Mox in the Sky with Diamonds

sexta-feira, dezembro 14, 2007

A LIMPEZA INSUPORTÁVEL E OS SEM-PALAVRA


A definição do Outro como parasita utiliza os medos profundamente arraigados, a repulsa e a aversão a serviço do extermínio. Mas também, e de modo mais seminal, ela coloca o Outro a uma enorme distância mental na qual os direitos morais não são mais visíveis. Tendo sido despojado de sua humanidade, e redefinido como verme, o Outro não é mais objeto de avaliação moral.

Zygmunt Bauman, em "Modernidade e Ambivalência".

A partir do texto que li no novo blog da Natália, que vale a pena ler não só pelos seus argumentos, mas também pelo fato de a autora conhecer o problema de perto, surgiu-me a ocasião de resumir, por aqui, um dos capítulos da minha dissertação e até avançar um pouco.

Natália fala das operações de "limpeza" que estão sendo realizadas pela Prefeitura de Porto Alegre, comandada pelo Sr. "Greve-dos-Acontecimentos" Vento Negro, retirando os moradores de rua de locais visíveis às pessoas de classe média e da elite. A estratégia é simplesmente fechar esses espaços, expulsando as pessoas que estão morando por ali para lugar-nenhum. Os cidadãos "ordeiros" estão de acordo.

Também nessa reportagem o relator da CPI declara que os presos são tratados como "lixo humano". E nessa reportagem o jornalista utiliza a expressão "limpam" os morros para dizer as providências que foram tomadas para a visita do Presidente. Vejam um trecho:

Desde o início da semana, militares e policiais do Grupamento de Policiamento em Áreas Especiais (Gpae) estão ocupando as duas comunidades, consideradas como altamente perigosas e dominadas pela facção criminosa Comando Vermelho, comandada da prisão pelo traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar. Além do reconhecimento da área, o Exército vasculha os morros e faz uma "limpeza", prendendo suspeitos e verificando locais que podem trazer riscos ao presidente, segundo informaram ao UOL alguns oficiais.

Interessa-me exatamente explorar essa relação entre "ordem" e "limpeza", palavras que vêm constantemente juntas com o vocabulário midiático que trata do assunto e falam muito sobre o que se está fazendo.

A antropólogo britânica Mary Douglas foi quem tratou, com método estruturalista, o assunto com inigualável maestria no seu livro "Pureza e Perigo" [há uma edição portuguesa, traduzida pelas edições 70].

Douglas conclui, realizando pesquisas etnográficas, que nossa idéia de "pureza" está intimamente ligada à idéia de "ordem". Nossa idéia do puro e do impuro, contrariamente ao que costumamos imaginar, está muito menos ligada ao nojo da coisa em si do que à posição que essa coisa ocupa dentro das nossas classificações. O exemplo do sociólogo Zygmunt Bauman, que segue a idéia de Douglas, é o que deixa mais claro: um omelete sobre o prato pode nos parece a coisa mais apetitosa do mundo, mas certamente dentro da nossa gaveta de meias não será. Tampouco o sapato bem lustrado será agradável sobre a mesa, embora no nosso armário possa parecer intocável. É dizer: nossa idéia do puro e do impuro está intimamente ligada à nossa visão de ordem do mundo. A impureza é sempre uma transgressão dessa ordem.

Douglas avança mais um pouco e nos mostra como essa transgressão da ordem, que se manifesta na impureza, para nós é vista como um perigo, algo que representa uma ameaça. A impureza de um indiano de casta inferior que transgride seu lugar representa, sempre, um perigo -- que exige os devidos rituais "salvadores" ou sua exclusão pura.

Pois bem, em que isso se relaciona com nosso problema em Porto Alegre?

As palavras "limpeza" e "ordem" não vêm por acaso. O morador de rua, fora da nossa ordem habitual, está fora-do-lugar, é alguém que deve ser retirado de onde está, de um local visível, porque é visto como "impureza". Como impureza, exige limpeza. O "cidadão de bem" não quer se confrontar com nada que atrapalhe seu mundo ordenado. Quando vê o morador de rua, que escancara um mundo confuso, complexo e injusto, prefere eliminá-lo como impureza. É por isso que se trata de uma "limpeza".

A similitude de palavra com fatos aberrantes como as "limpeza" dos judeus no III Reich e a "limpeza étnica" ocorrida na ex-Yugoslávia não é pura coincidência. Na raiz, o problema é exatamente o mesmo e identifica um problema ético gravíssimo.

Aquele que é diferente ofende a ordem. É impuro. E, por isso, deve ser eliminado o quanto antes. Ou, mais suavemente, deve ser ao menos tirado da visão. No fundo, é um Outro que se torna insuportável a mim. Fico preso na minha bolha de serenidade -- meu carro de vidros fechados que transita pela Ypiranga ignorando os pedintes em cada sinaleira -- e quero que nada se interponha na minha ordem. O Outro que me incomoda deve ser eliminado.

É aqui que entro no segundo aspecto importante do tema. Esse "Outro" que nos é insuportável simplesmente não tem direito à palavra. Perceberam que nas reportagens que envolvem criminosos ou moradores de rua, ao contrário do normal, a parte envolvida jamais é ouvida? Simplesmente surrupiamos o direito à palavra destes que consideramos ser menos que pessoas. É chocante encarar a própria realidade, não? Por que ao contrário de políticos, empresários, profissionais liberais, donas-de-casa, empregadas domésticas, etc., essas pessoas simplesmente não são ouvidas? É porque, no fundo, a "sociedade", a boazinha sociedade que posa de vítima todos os dias nos jornais, considera-os menos que humanos.

Só que, apesar disso, eles falam. E, quando falam, normalmente não é com palavras.

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segunda-feira, setembro 29, 2008

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA (O FILME)



TALVEZ AS EXPERIÊNCIAS de ler um livro e ver um filme, sejam distintas, ou semelhantes. Não sei bem decidir se uma coisa exclui a outra, ou se pelo menos a prejudica veementemente. Recentemente, "Desejo e Reparação" foi inferior a "Reparação" (McEwan); mais antigamente, nenhuma das filmagens de "Relações Perigosas", do libertino Laclos, chegou à estatura do livro (cito "Ligações Perigosas", com Gleen Close, "Valmont" e a adaptação "Segundas Intenções"). Lembro-me apenas de "O Processo", de Orson Welles, como uma obra que sintetizou bem o original, mesmo sem alcançar a grandeza de Kafka, por óbvio.
Moral da história: livros são melhores que filmes. Salvo, talvez, os filmes do Kubrick, mas Kubrick é Kubrick, e pronto.
O filme "Ensaio sobre a Cegueira" perde muito para o livro "Ensaio sobre a Cegueira".
A começar pela perda maior, embora previsível: a bidimensionalidade do livro, que exibe uma primeira camada fantástica (literalmente) e instigante, mas também uma segunda camada mais filosófica e reflexiva, esta se perdendo em grande nível na película. Ficamos apenas com os fatos brutos.
Mas essa perda era previsível: o que não esperava era um certo pudor que atravessa o filme. Com todo respeito ao Meirelles (de quem admiro "Jardineiro Fiel" e "Cidade de Deus"), é tudo muito tímido. Se algo nos mostra Saramago, é que, uma vez cegos, pisaríamos nas nossas fezes, viveríamos entre odores insuportáveis, nos depararíamos com a experiência de enterrar sem ver, seríamos sufocados por uma brancura nauseante. Tudo isso se perde no filme: é tudo muito sutil e até limpo, a sujeira e a podridão são discretas demais (a "limpeza" do Manicômio é paradigmática a esse respeito), a cegueira confunde-se com a opacidade (interessante), mas perde-se a angústia e o desespero. A película é demasiado centrada na "mulher do médico", que vê, e pouco dá do ângulo dos cegos. Além disso, é desapontante a atuação rasa e pouco envolvente dos atores, que não despertam a empatia ou o nojo do espectador.
Nesse sentido, nenhum personagem é mais insosso que o de Gael Garcia Bernal. Ator "da moda" no cinema hollywoodiano-cult, Gael não consegue passar nada, é completamente vazio no personagem que deveria despertar asco. Mesmo que não despertasse isso, mesmo que se quisesse fugir do maniqueísmo, alguma coisa deveria despertar.
Fernando Meirelles e Walter Salles são os dois diretores mais bem-sucedidos do cinema brasileiro atual. Temo, no entanto, por uma contaminação excessivamente hollywoodiana que tiraria a densidade dos seus filmes, adaptando-os ao cinema da pipoca. É uma opção, mas, a meu ver, uma opção lastimável. "Linha de Passe", filme que apesar de tudo é ótimo, já tem um pouco disso, não pela recusa da violência extrema que, a meu ver, é mérito no filme; mas por certas vezes hesitar demais, criar "climas" decisivos, enfim, truncar a vida que percorre o filme em forma de espetáculo para a platéia. "Ensaio sobre a Cegueira" logra menos sucesso: apesar de relativamente fiel ao livro, perde muito da sua densidade pelo vazio dos personagens, a ausência de bidimensionalidade e excessivas concessões para um livro que não poderia ter adaptação que não fosse de causar mal-estar.
Em suma: na realidade, o único diretor que acertaria a mão em "Ensaio sobre a Cegueira" seria Lars von Trier.

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quarta-feira, abril 16, 2008

PARA LER JUNTO

Para ler junto com isso, que eu escrevia há quatro meses atrás.

16/04/2008 - 10h04
Nove morrem em ação do Bope; coronel diz que PM do Rio é "o melhor inseticida social"
Em operação classificada por coronel da Polícia Militar como "inseticida social", nove supostos traficantes foram mortos ontem durante incursão do Bope (Batalhão de Operações Especiais) na Vila Cruzeiro, na Penha (zona norte). Quatorze homens foram presos e seis ficaram feridos no confronto.
A operação com 180 homens foi comandada pelo Bope, que manteve parte do efetivo na favela.
"Amanhã [hoje] o pau na vagabundagem continua", disse o comandante de policiamento da Capital, coronel Marcus Jardim. "A PM é o melhor inseticida contra a dengue. Conhece aquele produto, [inseticida] SBP? Tem o SBPM. Não fica
mosquito nenhum em pé. A PM é o melhor inseticida social", disse, rindo.
Um dos objetivos da operação, segundo a PM, era destruir barricadas feitas pelo tráfico. O 16º Batalhão da PM (Olaria), responsável pelo patrulhamento da área, teria recebido queixas de moradores que encontraram dificuldades para levar familiares a hospitais para tratar de doenças como a dengue.
"O objetivo era desobstruir esse acesso principalmente em razão da dengue. As pessoas estão com dificuldade para procurar ajuda no Hospital Getúlio Vargas e na tenda de hidratação", disse o comandante-geral da PM, coronel Gilson Pitta.
A polícia tinha ainda como objetivo cumprir "cerca de" 15 mandados de prisão e localizar pontos de venda de drogas. O Comando Vermelho comanda as bocas de fumo na região.
O secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, afirmou que os nove mortos na operação não se renderam e reagiram à ação da PM.
"Quem quiser se render --e deve se render-- é preso. Aqueles que resistiram de maneira injusta à atuação da PM, aconteceu o que aconteceu [foram mortos]", disse.
Foram apreendidos na Vila Cruzeiro uma metralhadora, cinco pistolas, três fuzis, uma submetralhadora e cinco granadas, além de drogas.
A operação começou por volta das 9h com cem homens do Bope com rostos pintados de preto.
Segundo a polícia, foram retiradas barricadas em cinco ruas. Oito escolas foram fechadas durante a troca de tiros.
Quatorze homens foram presos no depósito de um supermercado na região. Entre eles está um homem identificado pela polícia apenas como Chininha. Segundo agentes, ele seria o responsável pela morte do policial do Bope Wilson Santana, em maio do ano passado.

É incrível que esse sadismo nazista do BOPE possa ser gritado em praça pública, haja vista o atual respaldo social [rectius: da classe média e elite brasileiras] que ganhou a partir do discurso do Tropa de Elite.

PS: É óbvio que quem não se rende e atira na Polícia pode sofrer a mesma reação. Isso é legítima defesa. Outra coisa é o que se pode deduzir do discurso, que indica mais prontamente práticas próximas da "limpeza étnica" que vem se dando no Brasil e pouco se fala sobre o tema. Jamais um BOPE da vida declararia que executou por executar. Mas não é difícil ver que isso ocorre com facilidade na prática ["bota na conta do Papa"].

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quarta-feira, fevereiro 04, 2009

ISRAEL É NAZISTA?

NÃO, é a resposta imediata e que já escancaro desde o início para não deixar dúvidas. Não creio que seja possível comparar os atos de Israel às atrocidades do nazismo, a menos que passemos a comparar tudo com o nazismo - aí tudo bem [inclusive, por exemplo, com a situação que passam os habitantes dos nossos morros brasileiros, que acabam vitimados pelo extermínio policial independente de estarem ligados a redes de delitos. Nesse caso, nós (classe média, elite), seríamos nazistas].
A acusação de que Israel deflagra campos de concentração, que pretende a erradicação dos palestinos, usa as mesmas técnicas nazistas e promove um genocídio me parece simplesmente falsa. Basta distanciar-se um pouco para verificar que os fatos não são exatamente assim.
O nazismo foi uma ideologia complexa que, entre outras perversidades, defendia o extermínio de uma "raça" (judia), ou melhor, das "raças inferiores" (incluídos, por exemplo, ciganos). Além disso, organizou uma "máquina administrativa", como bem descreve Hannah Arendt no clássico Eichmann em Jerusalém, para dar conta da "solução final". Acabou com cerca de 6 milhões de judeus. O ato, portanto, era gratuito, uma verdadeira "limpeza" que não representava qualquer acréscimo em termos de guerra.
A situação não me parece idêntica ao que ocorre em Israel. Acusar Israel de nazismo pode ser uma estratégia hiperbólica de sensibilização - perante a qual eu não nutro antipatia, ante o imperativo ético de suspender a violência aos palestinos - porém não pode ser levada a sério de ponto de vista racional. O que Israel pode ser acusado é de nacionalismo extremado, isso eu concordo - mas convenhamos que nem todo nacionalismo é nazismo, embora este seja o extremo do extremo do nacionalismo. Equiparar ambos pela raiz pode ser uma estratégia de argumentação ética hiperbólica - até um dever moral -, mas racionalmente insuficiente. Como o que mais falta no conflito Israel/Palestina é razão, ponderação e negociação, não creio que seja a melhor estratégia.
Minha preocupação com o antissemitismo ainda extremamente disseminado persiste. É como se os antissemitas gozassem da situação, afirmando: "viu, eu disse que os judeus não prestam!". Muito da solidariedade com o povo palestino é, na realidade, racismo com os judeus, pois o "solidário" não tem o mesmo olhar generoso para o favelado ou qualquer "Outro" [especialmente se leva o rótulo de "terrorista"].
Também me indigno pela guerra que, na realidade, é um massacre aos palestinos promovido por Israel. Bombas de fósforo branco são expedientes hediondos, grotescos, nojentos. Tão grotescos quanto atos de guerra promovidos pela França, Inglaterra ou EUA [os EUA eram nazistas por usar Napalm no Vietnã?]. Mas isso não tem conexão com o nazismo. O nazismo promoveu - sem qualquer finalidade de guerra - o extermínio de uma população com uma finalidade genocida. Israel promove atos de guerra covardes, desproporcionais, absolutamente injustos e que devem cessar imediatamente [para os que contestam a idéia de "proporcionalidade" na guerra, recomendo revisarem o conceito jurídico de legítima defesa e verificarem a exigência de "moderação", sob pena de o agente responder pelo excesso]. Os foguetes do Hamas soam como uma piada perante tal poderio militar, porém é de se convir que, à medida que o Hamas declara guerra à Israel e usa o armamento disponível, desencaixa a idéia de genocídio. Os judeus jamais declararam guerra à Alemanha ou aos "arianos".
Muito do conflito Israel/Palestina se explica pelo ressentimento de ambas as partes. De Israel em relação ao Ocidente e às Nações Unidas que, durante a II Guerra Mundial, deixou-os morrerem como "ovelhas". Para eles, Ocidente e Nações Unidas nunca se preocuparam com judeus, e continuam não se preocupando. Os palestinos, por sua vez, por uma ocupação forçada, massacres permanentes e uma história de sucessivos regimes de dominação promovidos pelo Ocidente, formando um eixo islâmico-fundamentalista que já bebe o sangue do ressentimento.
Nossa sorte dependerá do fato de que os fundamentalistas judeus [que não é a "democracia laica" que a imprensa conservadora apregoa] e fundamentalistas islâmicos não são a maioria. Detêm poder, no momento. Mas não são os únicos. Há forças que pensam de forma distinta em ambos os lados. O sucesso da negociação dependerá disso.
Não há dúvida que, nas circunstâncias, os palestinos têm quase toda razão. Quase toda porque a erradição de Israel, proposta do Hamas, não é mais legítima. Os isralenses já estão naquele território e agora a questão é partir para a negociação dos territórios. Nem sempre a justiça pode ser trazida para um seu ponto ideal. Às vezes é preciso juntar os cacos e pensar para o futuro, restaurando aquilo que é possível restaurar. Essa justiça é uma justiça que se opõe ao ressentimento e à vingança; a justiça restaurativa é uma justiça que se volta para a felicidade de todos, aceitada certa tragicidade inerente à história humana de violência.


PS: No mais, remeto ao artigo de Vladimir Safatle, certamente o melhor que já li sobre o tema. Leitura obrigatória.

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quinta-feira, setembro 13, 2007

O FRACASSO DO PT
Ontem mesmo escrevia sobre injustiças da mídia em relação ao Governo Lula. Mas a absolvição de Renan Calheiros me obriga a escrever em tom crítico hoje.
Se o Governo do PT no comando da Presidência tem logrado um êxito inesperado na economia [combinando estabilidade e crescimento] e obtém bons resultados na área social [para o que, afinal, foi eleito], existe um local onde o que vemos é um fracasso retumbante dos petistas.
A formação de uma "esfera pública" no Brasil, que muitos nutriam como sonho acreditando na pureza do PT [como eu, até o mensalão], ficou para trás. O PT, definitivamente, fracassou nesse aspecto. Aliás, nem sei se um dia quis a formação dessa esfera.
Uma esfera pública pressuporia, no mínimo, a formação de grupos políticos republicanos, voltados para o interesse público, e com profundo debate democrático. Experiências na democracia participativa -- como fizera o PT em Porto Alegre -- me faziam acreditar nesse sonho. O PT poderia sinalizar novos tempos na política brasileira, com isolamento de velhas forças oligárquicas e "limpeza" geral das forças políticas corruptas.
No entanto, venceu o lado protocomunista do PT. A burocracia partidária, que era alvo dos discursos fascistas de alguns anti-petistas, acabou de fato se tornando a força preponderante em um partido que reunía possibilidades múltiplas -- entre elas, a de unir minorias e criar alternativas não-marxistas de esquerda -- e, com isso, o projeto de formação de uma esfera pública democrática e republicana acabou ficando em segundo plano. Preferiu-se a coligação com oligarquias que estavam prontas a ser demolidas e partidos fisiológicos.
Se isso estava claro no mensalão -- quando ficou claro que não havia limites éticos para a manutenção do projeto político petista no Governo [à semelhança do que, anos antes, havia feito o PSDB na emenda da reeleição] -- a absolvição de Renan Calheiros deixa mais uma vez claro que a higidez republicana dos petistas acabou sendo delegada a segundo plano em prol dos interesses políticos.
Se o PSDB, aparentemente uma vertente mais "intelectual" da política brasileira, já havia frustrado esse sonho, o PT -- o último dos refúgios da esquerda -- representa definitivamente o enterro do sistema político brasileiro na lama do corporativismo, da corrupção e da ausência de republicanismo.
Definitivamente, podemos ter boas políticas no Brasil [e nisso, ratificando o que escrevi no post abaixo, acredito que o PT tenha as melhores], mas ainda não temos uma esfera pública, e sim um amontoado de grupos formados por oligarquias e burocracias partidárias interessadas em se perpetuar no poder.
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A CONFUSÃO ENTRE O JURÍDICO E O POLÍTICO
Já falei por aqui sobre a responsabilidade política: o povo é o único dono do poder na democracia, como diz a Constituição. Portanto, todo aquele que está no centro da política está em posição precária. É apenas um representante, ou seja, deve estar ocupando seu cargo enquanto o eleitorado lhe der legitimidade. Não existe "direito adquirido" ou "presunção de inocência" no mandato político, que não é a mesma coisa, por exemplo, que a assunção de um cargo público [por exemplo, no caso daquele Promotor de Justiça].
A responsabilidade jurídica é de outro nível. Para ela, devem existir todas as garantias constitucionais, especialmente o direito à defesa, a presunção de inocência, ou, em síntese, o devido processo legal. Para que Renan Calheiros seja condenado, é necessário que a acusação disponha de provas substanciais e convença o Magistrado, em confronto com a defesa de Renan, que ele é efetivamente culpado.
Na questão política, no entanto, a legitimidade de Renan já se esgotou há muito. Se ele porventura for inocente, poderá ser recompensado com novo mandato futuramente, como ocorreu com Ibsen Pinheiro, por exemplo, além de poder obter ressarcimento pelos danos morais sofridos.
O que não é possível é um cadáver político dirigir o Senado, sem qualquer dose de legitimidade. A cadeira de Presidente do Senado parecer ter sido "adquirida", como se, ao terminar a eleição, Renan tivesse o direito de exercer o poder -- que é unicamente do povo -- transferido para si, inclusive contra o povo.
Os políticos utilizam -- com muita astúcia -- essa indistinção. E a imprensa, como não sabe manejar com os conceitos, troca um pelo outro.
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Trilha sonora do post: Blonde Redhead, "Heroin".

segunda-feira, janeiro 08, 2007

BOA (OU MÁ...) NOTÍCIA

COM AS FÉRIAS do Mestrado e sem grandes compromissos, o número de posts deve subir bastante. Já tenho alguns na cabeça. Então, aos que se interessarem, as postagens serão mais freqüentes por aqui.


SAIDÊRA DE 2006 - alguns discos não-resenhados por aqui...

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Asobi Seksu, "Citrus"

O disco de estréia da banda sino-americana não vacila em enveredar pelo shoegaze, no ínicio bastante mais próximo de Chapterhouse e Ride do que My Bloody Valentine e Slowdive, ou seja, com um som menos etéreo e mais veloz, embora ainda se coloquem as paredes de guitarra e muita distorção ["Strawberries", "New Years", "Thursday"]. Há bons momentos de psicodelia no final ["Red Sea", a principal, alterna bons e maus lances]. "Pink Cloud Tracing Paper", por exemplo, faz um mix entre shoegaze e Garbage. O vocal japa faz estranhar um pouco [ "Strings"], mas o instrumental é bem bacana.
Ficaram ofuscados no meu conceito, contudo, pelo Silversun Pickups.

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TV on the Radio, "Return to the cookie montain"

Com certeza, foi um dos discos que mais fiz força para "entender". Ouvi milhares de vezes, depois das críticas elogiosas vindas de todos os cantos. O som é esquisito pra burro, uma mistura sem limites, com forte excentricidade. Vocais souls meio distorcidos, palhetadas de guitarras com alta dose de distorção, ritmo quebrado e jazzistico, elementos eletrônicos múltiplos, assovios e o inferno. Enfim, não há dúvidas que se trata de um trabalho original. Entretanto, da minha parte, fico só com "Wolf like me".

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The Decemberists, "The Crane Wife"

Demorei bastante para gostar de parte do disco, devido à implicância com a longa "The Island, come and see", uma espécie de mix de folk com rock progressivo, que lembrou bastante Jethro Tull. Vamos falar sério, Jethro Tull em 2006? Devido às altas cotações, prestei mais atenção e vi que, apesar dessa faixa chata, o disco conta com bons temas onde o folk e o indie pop se encontram: "Valencia" e "Yankee Bayonet", esta com participação de Laura Veirs [uma das preferidas da Casa], são boas pedidas.

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Destroyer, "Destroyer's Rubies"

Outro disco de cruzamento entre folk e indie pop. Trata-se de projeto do baixista da banda The New Pornographers, que também contou com o lançamento do disco [que não gostei] de Neko Case esse ano e AC Newman ano passado. Disco excêntrico pacas, lo-fi, sem muita preocupação com "limpeza" na produção ou simetria absoluta, deixando especialmente voz e violão fluírem em canções agradáveis, das quais destacaria "European Oils".

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I love you but I've chosen darkness, "Fear is on your side"

Ótimo álbum, um dos melhores do ano, de mais uma banda que se crava no revival pós-punk, bebendo em Joy Division e outras bandas, na linha de Interpol, She wants revenge e Editors. Creio que a resenha do Gordurama mata a questão: o disco, apesar de beber nas mesmas fontes, não tem o apelo dançante dessas bandas, antes prefere apostar em variações climáticas de bom gosto. Confiram a fantástica "If it was me", fechamento genial do disco, e "According to plan", o single.

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Cat Power, "The Greatest"

Um álbum diferente da Cat Power. Significativa transmutação em relação ao seu folk minimalista e depressivo de "Your are Free" (2003). Aqui, ela avança por outros terrenos da música norte-americana, especialmente o country, o gospel, o soul e o blues. O resultado é, como era de se esperar, um trabalho de significativa elegância, no qual os temas são bem articulados e alguns apetitosos. Prefiro, ainda, entretanto, o penúltimo álbum, com sua verve depressiva corta-pulsos.

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Joanna Newson, "Ys"

Um dos discos mais elogiados do ano, praticamente aclamado. Joanna Newson contou com a produção de alguns nomes consolidados, dentre eles Jim o'Rourke, que trabalhou com Sonic Youth e Wilco, e Steve Albini, o produtor das pauladas sonoras como "In Utero" (Nirvana) e "Surfer Rosa" (Pixies). A voz é de uma Björk mais infantilizada, correm histórias fantásticas ao longo dos temas e o destaque é a harpa de Joanna. Entretanto, apesar da excentricidade e desapego, o disco não me cativou. Há momentos em que parece denso demais, cansativo.

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The Hold Steady, "Boys and Girls from America"

Outro desses discos elogiados que não desceu bem. Na realidade, aqui as coisas são bem mais simples: The Hold Steady é rock clássico, com forte acento em Bruce Springsteen e hard rock, sem qualquer preocupação de soar distinto disso. Um disco honesto, desses para ouvir entre homens e com muita cerveja, mas que, por não apreciar o estilo, não me convenceu. De minha parte, gostei mais de "Sam's town", do Killers, que investe em filão parecido, mas com elementos mais interessantes.

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Albert Hammond Jr., "Yours to keep"

Albert Hammond Jr. é guitarrista do The Strokes, uma banda que este blogueiro aprecia solenemente. Mas, por lá, as cantigas são assinadas por Julian Casablancas. O disco aqui inicialmente não surpreende: a mesma levada strokeana é condutora de um início alegre, empolgante, dançante e ensolarado. O que surpreende no álbum, na realidade, são temas dispersos que fazem lembrar outras referências, especialmente os Beatles e Beach Boys, com forte acento de "pop perfeito". Uma boa estréia solo.

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Sparklehorse, "Dreamt for the light years in the belly of a montain"

Vocal sussurrado, violões folk-eletrificados, estilo intimista -- música para fones de ouvido ou momentos de sossego. O álbum é construído lentamente, passando de música a música de forma gradual, sutil, feito com elegância climática que conjuga elementos diversos e investe exatamente nisso -- climatização. Uma combinação, como dizem por aí, de Beach Boys com Flaming Lips. Em "Ghost in the sky" temos, pela primeira vez, uma pequena virada mais estridente, com os violões tomando posições mais agressiva e um vocal pop menos sussurrante e mais chicletudo. "It's not so hard" é, sem dúvida, o tema mais pesado -- ambientado nos terrenos do lo-fi e do rock alternativo em geral. No restante, a tristeza pungente, melancolia invernal, passa esse precioso trabalho do ano passado.


Trilha sonora do post: ... And you will know us by the trail of dead, "Stand in silence".

domingo, novembro 12, 2006

Surreal

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Do site UOL: Manifestantes da Fundação "Nós Somos o Povo" se reúnem fantasiados como personagem do filme "V de Vingança" durante protesto diante do Departamento de Justiça de Washington, EUA.


Os Reis da Distorção

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Nenhuma banda, por mais que se esforce, pode tirar o título de "Rei da Distorção" do Sonic Youth. As camadas de guitarras que se esparramam em efeitos distendidos e agressivos são marca registrada dessa importante banda que lança seus discos corrosivos desde a década de 80.
Ratter Ripped é mais um disco certeiro desse ano. Com uma sonoridade bem mais limpa e sintética que seu penúltimo álbum, Sonic Nurse, o Sonic Youth mandou um disco de músicas precisas, certeiras, que combinam a distorção típica do som da banda com uma certa dose de suavidade, ainda que não dê para chamar isso de "pop". "Reena" e "Incinerate" já vão avisando, desde o início, que o disco está povoado de uma certa limpeza em relação ao noise típico dos caras, ainda que mantenha a crueza tradicional.
Kim Gordon, a bad girl do rock, canta mais suavemente que o normal, por exemplo em "The Neutral". Mas as belíssimas e estridentes guitarras típicas do Sonic Youth também se apresentam, e da forma [costumeiramente] brilhante: "Jams run free" e "Turquoise Boy" [a melhor do álbum] lançam uma energia psicodélica/experimental absurdamente boa.
Um álbum de grande maturidade, que deve integrar as listas de melhores do ano com muita probabilidade.
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Fonte Inesgotável

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Trilha sonora do post: Sonic Youth, "Lights out".

quinta-feira, dezembro 25, 2008


SOMEPILLS ELEGE

OS DEZ MELHORES DISCOS DO ANO



2008 talvez tenha sido um dos anos dessa década em que mais bandas tradicionais movimentaram o mundo do rock. Gente que não lançava discos há anos - Portishead e Verve - e outras bandas que sempre chamam atenção - Oasis, Coldplay, Primal Scream. Além deles, bandas de vulto dos 2000 como Kings of Leon, Killers, TV on the Radio. Não foi tão difícil escolher dez. Talvez eu tivesse uns 15 melhores. O importante é que o rock continua sendo combustível de vida. Dias e noites dedicadas a ouvir esse gênero delicioso de transgressão, profanação e ousadia. Eis os dez melhores:


[para quem nunca teve contato com as bandas, coloquei vídeos do youtube, mas o site não permite a incorporação de alguns - então o negócio é clicar no link]:




10. BON IVER, "FOR EMMA, FOREVER AGO"
O melhor disco folk do ano representa o estilo - que é tão caro a este escriba - nesse topten. Algumas outras bandas beliscaram a posição - MGMT, Eagles of Death Metal [além de outros caros do mesmo estilo: Neva Dinova e Connor Oberst] -, mas Bon Iver ficou para ocupar a cadeira voz/violão. Com melodias preciosas e nada óbvias, além de uma voz comovente de Justin Vernon [que não é a única], a banda lembra o muito o Grizzly Bear numa espécie de folk denso, que congrega psicodelia e suavidade, experimentalismo e emoção. As canções parecem dançar entre o claro e o escuro com habilidade ímpar. Um disco poderoso na sua sinceridade e autenticidade.



"For Emma" (clip não-oficial).




9. COLDPLAY, "VIVA LA VIDA OR DEATH AND ALL HIS FRIENDS"
O Coldplay me surpreendeu com esse álbum. Era uma banda da qual esperava trabalhos cada vez piores. Depois dos ótimos "Parachutes" (2000) e "A Rush of Blood to the Head" (2002), a banda perdeu o prumo em "X&Y" (2005), enredando-se por um novelo pop que parecia se encaminhar a um ponto de pastiche do U2, pronto a ocupar a cadeira de nº 1 do mundo pop/rock após a aposentadoria de Bono Vox. No entanto, Chris Martin e cia capricharam nesse álbum, produzido por Brian Eno, e cheio de novidades melódicas, tendo guitarras mais presentes e se desfocando de um certo deslumbramento rockstar. O álbum perdeu um pouco da força que teve quando ouvi no primeiro mês, mas merece homenagens estando entre os dez. Canções como "Strawberry swing", "Death and all his friends", "42" e "Lost!" valem a pena.



"Viva la vida" (não é das melhores do álbum).




8. KINGS OF LEON, "ONLY BY THE NIGHT"
A gurizada dos Kings of Leon cada vez mais se assenhora do próprio som, deixando de lado o kit que os levou ao sucesso - The Strokes + tempero sulista - e desenhando, aos poucos, uma sonoridade própria, bastante marcada pelos vocais, porém rica em combinações e cheia de letras divertidas. "17", "Use somebody", "Sex on fire" e "Be somebody" são canções de deixar qualquer roqueiro pilhado, pronto para envergar o copo de cerveja ou whisky que espera o chamado. Não bastasse isso, os Kings ainda têm vocação nata para as pistas e soam que é um doce para a mulherada. Banda que tende a crescer mais e, hoje, já está entre as mais relevantes dos anos 2000.




Clique aqui para ver o clipe de "Use somebody" (vale a pena).




7. MERCURY REV, "SNOWFLAKE MIDNIGHT"
O Mercury Rev, como já escrevi certa vez, é a banda que nos convida a viajar nas costas dos anjos. Cada álbum é uma passagem para um ambiente onírico, psicodélico, totalmente desviado do nosso dia-a-dia. É como deixar-se entrar no etéreo, numa espécie de universo paralelo delirante cheio de portas que levam a ambientes cada vez mais diferentes, num jogo infinito de passagens e espelhos. "Snowflake midnight" trabalha mais com eletrônica que os outros álbuns e desenha um quadro do início ao fim (muito próximo do conceitual), convidando-nos a embarcar na viagem. O ápice é "The Dream of a Girl as a Flower", mas "Senses on Fire" é também um momento vibrante demais, no qual nos sentimos pulando sobre as labaredas que incendeiam a canção.


"Butterflys wing".






6. OASIS, "DIG OUT YOUR SOUL"
O Oasis lançou um disco abaixo das suas possibilidades, mas as possibilidades do Oasis, para um fã como eu, são altíssimas, o que os coloca acima de quase todos os demais. "Dig out your soul" é espécie de "Magical Mistery Tour" dos Gallaghers. Parece, no entanto, aquém da inspiração que nos brindou, há bem pouco tempo, um discaço do nível de "Don't believe the truth" (2005). A favor desse álbum, o fato de finalmente a banda ter abandonado as baladas a la "Be here now" (1997). Além disso, rocks como "The Shock of Lightning", "Bag it up" e "The Nature of Reality" são a alegria para qualquer pessoa que goste de cerveja e guitarras. O Oasis continua ocupando o lugar natural de uma das maiores - acima de todos os hypes - e se mostra seguro na sua trajetória já consolidada.






5. SPIRITUALIZED, "SONGS IN A&E"
Álbum que demorei a perceber a qualidade, é um verdadeiro catálogo com agradáveis hinos de "dream pop". Depois de quase morrer e passar um tempo respirando em aparelhos [isso explica a faixa "Death take you fiddle"], o Jason Pierce retoma com qualidade impressionante seus temas preferidos - Deus, alma, amor, drogas, morte, sofrimento, lisergia. Voltando à qualidade do clássico "Ladies and Gentlemen we're floating on the space" (1997), o Spiritualized traz aquilo que faz melhor: melodias em crescendo, backing vocals gospels espetaculares e poderosos refrões. Não há como escapar da violência desse álbum de 18 faixas (boas) depois de escutar "Soul on Fire". O universo do Spiritualized, é, como faz pensar seu nome, algo espacial, transcendente, compartilhado, mas ao mesmo tempo os temas terrenos trazem a banda para o nosso chão carnal.

Clique aqui para ver "Soul on fire" (recomendadíssimo, clipe belíssimo).




4. THE SECRET MACHINES, "THE SECRET MACHINES"
A ousadia de gravar um álbum de rock progressivo depois de todo achincalhamento que passou o estilo é algo que merece aplausos. Claro, se o projeto é bem sucedido. Colar o Yes ou Pink Floyd, simplesmente, é apenas falta de criatividade. Os Secret Machines certamente não são isso. São, ao contrário, o produto de uma fusão entre a grandiosidade e ambição do rock progressivo com a velocidade, limpeza e agressividade do punk. Espécie de "síntese" de ambos, mantidos na sua integralidade em uma nova combinação, como na dialética hegeliana. Ouvi-los é como sentir uma manada de elefantes passar diante dos olhos, tal é o peso de cada pegada que pode consistir em um riff de guitarra, uma nota no sintetizador ou furiosos golpes de bateria. O som dos Secret Machines é o único literalmente de arena, feito não para agradar massas, mas para povoar cada centímetro do espaço com sua potência, em um nível quase ensurdecedor (seria se não fosse melódico). Atualizando o Pink Floyd para os nossos dias, a incompreendida banda de Garza e Curtis nos brinda mais um trabalho brilhante.


"Atomic Heels" (a mais acessível do disco).





3. THE KILLERS, "DAY & AGE"
Essa banda maldita sempre gera o mesmo fluxo: expectativa baixa dos novos trabalhos, primeira audição com estranheza, influências bizarras. No entanto, esse fluxo é seguido por: grude de alguma melodia, empolgação incontrolável, cantoria infindável dos refrões, paixão de uma por uma das canções do álbum. É verdade que, como os outros trabalhos, "Day and Age" tem seus momentos fracos (dois, exatamente, "Joy Ride" e "Goodnight, travel well", nos quais a influência do Queen se exacerba). No entanto, no restante o disco é uma usina de singles poderosos. Com o som mais limpo de certos exageros de "Sam's town" (2006), aqui o Killers está na medida certa para estourar todas as pistas de rock sem deixar de fascinar pela pegada das melodias. Brandon Flowers canta cada vez melhor e, apesar das letras risíveis, nos faz cantalorar cada refrão com uma energia estúpida. "Losing touch" abre o disco e já mostra as garras; "Spaceman", "Neon Tiger" e "Dustland fairytale" fazem qualquer um bater o pé no chão e se empolgar. Outra banda que se assenhorou da posição de das mais relevantes da década presente.


"Human" (legalzinha, mas tb não está entre as melhores do álbum).





2. DEERHUNTER, "MICROCASTLE"
Bradford Cox era apenas um compositor alternativo para mim até bem pouco tempo. "Cryptograms" (2007), aplaudido por toda crítica musical, era para mim apenas um álbum ousado, mas um pouco perdido nos tiros, meio sem foco - coisa que crítico adora, para discordar da massa que quer tudo bem mastigadinho [esses críticos chatos que acham o Animal Colective a melhor banda do mundo]. Até ouvir "Microcastle". O disco bateu imediatamente. Perfeito na sinergia entre a melodia agradável, doce, contagiante, de um lado, e o experimentalismo, a lisergia, a viagem aos pólos distantes da existência, de outro. "Microcastle", usando todos os recursos possíveis, é a perfeita síntese de como pode o pop experimental virar acessível. É pop, mas ousado; é contagiante, mas complexo. As músicas parecem pedaços de delírios que vão se construindo peça-a-peça, como um quebra-cabeças que mostra a imagem mais improvável e linda ao final da montagem. Gostaria de dar um passeio pelas nuvens? Bradford Cox apresenta um álbum em que as canções - inicialmente viajantes e inseguras - vão ganhando corpo e densidade, até fazerem o ouvinte cantar e sentir-se empolgado em terreno surpreendente. Se um dia Brian Eno afirmou que "Soon", do My Bloody Valentine, abrira novos caminhos para o pop, o álbum do Deerhunter ouviu bem o conselho e por ali fez sua trilha.
Eis, meus amigos, o futuro do pop.



"Microcastle" (clip não oficial).







1. PORTISHEAD, "THIRD"
Tinha tudo para dar errado. TEN-FUCKIN'-YEARS sem gravar uma porra de disco. Pressão nas alturas, pois "Dummy" (1994) e "Portishead" (1997) eram obras-primas. O eterno dilema da banda que volta: toca novamente como antes, soando saudosista, ou arrisca um fiasco, se reinventando? Resposta: somos grandes demais para fazermos mais um disco de "trip hop" básico. Só vale a pena se for pra ser diferente. O que temos aqui é um processo de filtragem de toda evolução do rock desde o próprio Portishead - abocanhando desde Radiohead até Klaxons - e elaboração de um disco PERFEITO, em que todo álbum tem sua razão de ser e tudo fica fechado na sua abertura. Paradoxal? Talvez, mas ouça o álbum e entenda. Tudo parece no exato lugar - que é exatamente fora-do-lugar. Não há qualquer uniformidade, o disco é quebradiço e arisco, usualmente foge entre os dedos, vai-e-vem, dói o ouvido e depois amacia, é a elaboração que mostra o que significa uma banda ser perfeccionista ao extremo, caso indiscutível do Portishead. Alvejado em "Machine Gun", estressado em "We carry on", inseguro e angustiado em "Silence", sereno e perigoso em "Hunter", depressivo em "Magic Doors", nostálgico, desequilibrado e apaixonado em "Plastic". Sem falar da melhor canção do ano - a emocionante "The Rip" - para a qual dispenso adjetivos (lembra o disco solo da Beth Gibbons). Enfim, é oscilando como nossa própria existência, revezando nos humores, mergulhando nas profundidades do nosso tenso e indomável Eu - assim o Portishead constrói "Third". A cada momento um novo elemento pode entrar e quebrar toda harmonia antes cuidadosamente estabelecida. A disciplina é algo severamente esculachado e destruído. Aqui tudo é caos, desordem, mas dançando com a ordem, pronta a se deixar domesticar para que a mordida seja mais forte e precisa. Como uma espécie de louco que disfarça estar são - e faz melhor que os próprios sãos - apenas para poder cravar uma faca na garganta do supervisor. "Third" está em um lugar entre as nuvens do Céu e as chamas do inferno - esse entre-lugar onde tudo é dito e sentido na sua plena intensidade.



Pelo amor de Deus, clique aqui ("The Rip") e aqui ("Machine Gun").

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