Mox in the Sky with Diamonds

segunda-feira, janeiro 09, 2006

Política: esse enigma
Quando achamos que todas as cartas estão dadas e o jogo está claro, sempre aparece alguma coisa que, de certa forma, desmonta o nosso castelo de cartas. A política é muito mais que uma questão de certo e errado: é um constante equilíbrio e reequilíbrio de forças, especialmente em uma democracia, quando ela realmente tem espaço para funcionar. Radicalizar de um lado, por exemplo, pode gerar tanto a radicalização oposta quanto uma aproximação, por meio de concessões.
Nesse contexto, é paradoxal a provável morte de Ariel Sharon, que se aproxima. Sharon é um dos políticos mais abomináveis da atualidade, um militar sangüinário que foi eleito pelos judeus ortodoxos para fazer o "serviço sujo" na Palestina. Compartilhou dos piores ideais, foi aliado fiel de Bush e patrocinou inúmeras chacinas de "retaliação".
Curiosamente, como nada na política é definitivo, as forças hoje estão balanceadas de forma que Sharon, inacreditavelmente, ocupa o centro da política israelense. Forçando a retirada da Faixa de Gaza e com mais planos de desocupação, parecia trazer um certo alento. Hoje, a morte de um dos políticos mais terríveis dos últimos tempos significa, a rigor, um perigo de que piores assumam em seu lugar.

Grêmio
Começo a ficar preocupado. O tempo vai passando e os reforços tardam. Na lateral direita, ficou Alessandro, que não tinha correspondido na temporada passada. Uma espécie de aposta, já que ele, na verdade, jogou pouco. Precisamos de um novo lateral esquerdo. Marcão, ex-Atlético-PR, era o ideal, mas parece mais próximo do Flu. Fabiano, do Palmeiras, deixou de ser contatado. Errado. Falta um meia e um centroavante. Paulo Ramos e Pedro Junior devem ser, sim, apostas, mas apostas, não titulares com quem se conta em todos os jogos. Devem ir entrando aos poucos. Illan seria ótimo reforço; Gilberto, sem palavras. Marcão, Illan e Gilberto, os alvos mais freqüentes no noticiário, são exatamente o que o tricolor precisa. Ou seja, há esperança: até agora, a Direção parece estar se pautando por trazer reforços qualificados.

Polêmica no MinC
Ferreira Gullar reclama da política levada a cabo pelo Ministério da Cultura, que prejudica cineastas mais antigos. O Secretário de Gil responde que o poeta é estalinista. Caetano reclama do MinC: diz que um Ministério não deve reagir assim a críticas. Gil responde: tudo isso é prova do esforço democrático do Governo, ao tentar levar as verbas da cultura para além dos seus clientes freqüentes.
Uma discussão precede isso tudo. Que papel tem um Ministério da Cultura no Brasil? É ridículo ficarmos achando que ele deve ter grande preponderância. Num país em que ainda há inúmeros bolsões de pobreza, dar dinheiro para o Walter Salles parece algo meio distorcido em termos de prioridade. O único Ministério da Cultura que o Brasil deveria sustentar seria algo vinculado ao Ministério da Educação, como parte das políticas públicas de inclusão social. O restante é lobby corporativo (como sempre!) dos cineastas, que não hesitam em sempre culpar "o governo". O "governo" abandonou o cinema e o teatro.
É tudo culpa do governo, seja que governo for. Como se tivesse sido Jefferson, Roosevelt ou Kennedy que fizeram crescer Hollywood ao ponto que chegou. Vão correr atrás da iniciativa privada! Filmes como Cidade de Deus, Cidade Baixa, Central do Brasil, O Homem que copiava e Casa de Areia são credenciais suficientes para um bom patrocínio.
Menos malha corporativa, mais acesso universal (poliarquia), democratização e direcionamento a quem realmente necessita é o que precisa o Brasil.

Democracia - outro paradoxo
Os pontos fortes da democracia são exatamente os mesmos que os seus pontos fracos. A ausência de uniformidade, constância, segurança, planejamento, a constante "desordem", tensão, negociação, desequilíbrio e reequilíbrio de forças são exatamente os mecanismos que fazem ela funcionar bem e mal.
Mal, no sentido de que impede que tenhamos planos a longo prazo, consensos sobre questões importantes, medidas definitivas de solução. Muitas vezes há interesses em jogo. Bem, porque é o melhor regime de governo - limita o poder, evita autoritarismo, permite a fiscalização, a pluralidade, a poliarquia (acesso de todos aos bens públicos) e a tolerância.

A aliança do Diabo --- necessária
Eu já disse aqui várias vezes e vou ter que repetir. PSDB e PT devem parar com esse Gre-Nal. Apenas reunindo os políticos dos dois partidos, com uma base de sustentação consistente no Congresso, poderíamos traçar um projeto de dez, quinze anos para o país. Ambos concordam, na prática, com duas matrizes básicas: política econômica enxuta e responsável combinada com políticas sociais de diminuição da pobreza. É o que dá pra fazer atualmente. Somaria a isso apenas uma política consistente de segurança (no que, aliás, também os dois partidos concordam), de saúde (idem) e educação (há discordâncias, mas podem ser superadas).
Além disso, seriam os únicos que poderiam - JUNTOS - derrubar grande parte do "atraso" que governo o país, aí entendidos especialmente PFL, pelo menos metade do PMDB, o PP fisiológico e o PTB. Com isso, conseguiríamos alavancar um processo de reconstrução da política nacional, com ênfase no senso republicano (acesso universal aos bens públicos) e democrático (participação de todos no processo de elaboração das leis).
São os únicos partidos capazes de enfrentar o "atraso" e o corporativismo: sua união, em aliança, é imperiosa.



Trilha sonora do post: Idlewild, "The space between all things".