Mox in the Sky with Diamonds

Sábado, Julho 11, 2009


ALTER EGO, "ANTES DO CÉU"

O ROCK BRASILEIRO não é das preferências da casa. Pouca coisa se salva no imbróglio de irrelevância, pastiche e pouca ousadia na terra brasilis. Salvo um Los Hermanos aqui, um Mutantes lá, as bandas brasileiras oscilam entre um pop insosso e um rock humorístico, incapazes de enfrentar suas inspirações do Norte.
Porém esse definitivamente não é o caso da Alter Ego. Comodismo, pieguice, anacronismo, bunda-molice e bom-mocismo-encomendado-para-o-Faustão são tudo que não se encontra por aqui. Nenhum espaço para esse tipo de concessões: apenas o bom veneno contagiante do velho rock'n'roll. Nada além daquilo que contamina epidemicamente as gerações de jovens desde os anos 50: energia, atitude, vontade de viver intensamente e sem limites a aventura que é a vida. Nenhum medo. Nenhuma mentira. Nenhuma restrição. Apenas tudo como deve ser: vivido até o último suspiro, gritado, cantado, dançado, festejado -- como se saltássemos sobre as fagulhas das chamas do inferno numa festa que vai até o fim da eternidade. Dia de comemorar a hecatombe da vida.
É esse ar de intensidade, sangue borbulhante e energia vital que se sente ao longo de toda obra. As guitarras atravessam a audição como relâmpagos cruzando o céu, rasgando as canções até se transformarem em tempestades povoando todo espaço do horizonte. Da paz celestial até a tempestade que destrói tudo, e disso de volta ao arco-íris da psicodelia que faz relaxar, rir, alucina a existência amarga do dia-a-dia. Ouvir Alter Ego é voltar ao sonho da vida sem hesitação; sem medo, sem receio, mergulhado no abismo do incerto para encontrar lá o que realmente importa -- alheio ao nosso mundo de burocracia, hipocrisia e cinismo. O sonho, de novo, e todo o risco que ele comporta. Boemia, corredores sujos, cerveja, cigarro, barro de banheiro, ressaca, sexo casual, alucinações, viagens, promessas, brigas, esperança, desejo, vinganças -- toda essa vida genuinamente contracultural na risada de quem ainda ousa se divertir.
A melodia é a matéria-prima onde a sonoridade trabalha. Riffs, linhas gordas de baixo, gritos e refrões grudentos vão povoando as canções uma-a-uma, caprichosamente reunidas em um petardo do início ao fim. Dos rockões clássicos como "Muié Lôca", "O Vingador", "Chega" e "Sexo Droga de rock'n'roll" até aventuras mais psicodélicas como "Depois da Tempestade", "Nem tudo vai morrer", "Quando" e "Acomodado", passando por baladas como "Noites Claras" e "Meu lugar" -- a inspiração está no rock'n'roll tradicional: Rolling Stones, Oasis, The Verve, Led Zeppelin, Jet, Kings of Leon. Da energia ao repouso, do repouso à alucinação, da alucinação até mais loucura. "Muié Lôca" e "O Vingador" -- de um blues rock a la Stones até a beira do hard rock -- são poderosas doses de red bull direto no cérebro; "Sexo droga de rock'n'roll" é a própria pulsação da transgressão, brincando com os limites da santíssima trindade que ilumina (ou escurece) a vida dos que compartilham da paixão pela religião de Jimmy Hendrix, Johnny Rotten e Lennon. "Acomodado" é a passagem para o etéreo; "Depois da tempestade", viagem a um mundo distante. "Meu lugar" é espécie de celebração da volta à ingenuidade que convém à vida; "Nem tudo vai morrer", bem, essa eu acho a melhor do álbum, pela inteligência e surpresa que pode gerar aos que prestam atenção na genialidade psicodélica que contém. Enquanto os violões se encontram, vamos embarcando em outra dimensão. "Nada escapa" tem dos melhores versos dos últimos tempos, e que bem explica de onde vêm as coisas: "nada escapa aos olhos de quem enxerga na madrugada".
A Alter Ego não precisa esperar mais nada, já está pronta para tudo. Não apenas porque faz músicas boas, nem porque o disco soa como um oásis no paupérrimo panorama nacional, nem mesmo porque bebe em fontes sacras do rock e não deixa nada a dever. Não precisa esperar porque sabe viver -- e é essa vida pulsante, intensa, rebelde e indomável que se sente ao longo de "Antes do Céu".

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Sexta-feira, Julho 10, 2009

FILHOS: NÃO!

APESAR DOS COMENTÁRIOS DO FABS, que foram bem interessantes (e desconfirmaram algumas das minhas "certezas"), tenho que continuar minhas reflexões sobre a vida pessoal e seus tabus. Um deles é o quanto ainda é desconcertante para as pessoas lidar com quem não quer ter filhos.
ATENÇÃO: eu não tenho NADA contra quem quer ter filhos; ao contrário, é uma coisa bem bonita. Mas nós não estamos no meio de uma hecatombe em que o gênero humano está prestes a desaparecer e eu me nego a engravidar a Regina Casé. O mundo não vai acabar se eu não me reproduzir. As coisas continuarão seguindo seu fluxo totalmente normal, sem qualquer problema de escassez humana. Tem gente pra burro para nascer.
Também não tenho nada contra crianças. Não sou muito bobão e brincalhão, nem acho bebês lindos (normalmente são feios). Tampouco tenho muita paciência. Mas as crianças não precisam de nós, adultos, para se divertir. Disse Benjamin uma vez -- sob o efeito de cânhamo -- que o que mais estranham as crianças nos adultos é sua falta de magia. Então, para elas basta que não as incomodemos. Elas sabem brincar, algo que perdemos quando perdemos nossa inocência. Então que continuem existindo e recheando de magia nosso mundo.
O que é estranho é como uma opção perfeitamente natural, feita com base em uma escolha de vida, pode ainda causar tanto choque. Volta e meia, o sujeito é visto com estranheza, chamado de egoísta, amaldiçoado pela diferença. A questão é, na realidade, muito simples: não ter filhos não é uma atitude egoísta porque se não está privando ninguém de nada. O suposto filho simplesmente não existe. Portanto, é uma impossibilidade não só lógica, mas fática, de que alguém saia perdendo. Esse "alguém" não existe. O egoísmo só pode existir se alguém está sendo privado de algo. Reitero: esse "alguém" não existe.
Nada contra as pessoas que querem ter filhos, mas tê-los significa uma série de restrições que não estou disposto a comprar. E ninguém perde nada com isso. O "outro" - o suposto filho - não existe. Eu sei que tem muita gente que só consegue enxergar sua vida a partir da imagem da família burguesa, organizada a partir dos filhos, com casinha, esposa, tomando café e levando as crianças para o colégio, saindo para trabalhar e depois voltando cansado. BELEZA. É a opção de vocês. Não queiram dizer que eu preciso aderir a isso. Porque eu tenho outros planos. Porque eu vejo sentido na vida sem ter casinha, crianças e sucrilhos. Porque eu acho que tem um monte de coisas legais para se viver sem precisar recorrer à relação parental.
Desculpem, mas nunca mais me recuperei da leitura de "Memórias Póstumas de Brás Cubas", do Machado de Assis. Nunca mais. Desde que li "não deixei a ninguém o legado da nossa miséria", jamais sonhei novamente em ter filhos. Esse mundo é cão demais. E, reitero, porque não custa repetir, não estou prejudicando ninguém na sua não-existência, porque "não existir" não comporta, lógica e faticamente, uma privação. A sensação que temos a esse respeito é sempre uma sensação baseada numa "idéia de filho" dona de uma espessura representacional tão poderosa que parece real. Mas não é.
Claro, o egoísmo pode acontecer se a parceira quer ter filhos. Nesse caso, não vejo bem como equacionar as coisas. Mas é outra coisa distinta. O importante para mim é ressaltar que não há nada, absolutamente NADA, de errado em não ter filhos. Lógico, não? É, mas, pensa bem, tu sempre fica com uma pulga atrás da orelha a respeito. Ligue a vigília já.

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Quinta-feira, Julho 09, 2009

HUMANO, DEMASIADO HUMANO


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Quarta-feira, Julho 08, 2009

A FÍSICA VAI NOS DAR TODAS AS RESPOSTAS?

PARA OS ATEUS, como eu, a evolução das ciências é algo extremamente bem-vindo. A cada momento que passa, questões antes sem resposta ganham explicações e nos sentimos menos escravos da transcendência "lá fora", ou seja, daquilo mundo que não é o nosso, pelo qual vivemos com medo durante tantos séculos. A física, particularmente, apresenta respostas para questões essenciais, provocando um desvencilhamento do mundo "sobrenatural".
No domingo, o ótimo colunista Marcelo Gleiser escreveu na Folha de São Paulo um artigo chamado "Consciência Cósmica". Gleiser afirma que tradicionalmente as questões essenciais eram delegadas a explicações sobrenaturais (míticas ou religiosas), mas que, hoje em dia, a ciência as encara. E procura arrolar um primeiro tema, que é o seguinte:

1. O cosmo é único, resultado de uma estrutura matemática que a física teórica vislumbra em raros momentos. Por trás da enorme diversidade das coisas, em particular da matéria e das suas propriedades, existem leis bem determinadas e eternas que ditam desde a existência do Universo ao valor da carga e da massa do elétron.

Se algum dia obtivermos essa teoria unificada, a teoria de tudo, teremos chegado ao ápice da racionalidade, decifrando o código secreto da natureza.

(A "mente de Deus" como Hawking e outros afirmam.) Segundo essa visão, a vida e a mente são acidentais, já que a física e a química têm pouco ou nada a dizer sobre a emergência da vida.

Fiquei pensando nisso que Gleiser escreveu. Será que, se decifrarmos uma "teoria de tudo", teríamos também a "mente de Deus"? É aqui que aparece a ingenuidade epistemológica do cientista.
A Modernidade, desde Descartes, pensou a relação sujeito/objeto, mediada pela razão, como o vínculo fundamental do Eu com o Mundo. As relações internas desse sujeito seriam a "subjetividade". O objeto, para que bem estabelecido o pensamento científico, deveria ser apreendido na sua "pureza", limpo de qualquer dessas interferências "internas", formando assim a "objetividade". (A "subjetividade" é então delegada à psicologia, que por sua vez investigaria objetivamente essas relações internas.) A "objetividade" nos guiaria ao pensamento absoluto, válido independente do tempo e do espaço, quando confrontaríamos as coisas "nuas", ou seja, "puras", sem referência a qualquer interioridade. Por isso a pergunta fundamental da Modernidade sempre foi a pergunta epistemológica.
Pois não é exatamente esse o sonho da "mente de Deus" de Hawking? Encontrar o universo "nu", mapeá-lo para assim controlá-lo, detendo o "pensamento absoluto"? Encontrar a "objetividade última", o último ponto em que o pensamento se desconecta de si mesmo e passa a ser apenas um espelho final do mundo?
Desde Nietzsche até Heidegger e os demais contemporâneos, parece claro que a "objetividade" não esgota o ente. Ou seja, a dimensão "objeto" nada mais é do que uma faceta do ente - uma específica faceta que permite o controlar e medir -- mas jamais esgota a totalidade desse ente. Ao contrário dos esotéricos, que usam bizarramente filosofia e física quântica para inflacionar o sujeito até sua implosão em uma espécie de mônada-solipsista (leia-se: "O Segredo"), todo esforço da filosofia do século XX -- de Bergson a Adorno, de Benjamin a Levinas, de Husserl a Foucault -- foi justamente recuperar essa esfera fora-de-controle do sujeito e mostrar como ela excede a dimensão "objetiva". Sem desmentir a ciência, sem retirá-la do seu papel fundamental, esses filósofos trabalharam no sentido de desfazer a idéia de que o intelecto é o mundo, que chegou ao poderoso ápice em Hegel -- ou, para Heidegger, na "vontade de vontade" de Nietzsche. Separando razão e realidade, o ente retoma sua dignidade e ganha mais faces. Assim, a dimensão sujeito/objeto não perde sua importância, mas sim o lugar fundamental. A epistemologia continua sendo importante, mas não "filosofia primeira".
É por isso que valorizo a obra de Heidegger, apesar das várias críticas possíveis a ele. Heidegger nos ensinou que a dimensão sujeito/objeto não é fundamental porque ela já pressupõe outra relação mais fundamental. Heidegger parte da premissa de que o pensamento não pode partir da pretensão de exceder o tempo e refugiar-se em direção ao absoluto, procurando o infinito. O pensamento precisa, primeiro, pensar-se a si próprio na finitude. Não transbordar a condição temporal, mas assentar-se nela. Ele traz de volta o pensamento ao concreto, ao "aqui embaixo", não em um pensamento que busca cada vez mais se aproximar do absoluto, mas pensamento que pensa a si mesmo enquanto finito. Essa teria sido a fraqueza fundamental da tradição e a razão da destruição da metafísica. Reconhecer que a metafísica deve ser destruída significa circunscrever cada "princípio epocal" (as idéias de Platão, a substância de Aristóteles, o Deus dos medievais, o sujeito de Descartes, a "vontade de vontade" de Nietzsche, etc.) como uma determinada manifestação do Ser, e não como um mero erro que deve ser descartado a cada passo mais próximo do pensamento absoluto. Cada "princípio epocal" corresponde a uma forma finita em que o Ser foi pensado.
Partindo da faticidade, ou seja, do tempo [como certa vez disse o Timm (que não gosta de Heidegger) em sala de aula: "no século XX o tempo se vinga" (basta pensarmos em Rosenzweig, Benjamin, Bergson, Levinas, Derrida, etc.)], nós percebemos que para chegarmos na objetividade partimos de um ponto prévio, uma pré-compreensão do objeto. Essa pré-compreensão indica que já estamos em um solo prévio antes de começarmos a colocar os problemas científicos. Ser é ser-no-mundo. O mundo precede o empilhado de objetos que a ciência arrola. O sujeito não existe sem um mundo (se não tivéssemos mundo, seríamos como nossos irmãos macacos e gorilas). Assim se resolve a complicada e artificial "ponte" entre Eu e o Mundo que a Modernidade tanto pensou como relação entre "sujeito" e "objeto". Ser já é ser-no-mundo; o mundo já está dado, sem ele, não sou sujeito. Sem uma pré-compreensão do ente não chego ao objeto. Sem mundo (sem ser Dasein - "ser-aí") não sou sujeito. Ser é já estar-lançado no mundo. A "tábua rasa" de Descartes é uma ficção. A condição epistemológica é precedida pela condição ontológica -- é derivada.
A teoria de Gleiser parte da ingenuidade de que existiria esse "vocabulário final" que seria o da física. Ele toma a objetividade como originária. O que aconteceria se tivéssemos esse "mapa"? Ora, provavelmente muita coisa. Mas também é provável que, quando nos deparássemos com a descrição física da "mente de Deus", perdêssemos todo mundo. Como assim? Significa que a redução das coisas à sua dimensão objetiva não é capaz de apresentar as "coisas nuas", mas apenas uma apresentação dessas coisas. A descrição científica é apenas uma descrição, não a descrição fundamental. Pode ser a mais apropriada do ponto de vista da verdade como adequação, dentro do jogo de linguagem científico, mas não vai além disso. Uma árvore não deixará de ser uma árvore depois que se identificarem seus elementos físicos (e continuará, por exemplo, podendo ser cantada pelos poetas). A física não é capaz de dar conta integral do "mundo" (embora possa provocar milhares de mudanças nele). Essa dimensão originária e essencial não existe, é como a cebola que se descasca e não tem centro. A própria descrição física nada mais é do que mais uma casca da cebola. É como se disséssemos que o cérebro da mulher tem a reação Z quando vê um homem de pau duro porque o cérebro produz X e Y reações. Isso é parcialmente falso. Por que, afinal, o cérebro produz X e Y exatamente quando o homem está de pau duro, e não em outras circunstâncias? Porque o desejo já transborda da "natureza", já se circunscreve em outra ordem (da linguagem). Do fato de o cérebro produzir X e Y não é possível deduzir isso como causa da reação Z da mulher. Isso é incapaz de explicar porque ocorre só na situação descrita, e não em outras, se o fenômeno é biológico. Ou seja: a neurobiologia jamais será capaz de mapear o humano, assim como a física da "mente de Deus". Não existe centro na cebola.

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Terça-feira, Julho 07, 2009

NOVOS BLOGS ADICIONADOS:

-- TPM, Manifestações criativas de impulsos homicidas, por A. Behegaray;
-- Homo Criminalis, por Salo de Carvalho;
-- Distropia, por Fabricio Pontin, Marcos Fanton e outros;
-- Céu da Boca, um universo escrito com batom, por Majoriebier;
-- Brasília, eu vi, por Leandro Fortes;
-- Professor Hariovaldo Almeida Prado, por Hariovaldo;
-- RS Urgente (novo endereço), por Marco Weissheimer;
-- Ferréz, por Ferréz;
-- O Reduto, por Felipe;
-- Luis Nassif, por Luis Nassif;
-- Casa Warat, por Luis Alberto Warat;
-- Alexandre Morais da Rosa, por Alexandre Moraes da Rosa;
-- Criminologia e etc., por Aline Pecharki;
-- Tudo vira hipótese, por Cristiane Russomano Freire.

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Domingo, Julho 05, 2009


NOSSO CONSERVADORISMO NAS RELAÇÕES

COMENTO muito pouco por aqui sobre relações. Os papos preferidos do somepills - pelo menos nos últimos dois ou três anos - têm sido mesmo política, futebol, filosofia, criminologia, música, cinema, livros. Talvez porque eu me sinta bastante inseguro com respeito ao tema. Provavelmente porque acredito saber bem pouco. Mas, de vez em quando, dou uma pitada.
Fico impressionado como nós somos ainda conservadores em termos de relações. Dos meus conhecidos -- amigos e amigas -- não conheço unzinho/umazinha que aceite formas não-clássicas de relação. Todos seguem o mesmo estilo: namoro, casamento, monogamia, ciúmes, projetos de filhos e casa comum. Interessante, pois a maioria dos amigos e amigas, embora não exatamente "exóticos", são pessoas não-convencionais (dá para imaginar a minha incapacidade de relacionamento com gente de fala de "cidadão de bem", por exemplo). Por que raios todos nós seguimos o mesmo modelo?
É engraçado. Provavelmente propor algo do gênero pode custar bem caro. O outro ou a outra pode se ofender. "Propões isso porque achas que não sou boa o suficiente?". "Tu quer dar para outros magrões?". Não creio que isso tenha a ver com machismo meu. Porque, na realidade nua e crua, essa da qual nós hipocritamente não conseguimos falar, minhas amigas também tiveram probleminhas bem significativos com as instituições tradicionais. Não ponho nem um centímetro a mais de mão no fogo pelas mulheres em relação a temas como infidelidade, egoísmo, ciúmes ou mentiras. A forma é normalmente diversa. Mas elas também fazem tudo isso. Ontem eu andava de carro com minha irmã e uma amiga e ela falava no telefone: "ah, amiga, estás louquinha para pular a cerquinha... cerquinha, cerquinha!". É igualzinho.
Lá vou eu com uma afirmativa forte: todas as pessoas que conheço já se envolveram com outras pessoas enquanto estavam namorando. Os mais insuspeitos; as mais fiéis. Isso significa que têm mau caráter? Não creio. A maioria fraquejou. Nem todos ou todas, claro. Alguns foram bastante fdps. Mas a maioria absoluta sucumbiu ao desejo, não resistiu. Continou amando o namorado ou a namorada, se relacionando bem, mas não resistiu ao desejo. Mas toda vez que eu pergunto para eles e elas por que não conseguimos pensar em outro tipo de relação, ou quando afirmo que todo mundo trai, a resposta é a mesma: nem vem querer mexer nisso. "Não tem como". "Impossível". "Só funciona assim". "Se descobrir, paciência, acaba. Se não descobrir, deixa assim". "Essas coisas têm que ficar escondidas".
Entendo o medo. Entendo porque compartilho. Sou bem conservador também. Não admito infidelidade, por exemplo. Mas por que raios -- alguém me explique, please -- se 99,99% dos meus amigos e amigas traíram, e não fizeram de sacanagem, nós não chegamos à conclusão de que as regras são um pouquinho irracionais? Não sei explicar. Não consigo admitir a possibilidade de a minha namorada com outro. Mas isso é uma irracionalidade minha? Meus amigos já ficam bravos comigo só porque toco no assunto. Apanhei verbalmente de mais de cinco magrões porque afirmei que digo para minha namorada que todo mundo trai. Eles são radicalmente contra dizer essa verdade. Mas eu disse: todo mundo. Logo, ela também pode me trair (espero que não). Fato. "Ah, mas tu estás afirmando algo que ela não tinha pensado". HAHAHA! Vai ser ingênuo assim lá na Arábia Saudita, amiguinho. Um dos principais defeitos do homem é seguir aquele ditado que diz que "amigo de mulher é cabelereiro". Quem pensa isso só pode ser burro. Homem que não tem amigas não entende nada de mulher; não entendendo, é um homem de merda para elas. (Não apenas meus amigos; tenho certeza que a minha namorada também detesta que eu escreva ou fale sobre essas coisas.)
Uma pergunta que tenho feito e a ausência de resposta é sintomática: é possível uma ética - por exemplo, a ética da alteridade - na relação? Tenho sinceras dúvidas. A leitura de Bauman do "amor líquido", por exemplo, não é uma coisa meio ingênua, conservadora? Será que Sade não sabia mais sobre isso que Bauman sabe? (Vou deixar isso para outro post.)
Não é estranho que entre meus amigos não-convencionais não tenha nenhunzinho que não queira ter filhos? Ou que queira morar em casas separadas? Ou que aceite a infidelidade sob certas condições? Ou que... não importa: o que importa é a ausência de fórmulas novas. vivemos na ditadura de uma fórmula de relação. E isso me irrita. Pois todas as ditaduras e totalidades me irritam. Toda sacralização da instituição é vexatória. E eu digo: nada é menos profanado hoje em dia que a relação.

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Sexta-feira, Julho 03, 2009

É PROIBIDO SONHAR

CONTARDO CALLIGARIS, comentando as últimas pesquisas realizadas com jovens sobre a sua visão da vida em geral pela Folhateen, chamava atenção para o fato de que estamos diante de uma geração de "sonhos baixos", burocrata, incapaz de se aproximar de grandes projetos, almejando apenas um bom e estável emprego e se definindo, predominantemente, "de direita".
Parece que o grande sonho do pensamento hegemônico na década de 80 se consumou. A minha geração, de fato, é incapaz de sonhar. Perdemos o direito de sonhar. Admitir utopias virou ofensa. Todo interlocutor que quer atirar no discurso alheio afirma: "isso é utópico!". Ou as pessoas se desculpam: "sei que é meio utópico, mas...". Afirmar algo diferente do insuportável cotidiano virou motivo de chacota ou uma piedosa consideração. Desde quando perdemos a capacidade de pensar as possibilidades de um lugar diferente do nosso? A roda do tempo parou de girar? Paradoxalmente, foi o último profeta contemporâneo que decretou: "the dream is over".
Os anos 80 e 90 se aproveitaram do vazio da frustração dos sonhos messiânicos da contracultura. Com um indivíduo desiludido, mas ao mesmo tempo livre das regras tradicionais (portanto, de todas as amarras), pôde se afirmar o tipo de racionalidade que hoje é predominante: o cinismo. "Sei que é errado, mas todo mundo faz". "É um absurdo, mas sempre foi e será assim". "Teremos sempre que conviver com injustiça". "Isso é pensamento de carola". "Bonito seria esse gesto, mas, como ninguém faz, eu também não faço". "Esse pensamento é absurdo, totalmente utópico". "Deixa de ser bobo". "Eles se fazem de coitados". Frases predominantes na minha "pragmática" geração-X, talvez ainda mais poderosas hoje em dia. Pensar a diferença - portanto, pensar - se transformou em algo insuportável. Ofensivo. Dá raiva nas pessoas (mesmo!). É proibido pensar o bem ou a felicidade; é só o cinismo e o cada-um-por-si que vigora. Quem ousa discordar é um hipócrita. Mesmo que não seja. Ou é a figura mais ofensiva de todas: o "ingênuo". (Ingênuo é quem rejeita o cinismo e a perversidade da nossa época.)
Acho triste isso. Claro, muito foi em razão de circunstâncias políticas contingentes. A queda do Muro de Berlim foi um golpe estonteante na esquerda. Não é "moda" ser de esquerda. Fórum Social Mundial é coisa daqueles "bichos-grilo-fumadores-de-maconha" que não se confundem conosco, os "realistas" (cínicos). (Diga-se de passagem que esse bicho-grilo e sua maconha são muito menos nocivos que alguns empresários que ganham prêmios e são defendidos por teorias políticas conciliatórias.) Os ainda resistentes à direita foram para o liberalismo político, defendendo no máximo uma social-democracia bem-comportada (ou a sacrossanta "Constituição Dirigente"). Questionar o modelo liberal do contrato social, democracia representativa e império da lei virou algo quase "irracional", senão de "dinossauro". Outros resolveram migrar para a direita mesmo e ficar bem engravatados no seu atuarialismo blasé. E outros, finalmente, foram para o fascismo. "Tem que matar tudo!"
Já é hora de virar o jogo. Obama pode ter mil problemas, mas sua eleição representou uma espécie de rejeição de modelo cínico de política (a chamada "realpolitik"). Não dá para acusar o presidente norte-americano de não ser alguém que atua com princípios, ainda que se discorde deles (e isso desvincula princípios de sectarismo ou fanatismo). É preciso que voltemos a sonhar. A tragédia cotidiana não é inevitável. É pura contingência. Pensadores duros como Foucault, Agamben e Bauman não cansa(ra)m de afirmar: nossas análises não são pessimistas; ao contrário, mostram a contingência das estruturas que produzem infelicidade e a sua reversibilidade. Por que ser utópico virou ofensa? A utopia não é o que nos impulsiona em direção ao Novo? Se o tempo não parou, o Novo continua sendo possível. E, apesar de certo pensamento de "fim da história" ainda hegemônico na mídia (em vias de declínio -- tanto essa "razão ardilosa" quanto a própria grande mídia), a história não terminou.
Sonhemos. Com ambição. Sem tréguas, sem limites, no pensamento infinito. É tão bom ouvir "Imagine"! Por que ser "ingênuo" virou algo ofensivo? É o maior dos elogios. A inocência infantil é a força da própria experiência de vida. E é a vida que o não-pensamento contemporâneo quer colonizar com seus incontáveis dispositivos. Vamos profanar até a última centelha da cultura e pensar sem limites um futuro completamente outro. Esse é o desafio da geração que vem.

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