Mox in the Sky with Diamonds

segunda-feira, fevereiro 28, 2005

O Cristianismo!

A Igreja Católica

Depois de mergulhar no universo O Nome da Rosa (livro/filme), é risível toda essa cobertura da provável morte do Papa. A Igreja aniquilou seu legado espiritual ao se deixar levar por ideologias megalomaníacas e, como toda organização humana, ter um altíssimo grau de corrupção. O Papa João XXII, de quem o livro fala, era um cardeal sangüinário que exterminava, sob alegação de heresia, todos os que a ele se opunham. Com isso, tentou exterminar a única ordem que realmente externava as idéias verdadeiramente cristãs: a franciscana. Tivesse a Igreja seguido o caminho da pobreza e abandonado antes o poder temporal, poder-se-ia imaginar que não estaria num declínio tão veemente. Hoje, se tornou uma instituição patética, cujas declarações não importam mais sequer aos seus seguidores, como se fosse uma espécie de velha mentalmente deformada. A propaganda contra a Igreja não é inócua, mas desnecessária: deixem o próprio velhinho polonês e seus assessores punheteiros falarem.


Fica o ruim, o bom se vai
Impressionante como o ser humano se agarra à podridão. A parte boa do cristianismo, que são exatamente as lições de desprendimento, solidariedade, caridade, igualdade e tolerância, enfim, aquelas que parecem ter sido as palavras do Cristo genuíno, foram soterradas por uma ética capitalista que privilegia um individualismo exacerbado, fundamentalmente baseada na noção de propriedade e concorrência. Não se aceita que desfavorecidos "furem a fila". Que esperem 100 anos até o capital chegar a eles. Que o mundo caia. E a fé, na prática, que se foda. Ouço no rádio manifestações contra padre que defende o MST: "vá rezar missa!".
Ficamos com a parte ruim, denunciada por Nietzsche há algum tempo, consistente em prender o homem sob as amarras de uma moral de rebanho, impondo-lhe a culpa permanente sob seus atos, uma sede casta e puritana. Tudo é proibido, inclusive o prazer. Jesus era um político moderado. Propunha mudanças radicais, mas sem negar-se judeu e valorizar o Antigo Testamento. Pois bem: é essa moral sangüinária e cruel do Antigo Testamento que prevalece sobre a mensagem de tolerância e solidariedade do Novo. A mensagem da punição, do pecado. Parados: olhando o condenado sofrer a injeção letal para pagar pelos seus crimes. Assim muitos de nós se deleitam com sua sede eterna de vingança, um pouco de recalque pela mediocridade cotidiana que rege suas vidas.


A vida do cristão comum, hoje em dia, é um símbolo do horrível: cheio de tabus sexuais, eternamente punitivo, egoísta, individualista, totalmente alheio às conseqüências práticas da sua fé e esperando um lugar para SI MESMO num céu que, desculpem, não existe.


Não, eu não tenho mais paciência com o ser humano. Se matem logo, se enfiem nas cadeias, façam da mensagem de paz uma declaração de guerra. Morram com o estômago cheio das suas riquezas nojentas e desprezíveis.



Trilha sonora do post: Radiohead, 'How to disappear completely'.

terça-feira, fevereiro 22, 2005

Férias
Maravilha de férias. Praia do Rosa. Carnavation psicolation, com direito à presença de 20 cabeças excêntricas na mesma casa. Carnaval aditivado. Melhores momentos? Aditivo carnavaL Super Divertido, dançando primeiro 'Hose of jealous lovers', do Rapture, momento apocalíptico, depois psytrance pela madrugada inteira, todos tentamos quebrar o deck (foda-se que desabasse, o importante era dançar até a morte). A música eletrônica tem um efeito devastador, uma espécie de guia para a explosão interna que rola na empolgação da noite. Depois, prometi ver o dia amanhecer - e vi. Nascer-do-sol ao som de Air ficou absolutamente perfeito, recomendo a todos olharem as cores do céu se alteraram ao som do fantástico Talkie Walkie. Outro? Violãozinho na praia, com o Mariano tocando Verve e Oasis clássicos e a gente nem aí para quem tava em volta. Depois, Floripa, a 40m da praia, pra ninguém botar defeito. Um e outro trago na beira do mar. Belezoca.

Música
Como isso aqui não é confessionário, vamos ao que de fato interessa. Preciso de espaço meu HD. Então decidi fazer uma coletânea com bandas que tenho os discos inteiros, mas ainda não ouvi bem. Escolhi alguns singles e decidi que, o que eu gostasse, manteria. E deletaria o restante. Ou seja, dei apenas uma chance.

1. A. C. Newman, 'Miracle Drug' - integrante da banda The New Pornographers, lançou esse trabalho solo que recebeu altas notas do Gordura e do All Music, o que me fez baixá-lo. Me fez pensar: quem gosta de rock com critério, prima pelo gosto, muitas vezes erra na música pop. Diz: "isso é o ouro do pop"! Mas não é. Del.
2. Gomez, 'Extra Especial Guy' - Gomez é uma banda inglesa com integrantes multi-instrumentalistas que toca uma som pra lá de viajante, embora seja um tanto quanto pop. Muita boa música. Fica.
3. Rufus Wainwright, 'April fools' - excelentemente cotado dentre os músicos solo que lançam discos por aí, Rufus me impressionou por cantar o tempo todo. Ou seja, o vocal nunca é "falado", o tom é sempre alto. O instrumental muito bom tb. Fica.
4. Beta Band, 'Wonderful' - banda escocesa queridinha de Nick Hornby (lembram da cena do filme?), não me convenceu com suas esquisitisses e acabou na galeria dos monótonos. Del.
5. Ian Brown, 'Keep what you got' - o vocalista na finada Stone Roses compôs em parceria do Noel Gallagher essa música do seu disco do ano passado, que tem a cara do Oasis. Dá até pra imaginar o Liam cantando. Logo, é ótima. Fica.
6. Jeff Buckley, 'So real' - E-X-C-E-L-E-N-T-E. Sempre tive a impressão do Jeff como um cara que alterna ótimas músicas ('Last kiss goodbye', p. ex.) com chatisses ('Hallelujah'), mas essa música me convenceu que ele foi um GRANDE músico. Aliás, foi ele que inspirou a gravação da lendária 'Fake Plastic Trees'. É mole? Fica.
7. Interpol, 'Evil' - banda americana que se inspira no rock anos 80, especialmente Joy Division, já tinha ouvido várias vezes o Antics, mas não tinha batido nada. Desta vez, bateu. Insisti por ter lido muitas críticas favoráveis, das quais destaco a do Gordurama e de alguns dos blogs que visito. Ótimo, ótimo, que puta riff. Empolgante.
8. Elbow, 'Fugitive Motel' - umas quatro ou cinco resenhas favoráveis também me fizeram testar o Elbow, banda britânica da linha new acoustic com a qual eu já não tinha simpatizado quando baixei um cover chato de Tear Drop, do Massive Attack. O vocalista tem um vozeirão, mas confesso que achei o negócio frio demais para o meu gosto. Del.
9. Pulp, 'Common People' - depois da deprê, um pouco de animação com essa banda poser que dividiu as atenções do britpop com Oasis e Blur na segunda metade da década de 90. Bem inferior aos outros dois. A música é bem faceirinha, montadinha e tal. Fico meio em cima do muro. Acho que, música a música, até que dá pra ouvir. Fica, com ressalvas.
10. Suede, 'By the sea' (acústica) - com todo o respeito, chatíssima. O Suede não pode reclamar. Dei tantas chances assim para poucas bandas. Uma das principais bandas do rock britânico na primeira metade da década de 90 (o que é mal indício...), com visual glam e estilo pós-punk remanescente, salvo 'The Drowners' e mais duas ou três é bem chatinha. Del.
11. The Coral, 'Dreaming of you' - acho que eu já falei por aqui que o The Coral, ao lado do The Thrills e do The Rapture, são meus VÍCIOS há um tempinho, não? Essa banda inglesa de gurizada faz um som pra lá de original (agora, até clonado foi pelo The Zutons), espécie de alt-country-rock psicodélico. Uma piração total, pra lá de boa. PQP, fica certo.
12. Cat Power, 'He war' - Não sei se sou eu ou a Cat Power o problema, mas eu não curti esse som. Talvez eu tenha enjoado de cantoras solo. Só. Del.
13. Snow Patrol, 'Mahogany' - banda escocesa que recebeu o honroso (?) troféu de melhor disco do ano passado por esse blog, gravou essa baladinha feijão-com-arroz no disco anterior ao 'Final Straw' - 'Songs for the polar bears'. Não acrescenta muito, mas fica.
14. Ryan Adams, 'My Blue Manhattan' - injusticei o coitado do cara. É um ótimo músico e dono de uma obra bem consistente. Fica.
15. The Delgados, 'Keep on breathing' - banda inglesa que já tem uma obra interessante (dessas tipo Super Furry Animals, Ash e outras que ninguém conhece no Brasil). Tirei essa do "Universal Audio", álbum do ano passado. Boazinha, com um bom contorno pop. Fica.
16. John Frusciante, 'A loop' - balada viajante (eu não diria psicodélica, é algo mais) do ex-guitarrista do Red Hot Chilli Peppers, de um dos cinco (!) discos lançados no ano passado, quando, ao que parece, acabou o estoque de heroína desse rapaz. Fica.
17. N.E.R.D., 'She wants to move' - Ah, que coisa horrorosa. Horrível. Del, del...
18. The Delays, 'Hey Girl' - banda inglesa que estreou ano passado, com vocal feminino. Olha, achei a vocalista muito parecida com a Stevie Nicks. Não curto esse tipo de som. Del.
19. Babyshambles, 'What did Katie' - quanto mais ouço Libertines ou Babyshambles, mais vejo que esses chapados têm mais talento que parece. Muiiiiiiiito boa. Fica.


Ah, só mais uma coisinha: o disco mais importante do ano, até agora, é o do LCD SOUNDSYSTEM. A cara do (já) saudoso The Rapture.


Filmes
Não deixei de ir ao cinema em Floripa e por isso fui conferir Menina de Ouro e O Aviador.
- O Aviador - excelente filme, embora eu confesse que, a par de toda crítica cinematográfica, não consegui estabelecer empatia com o Di Caprio. Direção impecável de Scorcese, em estilo clássico. A questão daquele que se põe acima do imaginário nas nossas crenças.
- Menina de Ouro - que filme! Certamente melhor que o anterior, estabelece uma relação interpessoal complicada com uma delicadeza cirúrgica. Espontâneo, natural. E ainda dá uma virada inesperada totalmente cabível e animalescamente implacável. Altamente recomendado. Atuação impecável dos atores, com destaque ao clássico Clint, ídolo do meu velho e por mim sempre admirado, desde os seus westerns.

Livros
- Humberto Eco, 'O Nome da Rosa' - Êba! Consegui voltar a ler literatura com facilidade. Livro interessantíssimo, um pouco lento, mas excelente no seu detalhamento do pensamento medieval, duríssimo para nós. O livro trata de assassinatos que ocorrem num mosteiro durante um grande racha que ocorreu entre o alto clero do Igreja e a ordem dos franciscanos no papado do corrupto João XXII. O personagem Guilherme, inglês, é o próprio iluminista na Idade Média. Descrições fantásticas, trama instigante, filosofia da linguagem. E os signos, principal obsessão do autor.
- Fiodor Dostoiévski, 'Duas Narrativas Fantásticas - A Dócil e O Sonho de um Homem Ridículo' - depois de "Crime e Castigo", fica difícil para mim separar o russo, a quem Nietzsche derramou alguns dos seus poucos elogios, de Kierkgaard e do personalismo. Personagens extremamente atormentados, que divagam em temas nulos e se arrastam em pura mediocridade. Tristemente narradas, as histórias compõe um achado da mediocridade humana.

Li também vários outros contos russos, que me abstenho de comentar pq o post deve estar longuíssimo. Agora leio um pouco de literatura pop - Transpotting.


Ufa.



Trilha sonora do post: Interpol, 'C'mere'.