Mox in the Sky with Diamonds

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

E, logo depois que o Rei tomou todo poder para si e violou a confiança dos que haviam lhe entregado a posição, surgiram os lacaios a suavizar e justificar o hediondo golpe.

Hoje, as papagaiadas dos lacaios viraram cânone.

Marcadores: , , , ,

segunda-feira, agosto 24, 2009

ICEBERGS
Ele então nadou, nadou, nadou, e no entanto o mar se tornava cada vez mais infinito à sua frente. Apesar disso, percorrera já muitos quilômetros com um esforço inumano. Sob seus pés, uma quantidade gigantesca de metros o impediam de tocar o solo; e, no entanto, a intuição de que estava a enxergar – ou pelo menos imaginar – uma pequenina chance de salvação o motivava a nadar com mais ênfase, seguir nadando até encontrar uma saída. Ao seu redor, uma imensa escuridão fria, indiferente, completamente alheia à sua esperança.

Foi quando percebeu: o mar apenas esperava, pacientemente, a sua morte.

Marcadores:

terça-feira, julho 21, 2009

O que não vai.

Conversa inocente. Papo pra lá, papo pra cá. Despretensão. Falar sobre o nada: conversa em grau zero. Como se estivéssemos zapeando, de um lado pro outro. De CDs virgens ao mau tempo. Apenas para passar o tempo, foram condenados a estar juntos por um tempo. O destino empurrou-os. Ela acende um cigarro; ele acende outro. Tudo certo. Uma cerveja? Por que não? Afinal, estavam ali para não fazer nada mesmo. Ele só estava ali porque era preguiçoso, não foi com os outros que vão lá fazer exercícios. Vamos? Vamos.
Uma lata, duas, três; dois cigarros, quatro, cinco. O tempo vai passando. Conversa ainda e sempre em grau zero: como sair disso? Impossível. E nem desejável. A intimidade é algo que se conquista, não se adquire imediatamente. Sabiam disso? É provável. Algo coisa passa entre eles; nada que possa ser tido como algo mais que uma simpatia, talvez uma cumplicidade estivesse por ali, nascendo, irrompendo, saindo do casulo. Nada que pudesse ser tido como grande afeto. Apenas uma brincadeira, uma certa correspondência, a capacidade de sentir que o outro está ali, e não em outro lugar. Pura coincidência, risadas, papo furado, cigarros, cerveja. Nada além disso. Estavam ali apenas esperando. O que mesmo? Ah, sim. Eles.
Estranhamente, a coisa fluiu. Quando eles voltaram, não sentiu um alívio do suposto desconforto de estar ali conversando em grau zero. Na realidade, sentiu um desprazer, certa insatisfação com as circunstâncias. Gostaria de perguntar já naquele momento exato: “não tens uma cópia exata de ti mesma para mim?”, mas ainda não tinha intimidade suficiente. E, no entanto, algo estranho já se dava por ali.
Ela também gostou dele. Não do mesmo jeito, talvez. Gostou do papo, da companhia, da inteligência. Sentiu que ele tinha algo diferente, era um pouco mais interessante que a média. Só que profundidade não é tudo; estava com o outro e era bom. Não tinha vontade de nada. Nada mais que uma boa conversa, vontade de conversar de novo, poder falar sobre alguma coisa mais específica.
Mais tarde, conversaram de novo. Dessa vez, foi sobre alguma coisa. Rock, mulheres, política, alguma coisa do gênero. O assunto era delicioso, fluía delícia. Opiniões convergentes; divergentes do geral. Afinal, tem coisa mais tediosa que o comum? Não dá para agüentar esses monótonos.
E, dali em diante, já estavam amigos.

Sentiu imediatamente a violência de uma sensação que não o abandonaria jamais. Daquele dia em diante, todos os dias seriam de incerteza. Pois o trágico é que, certamente, as coisas não se encaminhariam na única direção em que a possível e perene dúvida poderia se extinguir. Ao contrário: elas caminhavam perfeitamente em sentido oposto. Perdeu-se. Perdeu-se em si mesmo naquele momento. Sentiu-se guiado por forças que o atravessavam e não pertenciam ao seu domínio. Tudo cruel demais e para o resto da vida.
Ela apenas desviou o olhar. É possível que tenha sentido um mal-estar. Possível, mas apenas possível. Pode também ter simplesmente permanecido na sua ingenuidade de navalha, contribuindo para o processo inevitável de dilaceração que jamais, jamais cicatriza. Daquele dia em diante, teria que carregar consigo não apenas uma cicatriz – cicatrizes são marcas inofensivas que registram a passagem do tempo na carne –; carregaria, isso sim, uma ferida aberta que poderia alternar sangramentos virulentos com outros mais sutis, mas jamais seria fechada. Feridas não são cicatrizes, não são meras rasguras esteticamente desagradáveis; são golpes que permanentemente provocam a dor. A ferida é a experiência da dor que não se deixa extinguir.
Como? Em tão inocente momento? Seria ele apenas mais um ingênuo? Não existe essa tal de ferida. Tudo não passa de poesia. Na vida, é inofensivo. A sabedoria popular talvez ensine que o tempo a tudo leva, que as coisas simplesmente passam, que a vida segue. Pode ser. Mas quem se apaixonou sabe que jamais cicatriza. As coisas são para vida inteira. “Quando se esquece um amor?” “Nunca” – é a única resposta verdadeira. A verdade é que podemos não viver escravos da dúvida, mas certamente em algum lugar ela irá para sempre se esconder – retornar, golpear, recordar.
Certamente éramos mais jovens. Mas não são por acaso as coisas mais antigas aquelas que nos são mais importantes? Maldição da memória, que nos trucida por uma dilaceração visceral, embora intermitente. A paixão é um veneno que se estabelece e, uma vez lá, inevitavelmente corrói. Inevitavelmente.

Marcadores:

terça-feira, junho 09, 2009

O COCÔ

UM DIA, DÊNIS levantou e sentiu um ligeiro desconforto. Nunca tinha sentido antes, mas de alguma forma aquela sensação começou a tomar cada vez mais corpo. Era algo vinculado ao olfato, uma espécie de atrito, algo que embrulhava seu estômago. Dênis não entendia o que estava acontecendo, mas, após tomar seu café da manhã e começar a se vestir para o trabalho, já não agüentava mais. Começou a caminhar pelo apartamento e ver de onde saía a razão do seu desconforto. Sem muita demora, descobriu que vinha do sagrado cocô. Como? Logo daquilo que era mais importante na sua casa? Sim, aquela coisa marrom e enrugada estava lhe causando seu mal-estar. Sem palavras para definir o que se passava, resolveu chamar de fedor. Aquilo fedia muito. Aliás, ele nunca tinha percebido ter olfato -- achava que o único sentido relevante era mesmo a visão. Só com o atrito do fedor ele conseguiu perceber que seu nariz servia para algo além de respirar.
Quando chegou ao trabalho, Dênis percebeu o mesmo fedor. Enquanto os colegas trabalhavam calma e mecanicamente, Dênis sentia cada vez maior repugnância pelo cocô, chegando quase a ter ânsia de vômito. Os colegas, nem aí. Foi então que ele não agüentou e chamou José para conversar.
- José, já percebeste que sai do cocô algo que causa mal-estar?
- Quê?, perguntou José. Estás dizendo que sai algo de ruim do SAGRADO cocô? Impossível.
- Pois é, nunca tinha percebido. Mas hoje acordei com um mal-estar... Nomeei esse negócio que senti de fedor.
- Fedor? FE-DOR? Hahahahaa, que palavra engraçada.
Foi então que José também sentiu o mal-estar que Dênis mencionava. Ao vislumbrar o sagrado cocô que iluminava a repartição, aquela coisa rugosa, longa, em forma de ferradura, cor um pouco amarelada, José também percebeu que aquilo fedia.

A notícia se alastrou em velocidade acachapante. Em poucos dias, milhares de pessoas sentiam mais e mais o fedor do sagrado cocô. Começaram a jogar fora seus objetos sagrados, normalmente postos no centro da sala, porque não agüentavam mais o fedor. A mídia ecoava notícias sobre a catástrofe do cocô. Especialistas eram chamados a discutir. Técnicos afirmavam com certeza científica que a presença do cocô não faz nenhum mal à saúde.
Não tardou a surgir a militância do cocô. Os conservadores afirmavam que o cocô é a base da sociedade e que essa anarquia modernosa arruinaria tudo. Desfilavam carregando pedaços da substância marrom - às vezes derretida entre os dedos -- e contavam com o apoio da polícia para reprimir passeatas contra o o cocô. "A bosta é a base da nossa união", afirmavam esses conservadores. Livrar-se dela é romper com a nossa sagrada tradição.
Os movimentos avolumaram-se. A maioria ainda tinha as fezes em casa -- tinham medo de algum castigo caso se livrassem delas, embora já sentissem o fedor. Libertários reivindicavam uma vida menos fétida (sofisticação de "fedor" que rapidamente surgiu), pugnando pela simples eliminação de todo e qualquer cocô da residência. Os conservadores, por outro lado, afirmavam que sem cocô o homem é indomável, que sempre existiu cocô, que essa libertinagem era absurda. Eram apoiados pela mídia - que desenhava a queda do cocô como catástrofe e decadência - e pelo Estado, que reprimiu todo aquele que se rebelava contra a merda. Diante das profanações que eliminavam o cocô em praça pública e da ofensa à tradição e aos bons costumes que aquilo representava, os radicais começaram a comer cocô. Os anti-cocô não raro vomitavam ao ver seus adversários cobertos de merda pelos lábios, queixo e bochechas.

E assim foi a batalha, até que um burocrata resolveu o problema: em vez de confrontarmos o fedor da merda, deveríamos todos - obrigatoriamente - usar máscaras que nos protegiam do fedor. O cocô continuou no meio da sala, para alegria de todos.

Marcadores:

terça-feira, dezembro 16, 2008

ONDE FOI QUE ERRAMOS?

ELE FICOU OBSERVANDO o belo carro flamante que tomava um pedaço da sua garagem e do qual sequer sabia o nome [não era grande conhecedor de carros]. Preto, grande, imponente, design poderoso, estilo irretocável. Tão novo que nem emplacado estava. Ele pairava ali, enfeitando a fachada da sua casa, chamando atenção do pedestre, brilhando como uma espécie de diamante negro.
Ao lado do carro, uma bárbara magricela, negra, desdentada, queixo saliente, pernas longas e cabelo sujo, vestindo roupas rasgadas e segurando sua flanelinha.
Pôde retroceder no tempo e imaginar o ocupado senhor saindo com sua pasta envergada em couro preto, falando ao celular, ligeiramente desconfortável com o choque térmico entre o confortável ar condicionado e certo abafo do ambiente, pisando seus sapatos escuros sobre os paralelepípedos irregulares da rua. Saído da sua espaçonave vinda de um futuro próximo, o motorista contempla, com o canto dos olhos, aquela bárbara que se aproxima e murmura algo quase inaudível devido à conversa do celular. Simplesmente gesticula em retorno.
Entre a nave do futuro pousada em frente à minha casa e a bárbara desdentada está a raiz de todos os nossos erros.

Marcadores:

quinta-feira, dezembro 11, 2008

FARDADOS

O ESPETÁCULO DANTESCO era aquele conjunto de palhaços fantasiados com uma espécie de rabo no meio do peito, vestindo pesados casados em pleno verão, calçando sapatos duros que machucam o tornozelo, meias finas que não protegem os calos e gel no cabelo (talvez talco no cu, não sei).
Enquanto os idiotas se aplaudiam na plena mediocridade, vangloriando-se por não fazer nada e vomitando por cima das suas barrigas grotescas um palavratório sem qualquer consistência, eu ia sentindo um embrulho no estômago. Palavras soltas corriam no ar e auto-elogios indecentes nos rodeavam, enquanto sorrisos cínicos e puxa-sacos aspiravam o mesmo poder sujo e ridículo que os palhaços ostentavam grotescamente. Suas fantasias não eram criativas e a maquiagem era a própria pele do rosto, que sustentava a máscara da hipocrisia e canalhice.
Um palhaço subiu ao palanque e começou a contar piadas, mas a platéia ria apenas por reflexo condicionado. Como cãezinhos de Pavlov, mimetizando uns aos outros faziam o espetáculo iluminar-se, colorindo a podridão com palmas e tapinhas na bunda (digo: nas costas). Piscadelas de olho, vez que outra, traduziam a certeza que, atrás das cortinas da palhaçada, uma suruba de perversos estava prestes a acontecer.
A coisa apenas aliviou-se quando alguém peidou.

Marcadores:

terça-feira, dezembro 09, 2008

O MAIOR HORROR DO MUNDO

ELE TEVE A MAIS apavorante visão da sua vida, daquelas que nos jogam na mais absoluta condição de surpresa e parecem dissecar o nosso interior: tudo era árido e corrosivo, o estômago remexia e os pêlos do corpo estavam em pé.
O choque de realidade era tão brutal que parecia arremessá-lo a quilômetros e quilômetros de distância, espécie de espasmo do infinito na sua face terrível.
Era um espelho, absolutamente perfeito e sinistro. Um espelho mais profundo do real que permitia olhar a si mesmo da sua forma mais estranha possível. Não era uma imagem reflexa, mas a pura corporalidade que se apresentava à sua frente. Experiência de horror. Seus mais íntimos defeitos, os trejeitos, as palavras desimportantes, aquilo que lhe escapava a cada minuto no diálogo. Encontrar a si mesmo foi o maior pesadelo.
Pois, afinal, o espelho era o olho do outro.

Marcadores:

segunda-feira, novembro 17, 2008

NO RESTAURANTE

Ele gostava de tocar teclado. Trabalhava duro, dia após dia, alimentava bem seus filhos e terça-feira à noite lecionava catequese para pequeninos da sua cidadezinha. Beijava na testa a mulher quando saia todas as manhãs para trabalhar na sua loja de materiais de construção, dizendo “até a noite, mãe!” e levando, logo em seguida, seus filhinhos para o colégio.
Aos domingos, pra relaxar, tocava teclado no restaurante da estrada, quase sempre lotado. Na maioria do tempo, nem precisava pressionar as teclas, uma vez que o som vinha daquelas musiquinhas que ficam na memória do aparelho. Alternava canções para louvar a Deus e agradecer pela vida boa com algumas mais safadinhas, até quem sabe um bom Roberto Carlos, quando queria realmente aprontar.
No final, conversava no microfone com os amigos da cidade, alertando para os perigos que sofrem os jovens de hoje e como é importante a família educar bem seus filhos. Essa juventude que se mete com drogas e velocidade precisa de educação dos pais, de fé em Deus, de pais mais atuantes. Suas duas filhas (tinha dois meninos também), ao final, vestidas com um bonito vestidinho branco com rendas nas pontas, com os cabelos trançados e bochechas ruborizadas dirigiam-se até ele e davam dois beijinhos, recebendo palmas de toda platéia que, enquanto isso, comia suas carnes e massas. Ele até se oferecia para tocar seu teclado de graça em festas de família.
A comunidade aplaudia feliz e todos voltavam para casa mais unidos, prontos para a semana estafante que se seguiria.
Ninguém entendeu porque, naquele dia, ele jogou o teclado no chão e começou a chorar.

Marcadores:

sábado, novembro 15, 2008

O DESAFIO
ELAS SE ENTREOLHARAM e acharam engraçado ele dançando meio avoado, olhando para baixo e para cima e cantalorando o refrão da música. Derramou um pouco de cerveja sobre a camisa e viu, à sua frente, que elas sorriam. Entrou entre as duas e começou a se mexer, olhando para os lados. Ela piscou o olho para a amiga, como que combinando um truque qualquer. Aproximaram-se dele e falaram qualquer coisa -- ele nem ouviu, mas respondeu igual, elas também não ouviram a resposta.
Ficaram próximos. Ele era bom de papo. Duas piadinhas e elas riram. Foram para o bar. Três cervejas, Jack duplo, mais cerveja. Enquanto ele pedia, a piscadela se repetia e uma encenação era combinada.
Uma delas acendeu um cigarro. Depois da primeira tragada, preferiu dizer:
- Então, com quem vai ser?
Ele sorriu. Não gostava da pressa. Era difícil decidir.
- Na real, pode escolher. A única condição é que gostamos de fio-terra.
Ele hesitou. Estão brincando? Não? Como assim? Por quê? "Porque sim", resposta tão desagradável quanto previsível. Não valia a pena, mas também não valia a pena perder uma delas para o resto da noite. Respondeu de forma esperta, com a melhor sacada que poderia ter no momento:
- Topo, mas só se for com as duas juntas.
Elas se olharam. Valia continuar a brincadeira?
- Ficamos as duas contigo, mas contanto que façamos tudo.
Duvidou. Pediu para que elas se dessem um selinho para confirmar. Elas se olharam. Nunca tinham feito coisa do gênero. Foi pela piada. Um selinho rápido e fugaz, inofensivo. Ele delirou. Duvidou novamente. Disse que selinho assim não era nada. Queria ver um beijo. Timidamente, elas se aproximaram e, só pela gozação e para ver até onde ele ia, juntaram as bocas. Não tocaram as línguas. Apenas fingiram. Mas foi estranha a sensação de sentir lábios macios, diferentes do habitual.
Dilema terrível. E agora? Não eram as mais lindas da festa, mas eram duas e bem gostosas. Ficaria tranqüilamente com qualquer das duas. As duas! Mas que desagradável. Teve que desperdiçar.
- Foi mal gurias, mas tô fora.
- Sério?
- Pois é, não curto isso.
- Ok.
Olharam-se vitoriosas. Quando ele saiu, gargalharam. Mas, segundos depois desse instante, tiveram que desviar o olhar uma da outra, sentindo um frio na barriga. Alguma coisa estranha acontecera.

Marcadores: