Mox in the Sky with Diamonds

terça-feira, agosto 21, 2007



IMPACTO AVASSALADOR
Foi por conselho de G.D., parceiro do blog vizinho e, nas horas vagas, apreciador da sétima arte, que, em um jantar pós-conferências na suja cidade de Pelotas, tomei conhecimento do filme "Z" (1969), do muito conhecido diretor grego Costa-Gravas. Para quem acompanha esse blog, deve se lembrar do artigo sobre o recente "O Corte" (2006), do mesmo diretor. Também já conhecia "Amen" (2002), libelo contra a omissão da Igreja Católica durante a Shoah, e o brilhante "Seção Especial" (1975), que trata da República de Vichy, território francês que ficou sob as ordens da Alemanha nazista.
Já conhecia nominalmente "Z", mas somente naquele momento tomei ciência da sua inquestionabilidade. Posso dizer que, passada a experiência da película, seu impacto, agora, é inestimável. O filme reflete exatamente o que eu penso em termos políticos. 1969, amigos.
No post anterior, discutia, nos comentários, com GD e OB, o fato de que, para mim, "militarismo" e "direita" são palavras que andam juntas. Não consigo as dissociar. Certamente sou influenciado por um contexto latino-americano de ditaduras assassinas que serviram a elites podres, interessadas em manter a desigualdade social em níveis insuportáveis, como vivemos hoje. Mas eu insisti em responder os comentários porque a discussão, para mim, não se resumia a um equívoco, e sim a uma visão política geral, que deve ser debatida.
O militarismo é uma tendência à direita. Reservo a expressão "esquerda" para, fundamentalmente, tratar de manifestações que visem à alteração do status quo em prol da redução das desigualdades, de um lado, e diminuição do sofrimento, de outro. Por isso, considero o campo da esquerda diametralmente oposto a qualquer militarismo. Enquanto ideologia, o programa militar é de guerra, purificação, definição do inimigo, conservadorismo social, tradicionalismo, etc. Não consigo associar isso à palavra "esquerda". Quando Stalin colocou suas tropas no Leste Europeu, não estava sendo "de esquerda", mas apenas criminoso.
A palavra "esquerda", para mim, tem um sentido de "justiça" e "respeito". Justiça que se dirige fundamentalmente contra desigualdades sociais, contra a existência de uma camada que explora as demais ou simplesmente está indiferente à miséria alheia. Respeito que encarna a atitude de alterar nossos vocabulários para retirar estigmas, aceitar a diferença, desvencilharmos de estratégias de repressão. É especialmente nesse segundo sentido, que começa a ganhar maior aceitação apenas após a década de 60, que o termo "esquerda" encontra-se no campo político oposto ao militarismo. Ambas tendências poderiam ser resumidas da seguinte forma: atitude de não-indiferença em relação ao outro. É nesse ponto que vejo convergência entre pensadores tão distintos como Rorty, Derrida, Levinas, Habermas e Deleuze. Todos se opõem a uma atitude que eu chamaria "fascista", e é refletida com perfeição nos princípios militaristas. Existe uma "esquerda" que tem proximidade com esse fascismo -- aquela que não incorporou o "respeito" -- mas, de forma alguma, podemos dizer que ela é "A" esquerda.
A democracia é o melhor instrumento para essa esquerda. É na democracia que se pode "tudo dizer". Como os melhores argumentos estão a favor dessa tendência, como nos dizia Rorty, penso ser possível, a partir do diálogo, modificarmos a situação.
Costa-Gravas nos prova, em primeiro lugar, o quanto essa esquerda incomoda. Sem se filiar ao marxismo, ela se opõe ao poder com argumentos, os melhores argumentos, capazes de se equiparar às bombas do Estado-policial. Esses argumentos são incrivelmente explosivos, a ponto de causar mortes de quem os defende.
Depois, nos mostra, junto com isso, o potencial subversivo do "dizer a verdade". Creio que isso tenhamos aprendido com Michel Foucault, ou, antes dele, Nietzsche. Paradoxalmente, os pensadores que pareciam desprezar a "verdade" dos cientistas e dos filósofos tradicionais foram os que, mediante redescrição dos nossos hábitos "normais", foram, aos poucos, desmontando as engrenagens fascistas que, ao longo do tempo, foram se impondo enquanto "naturais". As fronteiras da "normalidade" foram sendo desbastadas, a partir de novas narrativas -- da perspectiva dos "Outros" -- sobre a sexualidade, loucura, criminalidade, etc. Foucault não pretendeu, em momento algum, ser "conciliador" ou não dizer, a pretexto moral, a verdade nua e crua. Foucault nos jogou na cara uma verdade acre e suja, a da nossa repressão. Como ele, também pensadores como Hannah Arendt, Derrida e hoje Agamben e Bauman nos esfregam na cara a verdade, sem promessas ou escrúpulos, para que tenhamos que lidar com ela.
O filme ainda mostra quem são os adversários: brutamontes incapazes de argumentar, prontos para utilizar a força para manter o status quo, conservadores insensíveis para a condição das outras pessoas, fascistas que odeiam as bibliotecas e tudo aquilo que se opõe a uma ordem cruel que se mantém com base na selvageria. Por ironia, um dos personagens é um homossexual "machão", desses que estamos acostumados a ver por aí proferindo discursos contra os gays e a liberalização dos costumes, como que para compensar seu problema mal-resolvido.
Por fim, Costa-Gravas ainda nos brinda com a máquina burocrática perversa estatal, capaz de engolir as maiores atrocidades e mostrar que, visivelmente, a afirmação de Walter Benjamin é verdadeiro: há muito tempo a emergência, o estado de exceção, tornou-se a regra. Basta que olhemos o que acontece de fato, e não apenas malabarismos jurídicos confirmadores.
"Z", um dos melhores filmes que vi na vida. "Z" é a nossa esperança contra o fascismo. Ele ainda vive.



Trilha sonora do post: Cripped Black Phoenix, "The Whistler".