No primeiro e único encontro da "Confraria do Cérebro", ainda me recordo de G.D. e Peter Pan se arreando em mim, por colocar obscuridades nas "trilhas sonoras" dos posts, e especial menção ganhou "Glósóli", do Sigur Rós. "Glósóli!", e risadas da minha cara.
Pois semana passada, olhando a primeira vez que passava o excelente programa "Later", de Jools Holland, britânico, no Multishow (domingo, no fim da noite), onde as mais diversas bandas tocam, deparei-me novamente com o Sigur Rós. Tinha achado "Takk" estranho, especialmente pelo vocal agudo e grandiloqüente, com palavras estranhas.
Mas a execução das belíssimas "hoppípolla" e "mea bloanásir" [a banda compõe em um idioma misto de palavras inventadas e sua língua natal, o islandês], simplesmente fiquei chocado. O Sigur Rós é simplesmente uma ORQUESTRA. Além do seu vocalista tocar guitarra como se fosse violino, o amálgama do vocal suave e límpido com um peso monumental e cadenciado, que por vezes crescia de forma grandiloqüente na música me fez ouvir "Takk" e, desde então, não penso em outra coisa.
Sigur Ros é mais uma banda do "pós-rock", uma tendência que abriu mão das melodias fechadas e privilegiou harmonias múltiplas, variáveis, sem o refrão, sem o retorno, o fechamento, mas em uma constante evolução e erupção. Mogwai e Tortoise são outras bandas dessa tendência --- que bebe suas fontes no shoegaze, rock progressivo, Radiohead, jazz e elementos eletrônicos.
Mais gostei ainda quando ouvi a descrição do Sigur Rós como a banda que faz o "canto das baleias brancas". Realmente, o som é uma combinação oceânica, gélido, de dimensões monumentais, que ganha suavidade pelo vocal. O contraste entre os dois elementos, um instrumental pesadíssimo e um vocal suave, faz a música se tornar complexa e deliciosa. As harmonias são simplesmente inacreditáveis. Passam de uma delicadeza angelical a um peso estrondoso. "Glósóli", "Saeglopur" (minha preferida) e "Milano" são lindas demais, nas suas variações de harmonia impressionantes. Escondem segredos. Podem soar totalmente inaudíveis, por serem pesadas ou leves. Ambigüidade onde se esconde o seu valor artístico.
Rock é transgressão, hedonismo, explosão. Mas é também talento. E talento o Sigur tem, e muito. A capacidade de fazer os meus ouvidos se deliciarem, provocar sensações agradáveis, me faz acreditar que a música é, realmente, um bálsamo dionisíaco onde os instintos mais primitivos do meu ser se satisfazem, em um gozo retumbante.
Meu conselho: ouçam sem preconceito. Ignorem, no início, a estranheza da língua e do vocal. Centrem-se no instrumental. E, após quebrada a primeira barreira, contemplem a beleza do amálgama. Simplesmente monumental.
Sigur Ros, "Takk" (2006).
Glosoli - Sigur Ros
Keyra
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Trilha sonora do post: Sigur Rós, "Glósóli".