes mais em outra profissão? Sem aumento salarial da categoria dos professores, não existe como a coisa melhorar. O professor precisa ter dinheiro para livros, cinema, música, teatro, cafezinho, academia, alimentação boa, roupas bonitas. Sem isso, ele é desmoralizado pela sociedade e, por vezes, pelos alunos.
Segundo ponto: a ética da educação é anacrônica. Não vivemos mais no mundo da "ordem e disciplina". A palmatória e o castigo -- que muitos leitores gaúchos adorariam que fossem retomados -- não valem mais. E morreram mingüando, por insuficiência própria. É um impulso moderno não aceitar a "autoridade" do professor. O professor se impõe pelo argumento, não pela autoridade. Se ele não sabe mostrar para o aluno que ele não sabe a matéria, é melhor desistir do magistério. Mas, antes, é preciso que melhoremos as condições, para ver quem não tem condições e quem simplesmente não tem recursos. Por isso esse discurso de gestão é burro e tenta colocar a culpa pela falha no ensino no que não é a raiz do problema. O problema é professor humilhado, não o professor ineficiente. Discurso tecnocrático para governantes cínicos, como José Serra e Yeda Crusius.
O ensino precisa de outra ética. Não mais a "ética da autoridade e da disciplina", tal como colocam nossos conservadores burros gaúchos (e mais que em qualquer outro Estado do país). Mas uma ética da alteridade. Comecemos por ouvir os alunos, esses que ficam de fora da "ordem do discurso" acerca das escolas. O que eles querem? O que eles pensam? Será que se iniciarmos o diálogo não teremos resultados melhores? Quanta arbitrariedade e violência não está acobertada sob o rótulo de autoridade? E se, por vezes, são violentos, por que não iniciar um diálogo e, com isso, suspender essa violência (que é protopalavra)? Esses que estão na escola e são violentos são normalmente aqueles que estão na franja mais marginal da sociedade, passam por uma série de dificuldades. Dá para recortar e dizer só que eles são malvados? Ou botar um policial em cada sala de aula para prendê-los? O professor precisa ensinar a respeitar a alteridade, não a autoridade. Inclusive a alteridade própria do professor.
Enquanto a matéria continuar reproduzir o discurso de violência da autoridade e disciplina, estamos fadados ao fracasso. O professor vai continuar perdendo -- sempre -- para o rock'n'roll e o hip hop. O professor será o "careta". Enquanto ele não entender como se articula o "mundo" adolescente, ele não conseguirá falar com o adolescente. E continuaremos com o fracasso da educação.
(Volto outra hora para continuar.)

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sexta-feira, novembro 14, 2008

VAZIO, CHEIO OU CHEIO DE VAZIO?

UMA DAS COISAS BOAS de ter amigos inteligentes é poder discutir sem que as partes saiam abaladas da discussão. Aliás, qualquer academia séria deveria funcionar dessa forma: debates são não apenas normais, mas absolutamente fundamentais para que as questões cresçam em volume e complexidade. Infelizmente, apenas engatinhamos nessa tradição.
"Sopa de Moscas" e "Cartas de um Louco" são blogs vizinhos e travam uma discussão fundamental. Não creio que tenha a resposta final - e a discussão instiga justamente por ser de difícil solução - acerca da interpretação de contemporaneidade.
Vivemos a "era do vazio"? Autores distintos como Maffesoli e Bauman parecem concordar a respeito, mas as conclusões que tiram disso são opostas. Enquanto o primeiro "festeja", o segundo vê tudo com restrições e críticas.
Hoje em dia, estou mais próximo de Bauman. Autores como Agamben, Adorno e Levinas têm me tornado bastante crítico em relação à subjetividade contemporânea. Creio que, para usar expressão benjaminiana que Agamben se apropria, vivemos a era da "destruição da experiência". A experiência só pode ser experiência da diferença, senão é mera repetição. Viver significa experimentar nesse sentido; quer dizer, se deixar traumatizar pela alteridade. Um trauma que, no entanto, não é negativo: é essa experiência que nos constitui, que nos permite ir adiante, que nos "alimenta".
O homem pós-moderno parece não "experimentar" mais. Narcisismo e espetáculo, como constata Joel Birman, são ingredientes que impossibilitam a experiência da alteridade. O espetáculo transforma a representação em vida, fazendo-a hiper-real. Como o conto de Borges que Baudrillard certa vez cita: um dia um rei quis fazer um mapa tão perfeito que acabou cobrindo todo território. Ficamos apenas com o mapa. Admiramos as mulheres das revistas, mas sabemos que são "fabricadas" por photoshop. Então as moças deixam de comer para imitar o espetáculo (photoshop), até fazê-lo hiper-real. Olhamos Big Brother e acreditamos que aquilo é a "vida real", ainda que saibamos que não é. E, no fim das contas, nos esforçamos para transformar a realidade em BBB. A representação se realizou e tomou o lugar da vida.
De outra parte, vidros escuros e carros blindados fazem o narciso ignorar qualquer coisa que se interponha ao próprio gozo, perdendo a sensibilidade com a vida real. Vive em um mundo infantil em que a superfície especular do olhar do Outro é a única coisa que preenche seu "vazio" interior. Como uma estátua de vidro, absolutamente transparente e plenamente vazia, "cheia de vazio", vivendo exclusivamente em exibir-se como espetáculo. Se o gozo é interrompido, uma droguinha (lícita ou ilícita) resolve.
Tudo isso se funde na idéia de "performance": o sujeito se torna superfície do espetáculo a partir de metas narcisistas. É a figura do burocrata contemporâneo, incapaz de sentir a alteridade dos colegas de trabalho, flexível e new age, cheio de "motivação" e sugado por um binômio de trabalho/consumo. Ou ainda da "celebridade", uma espécie de exibição do nosso supremo vazio em carne-e-osso, que não tem nada a oferecer a não ser o "espetáculo", é um "nada" ambulante e festejado.
Perdemos a capacidade de "brincar", como afirma Agamben, pois além de narcisos espetaculares não sabemos sequer usar nossos brinquedos (carros, celulares, etc.), uma vez que o mundo do espetáculo é o mundo do "museu", onde as coisas são exibidas enquanto plataformas de "sucesso" e não mais usadas como brinquedos. A figura mais representativa do nosso tempo é o "turista", que, como bem ironiza o filme "A Praia" (do ótimo de Danny Boyle), quer ir viajar mas ficar no exato mesmo lugar, observando a cidade que visita como museu (incapaz da "experiência" de viajar).
Hoje abro o jornal é vejo duas notícias: 89% dos professores da rede escolar de SP foram agredidos por alunos, três jovens estupram menina, filmam e colocam na Internet. Como não enxergar os efeitos deletérios desse vazio? Estão "repletos de vazio", e ele produz algo. Uma cultura narcisista que não convive com a diferença e que impõe o gozo como imperativo. Uma cultura incapaz de dizer o que é o bem, como vem advertindo Jurandir Freire Costa. Ninguém deseja dar razão aos neocons da "tradição" e voltar atrás na história, mas sim estabelecer novos parâmetros. O vazio vem produzindo seus efeitos. É um vazio que "enche". Mas a sua substância é tão fria, transparente e frágil quanto o vidro. Pode existir algo mais gélido, frágil e perigoso que uma cidade de vidro?

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segunda-feira, outubro 20, 2008

LIBERALISMO E LIBERALISMO

UMA COISA QUE SEMPRE me incomoda, e quem é leitor desse blog há tempos sabe disso, é a banalização da palavra "neoliberalismo". Usada como jargão-clichê por uma esquerda anacrônica, de um lado, e como "fim da história", por outro, é isso que está desabando diante dos nossos olhos na crise econômica. Mas o que incomoda, sobretudo, é ver gente como Reinaldo Azevedo dizendo que é "um liberal" (e pior, gente do campo oposto concordando). Cruz credo.
As sociedades norte-americana e européia (especialmente a Grã-Bretanha, aqui) haviam consolidado, desde o New Deal e o Plano Marshall, um Estado "grande", apelidado de Welfare nos EUA ou simplesmente de "Bem-Estar Social". Foi a partir da crise econômica do Choque do Petróleo (1973) que as instituições desse "grande Estado" começaram a ser derrubadas.
Aqui já vemos o primeiro equívoco: ao contrário do que o pittbull neocon defende, o neoliberalismo não surgiu em choque com o comunismo, mas sim com o welfarismo, ou seja, a social-democracia. Seu inimigo não era Karl Marx, e sim Keynes ou até Dewey. A idéia era de que os altos impostos que custeavam os serviços públicos deveriam ser devolvidos para a sociedade e o livre-mercado daria conta dos problemas. Por isso, "neoliberalismo".
Não gosto do termo. Liberalismo, para mim, tem o sentido norte-americano: é a corrente de gente perspicaz como Richard Rorty, John Rawls, Ronald Dworkin e Arthur Danto, ou dos movimentos de direitos civis de mulheres, negros e homossexuais. Seu parentesco mais próximo é com a social-democracia de Habermas, na Europa, ou até de Laclau ou Chantal Mouffe. É uma corrente inspirada em gente como Dewey e Tocqueville. O liberal é aquele pragmático meio "blasé", meio irônico, um tipo meio voltairiano que vê com bons olhos reformas sociais e aposta radicalmente na democracia contra todo autoritarismo. Reinaldo Azevedo certamente não se enquadra no rótulo. Ele e sua revista estão muito próximos -- isso sim -- do neoconservadorismo de George W. Bush, Ronald Reagan e Charles Murray.
Por essa razão não gosto de "neoliberalismo" -- ofende os bons liberais. Gostaria de dizer apenas "neoconservadorismo" para falar dessa tendência hegemônica que combina liberdade de mercado (na realidade, apenas uma forma de tornar os ricos mais ricos) e conservadorismo moral. Mas acho que não dá. Isso porque, além desse emaranhado "neocon" que Sarah Palin tão bem representa (e que se contrapõe a Maio de 68), essa política veio combinada com outros elementos. Vamos ver alguns.
A "ideologia do sucesso" (*) é um deles. Trata-se de um emaranhado que combina discursos de administração ("motivação", "competição", "gestão" etc.), filosofia new age (orientalismo e busca da "paz interior" como amortecimento), consumismo (como meta) e narcisismo (figura da "performance") e produz pessoas como aquelas personagens mulheres de filmes como "Era da Inocência" e "Beleza Americana", ou homens como o pai da menina em "Pequena Miss Sunshine" ou o "Psicopata Americano". Figuras que poderiam remeter a gente como Donald Trump ou Roberto Justus e livros como "O Sucesso é ser Feliz" ou qualquer um do Lair Ribeiro. Essa ideologia tem papel fundamental na contemporaneidade, ocupando largo espaço social, e seu impacto se dá sobretudo sobre o meio empresarial e todo seu emaranhado administrativo.
De outro lado, como complemento, temos a "ideologia atuarial", que está na outra ponta - a analítica (aqui, pouco a ver com filosofia analítica). Trata-se de uma metodologia que reduz tudo a cálculos econômicos de estatística, ignorando os problemas humanos e culturais que subjazem às questões. As pessoas são reduzidas a indivíduos calculadores e custo/benefício e o restante é reduzido a "subjetivismo" e sai da "melhor gestão". Essa área atuarial vai da educação à criminologia, passando por direito, sociologia e outras disciplinas.
Ambas áreas convergem para um fenômeno: a burocratização da sociedade. A prevalência discursiva da administração ("choque de gestão") e da economia (contra o Estado "gastador") indicam uma sociedade "administrada", como anteviam os frankfurtianos e, de certa forma, se confirma a previsão. Essa burocratização, que acompanha o neoconservadorismo, é o cerne do "neoliberalismo", que muito pouco tem de parecido com o liberalismo de Beccaria, Verri, Tocqueville e Dewey (no âmbito jurídico, chamaríamos esse último de "garantismo"). A corrente "atuarial" pretende ser "neutra" e vê com muitas ressalvas qualquer interferência de "políticos" (dela vem o chamado "choque de gestão"). É apenas mais uma máscara para deixar os ricos mais ricos (a partir, sobretudo, da especulação econômica) e "gerir" os problemas sociais por meio de fórmulas que ignoram (propositalmente) a respectiva complexidade.
Felizmente, aquilo que víamos como "globalização" (a absoluta flexibilidade do mercados financeiros) parece estar entrando em outro patamar (de regulação) e poderemos domesticar o capitalismo selvagem que vivemos (coisa que gente como Bauman e Habermas alertavam há anos). Antigamente, chamávamos esse espaço de "política"...

(*) Ideologia, aqui, tem o sentido fraco de "conjunto de idéias".

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quinta-feira, outubro 09, 2008

POBRES EDUCADORES

A ASCENSÃO DO NEOLIBERALISMO na década de 80 nos países anglo-saxônicos do Atlântico Norte acabou criando mostrengos anexos à teologia do mercado que certamente levariam Adorno e outros frankfurtianos a dizer: "eu disse, eis a 'sociedade administrada'!". Um desses monstrengos é o que chamaria de atuarialismo, que poderia ser definido como a redução de problemas complexos a estatísticas e cálculos custo/benefício. Esse bicho estendeu-se da Criminologia à Educação, passando por várias áreas em entre elas.
Antes de tudo, deixo claro que nada tenho contra levantamentos estatísticos nem técnicas de gestão. Acho, aliás, que falta isso em muitas áreas -- sem dúvida a segurança pública é a mais urgente. O problema é que esse raciocínio "atuarial" acaba engolindo todo problema e lhe dando uma solução "cosmética", que não penetra na sua complexidade, muitas vezes transformando a realidade em um delírio (metafísico) que reduz tudo a números e percentuais.
Quando leio que a Secretaria da Educação de São Paulo - claramente identificada com a "educação atuarial" que orienta também o "especialista" da Veja sobre o tema - começa a contabilizar os 10 minutos de intervalo como tempo para correção de provas e elaboração de aulas, sinceramente, me dá vontade de chutar as paredes. Não é possível que o tempo de o professor fazer xixi, comer algo, beber água ou café e descansar a voz (como bem alertou o Cristovam Buarque) seja computado dessa forma. É ridículo. É o que acontece quando entregamos para burocratas a "gestão" da educação. Eles só olham para os números e a "gestão" melhor do tempo, sem se dar conta das necessidades humanas de cada um. Tudo isso é ridículo demais.
A prioridade hoje em dia deve ser investir no professor, no educador. O professor precisa começar a ter auto-estima alta, a ser importante socialmente, a ser reconhecido. Para isso, precisa, para abrirmos a discussão, ganhar mais. Não tem meio termo, consertos provisórios, sem mudar isso. Com os salários atuais os profissionais mais qualificados deslocam-se para áreas mais bem remuneradas e ficam apenas os mais fracos e os engajados na educação. É preciso tornar a profissão atrativa. É preciso dar o recado aos educadores: vocês são importantes para nós. Isso só se faz dando boas condições de trabalho: aumento de salário, valorização das horas-extras (preparação de aulas, correção de provas), ambiente adequado. Não adianta os bombardear com cursos de "motivação"; a motivação só ocorre se houver um suporte adequado, senão é dopping. O professor precisa de dinheiro para ir ao cinema, ao teatro, comprar livros e revistas e vestir-se dignamente.
A elite brasileira hipócrita aposta tudo na educação no discurso, criticando programas de transferência de renda, mas não move uma palha para consertar o desastre que vivemos na remuneração dos professores. Há até os burocratas da educação atuarial querendo mostrar que a questão nada tem a ver com salário. Para eles, a educação nada tem a ver com pessoas, e sim com números. Pura "alucinação", porém geralmente mal-intencionada. O primeiro passo para não mais usarmos a expressão "pobres educadores" é não deixar os educadores pobres.
Prosseguirei sobre o tema da educação (meu trabalho, por sinal) em outros posts.

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